Especialistas se dividem quanto às consequências de o Brasil poder ficar fora da F-1

liviooricchio

15 de setembro de 2013 | 10h23

15/IX/13
Nice

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Ainda não é definitivo, restam sete etapas para o encerramento da temporada, mas até agora nenhum piloto brasileiro tem contrato para disputar o campeonato de 2014. Felipe Massa já sabe que não continuará na Ferrari. Seu empresário, Nicolas Todt, negocia com Lotus, Force India e Sauber. O outro representante do País em condições de competir na Fórmula 1 no ano que vem, Felipe Nasr, brasiliense de 21 anos, quarto colocado na GP2, também não sabe se poderá estrear ou terá de disputar a GP2 novamente.

Steve Robertson, responsável por sua carreira, aguarda como Todt a resposta de Force India, Sauber e até da Toro Rosso, apesar de o consultor da Red Bull, a quem a Toro Rosso pertence, Helmut Marko, ter dito ao Estado que Nasr não é candidato. “Será um piloto do nosso programa Júnior.” O mais cotado é o português Antonio Felix da Costa, quinto na Fórmula Renault 3.5, categoria semelhante a GP2.

Se não houver piloto brasileiro no grid na etapa de abertura do Mundial de 2014, dia 16 de março, na Austrália, será a primeira vez desde a estreia de Emerson Fittipaldi, no dia 18 de julho de 1970, pela Lotus, no GP da Grã-Bretanha, em Brands Hatch.

“Eu não acredito que não teremos piloto na Fórmula 1 no ano que vem. Acho que o Massa vai assinar com outro time”, diz Fittipaldi. O primeiro brasileiro a disputar a Fórmula 1 foi Chico Landi, que alinhou uma Ferrari no GP da Itália de 1951, em Monza, e depois participou de outras cinco corridas, com Maserati, entre 1952 e 1956. Na despedida da Fórmula 1, no GP da Argentina de 1956, conseguiu brilhante quarta colocação. “O Chico era o meu ídolo. Eu era pequeno, mas ele inspirou a minha geração”, lembra Fittipaldi, nascido em 1946.

Se ocorrer de Massa e Nasr não assinarem com nenhum time, há quem acredite que haverá importantes desdobramentos no interesse pela Fórmula 1 no Brasil, como Ingo Hoffmann, campeão 12 vezes da Stock Car e com três largadas na Fórmula 1: GP do Brasil de 1976 e 1977 e da Argentina, de 1977, com Copersucar Fittipaldi.
“Em primeiro lugar, vejo com muita tristeza essa possibilidade. Penso que a rede Globo deveria retirar uma parte da verba do seu patrocínio da Fórmula 1 para apoiar pilotos na Europa. Quero ver o que eles vão fazer com a queda de audiência.”

Desnível importante

Para Rubens Barrichello, o piloto com mais largadas na história da Fórmula 1, nada menos de 325 Gps, pensa que é preciso entender as causas de o Brasil não ter pilotos para evitar chegar nesse ponto novamente. “Há uma diferença muito grande entre o automobilismo que se faz no País e na Europa, porta de entrada da Fórmula 1. E hoje apenas ter talento não é suficiente. A interatividade com o carro e a equipe é bem maior, saiu um pouco apenas das mãos do piloto a responsabilidade do sucesso.”

Seu colega Luciano Burti, na Stock Car como Barrichello e com passagem na Fórmula 1, em 2000 e 2001, na Jaguar e Prost, defende a tese de que não é necessário ter uma categoria de monopostos escola no Brasil. “Países como Inglaterra, França, Alemanha e Áustria desenvolvem programas para a formação de pilotos em todas as áreas, como é essencial hoje no automobilismo”, explica.

“Os pilotos se formam na área técnica, física, pscológica e marketing. Os pilotos brasileiros continuam talentosos, mas chegam na Europa sem preparo algum. Eles evoluíram muito lá enquanto no Brasil, não.” Manter programas para bancar a participação desses jovens em campeonatos na Europa, apoiados por uma estrutura profissional, é o caminho para a nação voltar a ter pilotos capazes de fazer sucesso na Fórmula 1 na visão de Burti e Barrichello. Ingo Hoffmann vê da mesma forma, mas avisa: “É um projeto a médio e longo prazo”. A Red Bull, austríaca, elege meninos com potencial no kart e pode levá-los até a Fórmula 1.

Dois profissionais ligados à Fórmula 1 não acreditam que no caso de não ter piloto no grid haverá uma onda de desinteresse no Brasil. “Quem vai a Interlagos assistir à corrida, pelo menos 95%, não vai para assistir a um brasileiro na pista, mas por gostar da Fórmula 1”, comenta Tamas Rohonyi, representante dos promotores do GP do Brasil.

“Quanto a audiência da TV, seria dizer que haveria bem menos torcedores do Corinthians assistindo ao jogo porque o time não está ganhando. Quem gosta, gosta.” Para Rohonyi, há muita gente que torce por Sebastian Vettel, Kimi Raikkonen, Fernando Alonso, Lewis Hamilton, não apenas pelo sucesso de um piloto brasileiro.

A rádio Globo/CBN transmite o campeonato da Fórmula 1 desde o início da participação brasileira. Oscar Ulisses é um dos profissionais envolvidos desde 1980. “Ter um brasileiro no grid, apenas por ter, não significa nada. É importante ter um piloto andando bem. Na Marussia não muda nada”, diz.

A empresa para quem trabalha planeja cobrir o evento em 2014 normalmente. “A curto prazo a ausência de brasileiros não afeta em nada. A longo prazo, sim. Mas o fato de poder não ter piloto na Fórmula 1 em 2014 não quer dizer que o País não possa ter em 2015.”

A TV Globo aumentou desde o ano passado o espaço da Fórmula 1 na sua programação e dobrou a equipe de produção, a fim de gerar maior interesse no brasileiro pela própria Fórmula 1, pelo que representa, e não apenas focalizado na participação de pilotos brasileiros. Bernie Ecclestone, promotor do Mundial, considera o País uma peça importante no seu mosaico de interesses e está tentando ajudar Massa e Nasr competirem na Fórmula 1 em 2014.

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