GP da Europa será prova de resistência

liviooricchio

23 de junho de 2012 | 14h13

23/VI/12
Livio Oricchio, de Valência

Sebastian Vettel, da Red Bull, conquistou ontem, em Valência, a terceira pole position consecutiva no GP da Europa e a 33.ª da carreira, igualando-se a pilotos geniais como Jim Clark e Alain Prost. O bicampeão do mundo venceu as duas edições anteriores da prova na Espanha, 2010 e 2011, e pela diferença imposta ao segundo colocado no grid, ontem, Lewis Hamilton, da McLaren, 314 milésimos de segundo, enorme para o nível de competição hoje na Fórmula 1, suas chances de ganhar a oitava etapa do campeonato e reassumir a liderança do Mundial são, em princípio, elevadas.

Mas nenhuma outra equipe apresentou, em Valência, um carro com tantas novidades como a Red Bull. Adrian Newey, diretor técnico, reviu quase tudo, aerofólios, assoalho, laterais, orientação dos gases do escapamento, difusor e até um nova suspensão traseira para trabalhar em função do conjunto aerodinâmico. E hoje será a primeira vez que Vettel vai tentar terminar uma corrida com a nova versão do RB8-Renault e em condições extremas. A temperatura deverá passar dos 32 graus.

“Será difícil, é verdade que não simularmos um GP, ainda, porém estou confiante”, disse Vettel. Seu companheiro, Mark Webber, por conta dessa “juventude” do carro, ontem de manhã não pôde treinar e na classificação não foi além do 19.º lugar. “Problemas hidráulicos me impediram de usar o flap móvel (DRS)”, explicou o australiano.

Se Vettel demonstrou dispor de velocidade para as 57 voltas no traçado de 5.419 metros de Valência e a confiabilidade do equipamento é dúvida, Hamilton ficou surpreso com o segundo lugar no grid. “Considerando as dificuldades, a falta de equilíbrio que tínhamos ontem (sexta-feira), posso dizer que fomos além da conta.”

Como o modelo MP4/27-Mercedes é o que menos recebeu novos componentes desde o GP da Espanha, motivo de crítica de Hamilton, sua resistência é mais conhecida. Pode ser um ponto a seu favor no rali de resistência que será receber a bandeirada hoje. “Pelo que vimos na classificação será bem difícil para nós amanhã, esse cara (Vettel) está muito veloz.” Hamilton não considerou a necessidade de suportar as severas solicitações da prova. Procede, porém, que o novo RB8 de Vettel e Webber representa um grande passo adiante em relação ao utilizado até o GP do Canadá.

Mais uma vez a Williams mostrou ter produzido um bom carro este ano. Pastor Maldonado vai largar em terceiro. O venezuelano já venceu em Barcelona. “Estou muito confiante. Os pneus serão decisivos na corrida e acreditamos tê-los compreendidos bem nessa pista. Na simulação que realizamos nosso desgaste não foi excessivo. A estratégia será da mesma forma fundamental.”

A Pirelli distribuiu no GP da Europa pneus médios e macios. Os dez primeiros largam com os pneus macios, por terem se classificado com eles. Se suportarem as 12 primeiras voltas, a tendência é depois os pilotos realizarem uma só parada, ao redor da volta 35. Assim, com os médios fariam 23 voltas, em média. Da 12.ª a 35.ª volta e da 35.ª a 57.ª. Se o primeiro pit stop for antes, o mais comum será os pilotos pararem três vezes.

“Não será fácil completar 12 voltas com os macios tendo o carro cheio e o calor que fará”, prevê Jenson Button, da McLaren, nono no grid. “Incrível, quando coloquei o segundo jogo no Q3 o carro teve outras reações, começou a sair de frente como nunca. Eu não entendo essas oscilações”, declarou. Nas últimas quatro etapas somou apenas 2 pontos. O campeão do mundo de 2009 vive uma crise técnica, não se mostra capaz de adaptar sua forma de pilotar às características dos pneus deste ano.

Nas etapas da GP3 e GP2 ,ontem, os pilotos no lado direito do grid, posições ímpares, ultrapassaram sem dificuldades os do lado esquerdo, pares. Maldonado pode ganhar o segundo lugar de Hamilton na largada, por exemplo. Raikkonen, o de Grosjean. “O histórico da prova é de poucas ultrapassagens, mesmo com os recursos atuais (pneus de breve vida útil e o flap móvel)”, comentou Maldonado consciente da maior vantagem de ser terceiro a segundo na classificação em Valência.

Os três primeiros no grid, Vettel, Hamilton e Maldonado, têm opinião unânime sobre o que esperar da prova hoje. “A Lotus vem muito forte”, afirmou Vettel, como os demais. Romain Grosjean obteve o quarto tempo, ontem, e seu companheiro de Lotus, Kimi Raikkonen, o quinto. “Eles são os que melhor se adaptam ao calor e esperamos temperaturas altas amanhã. Seus long runs (série seguida de voltas sem parar) são impressionantes”, analisou Hamilton.

Isso quer dizer, essencialmente, uma coisa: existe uma possibilidade real de Grosjean e Raikkonen lutarem pela vitória. E se um dos dois ganhar o GP da Europa será o oitavo vencedor distinto em oito etapas. “Os pilotos da Lotus, Michael (Schumacher), Felipe (Massa) podem vencer. Fabuloso, não, um oitavo vencedor?”, questionou, em festa, Bernie Ecclestone, promotor do espetáculo.

Grosjean disse: “Melhoramos nosso desempenho na definição do grid, P4 (quarto lugar) não é ruim, mas ainda temos de avançar (ficou a 419 milésimos de Vettel). O desgaste dos pneus será determinante amanhã e esse é o ponto forte do E20 (modelo da Lotus)”.

Raikkonen foi 8 milésimos mais lento que o francês. “Usualmente vamos bem no calor. Trabalhei o acerto do carro de forma um pouco diferente e o deixei mais na mão. Estou otimista.” A Lotus obteve com os dois pilotos quatro pódios nas sete etapas disputadas. E diante das condições esperadas para hoje, o comportamento demonstrado nas corridas este ano e a gana de Grosjean e Raikkonen vencerem também, por conhecer os predicados do modelo E20, faz sentido se esperar um grande resultado da Lotus no GP da Europa.

Para se ter uma ideia do grau de competição da Fórmula 1 neste temporada, no Q2, segunda parte da classificação, Grosjean foi o mais rápido, 1min38s489, enquanto Massa ficou em 13.º, 1min38s780. Diferença entre ambos: 291 milésimos de segundo. Está correto, não há erro: em 291 milésimos de segundo havia 13 pilotos. Qualquer detalhe, por menor que seja, faz hoje toda a diferença na Fórmula 1, para um ou outro lado.

Assim, Massa larga hoje em 13.º e Fernando Alonso, ambos da Ferrari, em 11.º. A menor diferença de Massa para Alonso este ano, 73 milésimos, não serviu para lhe garantir melhor colocação no grid. Não parece correto avaliar seu trabalho como ruim, pois qualquer piloto que fique a 73 milésimos de Alonso, referência de velocidade, é porque realizou uma volta muito boa. “É frustrante ficar de fora do Q3 por menos de um décimo de segundo”, comentou Massa.

“Agora é fácil dizer que se tivéssemos usado dois jogos de pneus macios no Q2 teríamos passado para o Q3.” Massa e Alonso fizeram uma primeira tentativa de estabelecer um tempo que os levasse ao Q3 com pneus médios. Ao compreenderem não ser possível, colocaram os macios, mas com tempo para apenas uma tentativa. Diante da hipercompetitividade não foi suficiente.

“Havia enorme expectativa. Nosso carro melhorou com a maior parte das novas peças que testamos. O pódio ficou muito difícil, quase impossível, e com Hamilton em segundo no grid é provável que se distancie de mim na classificação do campeonato”, falou Alonso. O inglês da McLaren, líder, soma 88 pontos seguido por Alonso, 86, Vettel, 85 e Webber, 79.

O sexto colocado no grid, Nico Rosberg, da Mercedes, não poupou o ex-companheiro dos tempos de kart e amigo Hamilton. “Lewis não facilitou a ultrapassagem no último setor como é a orientação da direção de prova. É incompreensível”, declarou, irritado.

Os comissários analisaram o comportamento de Hamilton e diante dos dados disponíveis concluíram que o tempo de Rosberg não foi comprometido. “Não dá para ficar feliz sabendo que poderia estar nem mais na frente.” Michael Schumacher, parceiro, ficou apenas em 12.º.

Bruno Senna, da Williams, por não conseguir usufruir toda a aderência que o pneu oferece na volta lançada na classificação, registrou apenas a 14.º marca do treino. Esse é o seu maior problema e explica, em grande parte, a diferença entre ele e Maldonado, 3.º e 14.º. É um desafio que precisa superar, pois compromete a posição de largada e, consequentemente, condiciona outro tipo de corrida, onde é muito mais difícil obter um bom resultado, necessário para ele.

“Não consegui colocar os meus melhores setores na mesma volta. Com essas diferenças mínimas que existem hoje caí lá para trás. Claro que não estou contente, mas ao que parece dispomos de um bom carro para a corrida”, disse Bruno.

A largada do GP da Europa será às 9 horas, horário de Brasília, e a rede Globo transmite a corrida ao vivo.

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