Grosjean, do inferno ao céu

liviooricchio

23 de junho de 2012 | 14h39

23/VI/12
Livio Oricchio, de Valência

Amigos, entrevistei ontem, sexta-feira, Romain Grosjean. Não foi como gosto por ter a companhia de outros três colegas, com interesses bem distintos dos meus na conversa. Mas na Fórmula 1 entrevistas one to one estão ficando cada vez mais raras e por isso, também, tenho evitado-as. Muitas vezes é frustrante por você sair do encontro basicamente com respostas que já ouviu, ou seja, desperdiçou a oportunidade de fazer algo que acrescentasse ao que já se sabe.
A entrevista:

Nas sete corridas que o suíço ou francês Romain Grosjean (escolha a nacionalidade, diz ele) disputou na Fórmula 1 em 2009, pela equipe Renault, em substituição a Nelson Piquet, não marcou um único ponto. Seu companheiro, Fernando Alonso, chegou até o pódio, como o terceiro lugar no GP de Cingapura. A tentativa de Flavio Briatore de conseguir com Grosjean melhores resultados que com Nelsinho fracassou totalmente. E lançou sobre o francês, opção da reportagem, uma imagem de derrota que pensava-se fosse definitiva.

Grosjean voltou para a GP2, no ano passado, e mostrou a mesma velocidade de antes mas com um diferença fundamental: constância. A maior maturidade o levou ao título e a ter, inesperadamente, nova chance na Fórmula 1, pela Lotus, ex-Renault, oferecida pelo também francês Eric Boullier, chefe do time. Agora, depois de sete etapas também, como em 2009, Grosjean não apenas conquistou dois pódios, segundo no Canadá e terceiro em Bahrein, como está vencendo por larga margem o duelo de velocidade com o campeão do mundo de 2007, Kimi Raikkonen, seu companheiro. Com a nova vitória de ontem na classificação do GP da Europa, o placar é de 7 a 1 por melhores colocações no grid.

E hoje, ao final das 57 voltas do GP da Europa, em Valência, pode deixar para trás o finlandês também na classificação do campeonato: sexto para Raikkonen, com 55 pontos, diante de 53 do francês, sétimo. A luta promete ser boa, pois a Lotus deve andar bem com o calor esperado para a corrida. Mais: a posição impar de Raikkonen o favorece na largada, quinto (Grosjean é o quarto) de acordo com o que se viu nas etapas da GP2
e GP3.

Boullier, entusiasmado com sua descoberta, até já afirmou: “Vejo Romain como um futuro campeão”. Nessa entrevista ao Estado, o piloto da Lotus de 25 anos, prestes a se casar com a bela reporter da TF1, a TV francesa na Fórmula 1, Marion Jolles, com quem já vive em Paris, contou como foi possível reverter o rumo da carreira radicalmente, não comum na história do automobilismo.

Estado (E) – Como explicar essa diferença oposta de rendimento entre a primeira e a segunda experiência na Fórmula 1?
Romain Grosjean (RG) – Eu era muito jovem e o carro, difícil, havia enorme pressão. Nessas condições o mais fácil é você se perder, como aconteceu. Teria sido muito importante as pessoas ao seu redor no time te ajudar a crescer, manter os pés na terra. Não aconteceu nada disso. Agora a atmosfera é bem diferente, as pessoas do grupo querem realmente trabalhar, um estimula o outro, os 550 funcionários estão dando o seu melhor. Em 2009 eu estava no lugar errado, na hora errada. Hoje sinto que estou no lugar certo e na hora certa.

E – Não foram poucos que os que acreditaram que Raikkonen iria vencer sem dificuldades a disputa com você. E o que se assistiu até agora foi quase o oposto.
RG – Estava no seu primeiro teste, em Jerez, depois de dois anos parado. Em cinco voltas Kimi já virava nos tempos esperados. Aprendo com ele, analiso os seus dados e vejo como eu posso melhorar. O relacionamento é bem aberto. É verdade que eu esperava produzir bem menos que ele no começo e ao ganhar experiência crescer. Começou melhor do que imaginava.

E – Até a sua própria equipe acredita que você pode ganhar corrida este ano. Pensa o mesmo?
RG – Se você fazer disso uma obsessão funciona contra. Acho possível chegar ao pódio, com já aconteceu quatro vezes com a Lotus este ano. Precisamos de um fim de semana perfeito, classificação e corrida muito eficientes para ganhar uma prova. Nosso carro é muito rápido em corrida, mas menos nas definições do grid.

E – Há críticas e elogios aos pneus concebidos pela Pirelli para aumentar o espetáculo, como os vê?
RG – Os pneus representam a chave para vencer este ano. E isso tem tornado as corridas bem interessantes. A verdade hoje não é a verdade amanhã. Felizmente sabíamos desde os primeiros testes que nosso carro era muito bom em economizar os pneus. Agora, a janela dos pneus é pequena. Não é fácil fazer os pneus trabalharem na faixa de temperatura que melhor funcionam.

E – Você reestrou na Fórmula 1 este ano, na Austrália, com impressionante 3.º lugar no grid. Mas logo depois da largada bateu e abandonou. Foi assim também na Malásia e em Mônaco. E alguns diziam que esse era o Grosjean que conheciam. Você arrisca mesmo tudo na largada?
RG – Não. Em Melbourne tive um problema eletrônico que me fez perder posições e na tentativa de recuperá-las toquei roda com outro piloto (Pastor Maldonado, da Williams). Na Malásia o erro foi meu. Rodei no molhado. Pedi desculpa à equipe. Em Mônaco a pane elétrica não me permitiu largar bem, os carros de trás se aproximaram e fiquei sem espaço (tocou em Michael Schumacher). Em Melbourne e Mônaco, portanto, a responsabilidade foi do problema com o carro.

E – Afinal, você é francês ou suíço? Na sua ficha aparece nascido em Genebra mas na nacionalidade, francês.
RG – O que você quiser. Nasci na Suíça francesa de pai suíço e mãe francesa. Construí minha carreira inteiramente na França, kart e as demais categorias. Minha carteira de piloto foi emitida pela Federação Francesa. Mas dizem que falo mais como suíço e ajo como suíço também pois sou sempre muito pontual, apesar de meu modo de viver, depois de tantos anos na França, ser mais de francês.

E – Há muito tempo a França não tem um piloto na Fórmula 1 com potencial para ganhar corridas como você, desde Alain Prost. Ao sair na rua, em Paris, as pessoas já te reconhecem?
RG – Cada vez mais. Aqui no paddock também, a forma de tratamento já é outra. Gosto quando se aproximam de mim com educação, respeito, é prazeroso ver que está sendo reconhecido. Outros não agem dessa forma, mas faz parte. Lá em Paris é comum artistas bem famosos caminharem pela avenida Champs-Élysées naturalmente. Faço o mesmo.

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