Há 30 anos Laffite fazia a curva 1 de Interlagos de pé em baixo

liviooricchio

17 de outubro de 2009 | 20h08

17/X/09
GP do Brasil
Livio Oricchio

Ele tem nome de pirata, mas garante não ser. Já foi piloto de Fórmula 1. Hoje, aos 66 anos, é comentarista da TV francesa. Jacques Laffite, o seu nome. A maioria dos jovens que torcem pelo título de Rubens Barrichello, Jenson Button ou Sebastian Vettel não tem idéia da proeza realizada por esse francês sempre brincalhão, em Interlagos mesmo.

No GP do Brasil de 1979, há 30 anos, Laffite venceu a corrida, com o lendário modelo JS11 azul da equipe Ligier, e tornou-se o primeiro piloto de Fórmula 1 a percorrer a veloz e desafiadora curva 1 com o acelerador no curso máximo, de pé em baixo, como se diz no automobilismo.

Ontem Laffite percorreu a pé o trecho onde demonstrou enorme habilidade, a coragem de poucos e realizou a manobra que o faria entrar para a história de Interlagos. “Meu companheiro era Patrick Depailler. Nós tínhamos o carro mais rápido da prova. Eu larguei na pole position e ele não saía de trás de mim”, lembra Laffite. “Quando me aproximei da curva 1, disse a mim mesmo que daquela vez não reduziria a velocidade. Foi uma sensação incrível, no limite extremo consegui controlar o carro. Qualquer erro eu morreria na hora.”

O ex-piloto sorri ao recordar o que aconteceu na sequência: “Eu abri quase dois segundos do Depailler só naquela volta. Vi que era possível fazer a curva sem tirar o pé do acelerador, não toda hora, claro, e passei o recado a ele: não pense em me ultrapassar”. Curiosamente, a velocidade de aproximação da curva 1 era apenas um pouco menor da de hoje na freada do S do Senna, também na extensão do Reta dos Boxes: 300 km/h.

Um acontecimento não sai da cabeça de Laffite. “Compreendi logo que nosso carro voava nesse traçado. Eu estava fazendo experiências sobre como fazer a curva 1 sem aliviar o acelerador e não vi a bandeirada no fim da classificação, de tão concentrado”, conta. “Colin Chapman, o poderoso chefe da Lotus, entrou no nosso boxe para reclamar da volta a mais que percorri (a pista tinha 7.960 metros de extensão). Eu mandei que ele se retirasse de imediato e lhe dei um recado: você vai ver o que eu vou fazer com vocês na pista amanhã”.

Na etapa de abertura do campeonato de 1979, na Argentina, quinze dias antes da de São Paulo, Laffite havia vencido também. Gerard Ducarouge, projetista da Ligier, assim como todos os demais naquela temporada, conceberam seus monospostos utilizando-se do conceito aerodinâmico do carro-asa desenvolvido por Chapman no ano anterior na Lotus, dando a Mario Andretti o título, sem dificuldades. “Eu e Depailler ganhamos com dobradinha em Interlagos.” Carlos Reutemann, da Lotus, foi terceiro, mas 44 segundos atrás de Laffite. Era a resposta do francês ao genial Champan, como falou, ontem, três décadas depois, rindo.

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