Há muito de Ecclestone na candidatura de Ward à presidência da FIA

liviooricchio

29 de agosto de 2013 | 16h19

29/VIII/13
Nice

O fato de Todt não ter assinado ainda o novo contrato de fornecimento de pneus com a Pirelli irritou o dirigente inglês

Jean Todt, francês, 67 anos, terá um adversário para a sua releição à presidência da FIA, em outubro. É o inglês David Ward, de 56 anos, até há pouco diretor da Fundação FIA, destinada a organizar programas de segurança no trânsito e preservação ambiental.

A candidatura de Ward, no entanto, não pode se vista apenas como a iniciativa de um cidadão bem formado na área automobilísca e com intenções de tentar realizar melhor trabalho que Todt. Ward entra no páreo numa condição muito semelhante à que levou o inglês Max Mosley também a se lançar na disputa e surpreender a quase todos, em 1991, ao vencer o franco favorito Jean-Marie Balestre, francês também.

A chegada de Todt à presidência da FIA, em outubro de 2009, trouxe de volta a filosofia de Balestre, oposta a de Mosley. Na área esportiva, a escola francesa impõe que FIA e Formula One Management (FOM), de Bernie Ecclestone, são entidades bem distintas.

A FOM explora os direitos comerciais da Fórmula 1 enquanto a FIA a regula. Mas nas questões comerciais a FIA exige maior participação, ou num português mais raso, dinheiro. Além disso, impõe conhecer profundamente cada negócio e por vezes considera ter o direito de interferir.

É por isso que o fundamental Acordo da Concórdia ainda não foi assinado. Esse acordo estabelece os direitos e as obrigações de cada um, FIA, FOM e equipes de Fórmula 1. Todas as profundas diferenças entre as equipes e a FOM foram solucionadas.

Por exemplo: exigiam mais dinheiro de Ecclestone, maior participação na definição do calendário do campeonato, transparência das negociações com os promotores das corridas, dentre outras exigências.

A FIA, no entanto, ainda não se sentiu atendida nas suas reivindicações, dentre elas receber maior porcentagem do arrecadado pela FOM, e não assinou o Acordo da Concórdia. Oficialmente, as equipes não têm obrigação com ninguém porque não há um código, um estatuto, um conjunto de regras que estabeleça quem manda em quem e o papel de cada um nesse negócio chamado Fórmula 1.

Outra ação de Todt que levou Ecclestone a se debelar é a postura da FIA, hoje, diante na necessidade urgente de definir o fornecedor de pneus da Fórmula 1 a partir de 2014. O regulamento técnico será bem distinto e até agora os treinos mal começaram. “Temos um contrato assinado com a Pirelli”, afirma Ecclestone.

Todt disse, ainda em 2010, quando a Bridgestone fornecia os pneus da Fórmula 1, que quem escolhe a empresa é a FIA. A Pirelli ganhou a concorrência para os três campeonatos seguintes, 2011, 2012 e este ano. E já tem acertado com a FOM e as equipes um compromisso para os três próximos mundiais.

Mas a FIA não assina também o contrato porque Todt é simpático à volta da Michelin à Fórmula 1. E a empresa francesa anunciou, há dois dias, que é concorrente à vaga de fornecedor de pneus para a competição.

Ecclestone comentou: “Eles (FIA) não têm nada a ver com a área comercial. São reguladores, devem verificar se as regras que todos concordaram estão sendo observadas”. O inglês, irritado com a questão, falou também: “Jean é presidente da FIA. Se o tema (fornecedor de pneus) for para votação no Conselho Mundial (da FIA), ele terá direito a um voto. Mas como não é tema para o Conselho Mundial, não faz muita diferença”.

A forma como a Pirelli reagiu aos problemas da corrida de Silverstone, quando cinco pilotos tiveram pneus dechapados, agradou a todas os times, disse Ecclestone. As dificuldades no GP da Grã-Bretanha ocorreram porque os envolvidos não respeitaram as especificações de ajuste dos pneus repassadas pela Pirelli, como pressão e lado correto do uso, direito ou esquerdo do carro.

Depois disso, mesmo no GP da Bélgica, domingo, o mais exigente quanto aos pneus, não houve mais problemas estruturais, como em Silverstone.

Todt é contra a filosofia de Ecclestone, de exigir do fornecedor pneus de elevada degradação para tornar as provas menos previsíveis.

A candidatura de Ward tem com certeza inspiração em Ecclestone e Mosley. Ward era o lugar-tenente de Mosley na presidência da FIA quando deixou a entidade, em 2009. O objetivo dos ingleses é voltar ao modelo de gestão anterior a Todt, a de Mosley, quando FIA e FOM não defendiam interesses tão distintos como na legislatura de Todt e era assim também na época de Balestre.

E é bem verdade, também, que sem a interferência constante da FIA a FOM por vezes realiza negócios que atendam mais aos seus próprios interesses do que os das equipes, como era na época Mosley.

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