Hamilton, sob a lamínula de um microscópio

liviooricchio

27 de novembro de 2006 | 16h06

Lewis Hamilton inicia amanhã, terça-feira (28/11), sua trajetória como piloto titular da McLaren. Irá testar o modelo MP4/21, já com os pneus Bridgestone, no Circuito da Catalunha, em Barcelona. O carro novo da equipe, MP4/22, será apresentado dia 15 de janeiro, no Autódromo Rircardo Torno, em Valência.

Aos 21 anos, foi campeão pode onde passou: kart, Fórmula Renault Britânica, Fórmula 3 Européia e GP2. Os ingleses esperam mais dele que de Jenson Button, Honda, o outro representante de maior peso do país nas pistas. Para muitos profissionais do automobilismo ou jornalistas da terra da rainha Elizabete, Lewis é um “fenômeno.”

Se é mesmo, irá provar agora, ao longo da temporada que começa dia 18 de março na Austrália. Seu desafio não é nada simples: terá a referência de ninguém menos de Fernando Alonso, o piloto que venceu Michael Schumacher este ano. Em 2005, o alemão não dispunha de equipamento para lutar pelo título, o que não foi o caso do campeonato que acabou em Interlagos, dia 22 de outubro.

O problema maior nem é tanto a comparação que Ron Dennis, da McLaren, e Norbert Haug, Mercedes, farão entre o seu trabalho e o de Alonso. Os dois dirigentes têm experiência, conhecem automobilismo, e sabem ser muito pouco provável Hamilton sobrepor Alonso, um dos pilotos mais capazes que a Fórmula 1 já viu, conforme seus dois títulos recentes atestam. Esperam, já, que o jovem inglês se classifique com regularidade atrás do espanhol, bem como faça bem menos pontos no seu primeiro Mundial.

A questão é Hamilton com Hamilton mesmo. Para um menino, pode-se dizer assim, de origem simples, como ele, que vence por onde passa, e com distinção, de repente começar a perder e a perder para o próprio companheiro de equipe, com o mesmo carro – e na McLaren não há diferença de tratamento a seus pilotos – pode lhe gerar um desequilíbrio emocional.

Num universo onde apenas alguns milésimos de segundo separam os mais dos menos eficientes, esse ponto conspira contra o novo contratado da McLaren e maior esperança dos ingleses de ter um piloto como Nigel Mansell, que assumia riscos, arrojado, de grande empatia com a torcida e, claro, vencedor.

Esse é, em princípio, o maior desafio que Hamilton enfrentará na Fórmula 1: quer queira quer não, a concorrência interna com Alonso, por mais que Dennis e Haug lhe digam para não se preocupar com isso. A referência que Hamilton irá levar em conta, para si próprio, é Alonso. Se for muitas vezes mais lento e por conta de desejar acompanhar seu ritmo, pemitido a bem poucos na Fórmula 1, cometer seguidos erros, isso poderá lhe causar um sério problema.

Mas, se por outro lado, for capaz de conviver com essa fonte potencial de tensão e fizer, por exemplo, como Felipe Massa, este ano na Ferrari, com Michael Schumacher, seu talento deverá fluir solto. Massa não deixou se afetar, pelo menos demais, com Schumacher. Compreendeu a importância de ter visão global de corrida, seu ponto fraco, e evoluiu bastante como piloto. Não dá para se afirmar que em razão de Hamilton ter um retrospecto notável, seu futuro na Fórmula 1 acompanhará o passado de conquistas.

Quem viu o dinamarquês Jan Magnussen correr na Fórmula 3 Britânica poderia apostar, como fiz, que na Fórmula 1 também faria sucesso. E deu no que deu: um enorme fracasso. Assim como quem acompanhou a trajetória de Nigel Mansell na Fórmula Ford e Fórmula 3 Britânicas não poria uma ficha no seu crescimento. Os dois enganaram a maioria. Não há lógica absoluta nesse processo.

Nos primeiros ensaios em Silverstone, Hamilton foi prudente demais e não demonstrou a velocidade que se esperava até mesmo de um piloto que pela primeira vez acelerava um modelo de Fórmula 1. Mas não se trata de um exame conclusivo. Da mesma forma, há o fator emocional, a vontade de não bater o carro, que é o que mais as equipes solicitam aos pilotos em um primeiro momento. E acidentar-se em Silverstone significa, em geral, danos extensos ao monoposto.

O que Hamilton fará a partir de hoje terá maior significado. Pode, do mesmo jeito que perder-se quando começar correr ao lado de Alonso, surpreender e revelar os mesmos dotes de campeão evidenciados em outras competições. Há um aspecto nessa contratação de Hamilton pela McLaren que merece ser citado: Ron Dennis não tem nenhum histórico de apostar em apenas promessas do automobilismo. Será um aprendizado para a equipe também.

Só para citar um passado mais recente, de 1988 para cá: Dennis teve Alain Prost e Ayrton Senna, depois Ayrton Senna e Gerhar Berger, Mika Hakinen e Martin Brundle, Mika Hakkinen e David Coulthard, todos sempre bem experientes antes de sentar nos carros do time com sede em Woking, ao sul de Londres. Hamilton é uma novidade na filosofia de gerência da organização. Vamos ver como tudo isso se resolve.

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