Istambul, passo a passo

liviooricchio

24 de agosto de 2006 | 19h53

Diário de Bordo
24/VIII
Istambul, Turquia

– É assim mesmo? Eu retiro o carro com o tanque vazio e o devolvo sem gasolina também?
Foi o que perguntei ao rapaz que me atendeu na locadora de automóveis no aerporto de Istambul, ontem. Achei estranho encontrar o veículo sem combustível, ao menos como rotina funcional da empresa. A explicação me convenceu:
– Tivemos alguns casos recentes de clientes que reabasteceram com água e os motores foram perdidos.
É visível, aqui, como não há muito dinheiro circulante e custa caro encher o tanque. Gastei pouco mais de 60 euros para completar o tanque do Renault Clio Sedan que estou utilizando. Aliás, este é um modelo bastante comum pelas ruas da cidade.
O belo autódromo inaugurado ano passado encontra-se a uma distância equivalente à de Jundiaí do centro de São Paulo, algo como 50 quilômetros. Meu hotel acha-se numa área central de Istambul chamada Taksim. Até a autoestrada que nos leva ao circuito perdi, hoje, uma hora, marcada no relógio. Não consegui engatar a 3.ª marcha. De rodovia, mesmo, não gastei meia hora. A rodovia se estende depois do pedágio instalado a seguir à magnânime ponte sobre o estreito de Bósforo.
Suas dimensões impressionam. São 362 metros de extensão e uma altura capaz de transformar imensos navios em pequenas embarcações, tal a distância que os vemos. Trata-se de uma das vistas mais lindas que se pode contemplar no calendário turístico da Fórmula 1. À nossa direita, quando se vai ao autódromo, o canal, que é largo, possui, em média 300 metros, nos conduz ao Mar de Mármara, bastante visível em razão de o Bósforo ser curto.
Se olharmos à esquerda, deparamo-nos com a entrada do Bósforo no Mar Negro. Tanto à direita quanto à esquerda as edificações que mais chamam a atenção são as cúpulas das mesquitas, imensas e revestidas, internamente de ricos mosaicos. Os minaretes dominam, da mesma forma, a paisagem. Não dá vontade de seguir adiante na ponte tal o deslumbre que causa a vista para os seus dois lados. Mesmo para usuários acostumados a viajar pelo mundo com a Fórmula 1 e dispor da oportunidade de contato com outros encantos do planeta.
Não digo, mas penso: Está louco, é, irresponsável! Tudo bem que nós paulistanos não somos exemplos para nada em termos de trânsito, mas conduzir aqui em Istambul requer dose extra de atenção. E que dose. As manobras são absolutamente imprevisíveis. Vou ser mais claro: se o trânsito à frente do motorista pára, o que é comum porque o tráfego é alucinante, quem vem atrás, em geral, não hesita em mudar para uma faixa que, por ventura, ainda se desloca.
Se você se encontra nessa faixa em que os carros se movimentam, pode redobrar a vigília porque vão entrar na sua frente. Por muito pouco, hoje de manhã, não acertei em cheio um imenso Lexus branco, cujo motorista sequer se deu o trabalho de, com o canto do olho que fosse, verificar se havia alguém se aproximando. Fiquei, a seguir, lado a lado com ele, com os dois carros parados. O olhei bem nos seus olhos. E saí de la com a nítida sensação de que não estava consciente do que fez.
Gosto de sentir a cultura local onde me encontro. Quando me vejo diante das mais distintas situações na vida reparo que acabei por tornar-me o produto desse sincretismo de culturas distintas a que me submeto. A experiência eclética lhe permite ler a vida de maneira mais pluralista. Apressamos dramaticamente nossa capacidade de compreender os porquês, seja lá do que for. Não deixa de ser um processo de maturidade.
Ontem quando cheguei estava morrendo de fome. Voei com a Lufthansa, como faço desde o quase fim da Varig, de São Paulo para Frankfurt, minha apaixonante base de operação – amo a Alemanha -, 11 horas de viagem, e de lá para cá, outras 3 horas de vôo, após 4 de espera no aeroporto de Frankfurt. Lá, como sempre faço, vou à sala Senator Class da Lufthansa, por ter cartão diamond da Star Alliance – vôo mais de 200 mil milhas por ano – e me permito uma superducha. Eles têm uma estrutura digna dos bons hotéis.
Não me dei conta, porém, de um detalhe que está me custando caríssimo na cobertura desse GP: meus óculos caíram no piso do avião, no deslocamento para Frankfurt, e não percebi. Estava lendo O Livreiro de Cabul, para dar sequência ao Caçador de Pipas, ambas publicações têm como tema o Afeganistão, e lembro-me de tirar os óculos e acomodá-los na sua capa. É provável que tenha colocado no cestinho diante do assento 24K da classe executiva do Jumbo e de lá tenha caído. O fato é que estou enfrentando enormes dificuldades para trabalhar, navegar com o mapa, enfim para quase tudo que exija leitura. A Lufthansa ficou de me devolver os óculos quando passar por Frankfurt novamente, na volta, segunda-feira.
Onde eu estava mesmo?
Ah…por conta desse meu interesse pelos hábitos dos povos, ontem à noite fui andar a pé, sob calor intenso, à procura de um bar-restaurante bem típico, onde houvesse as mais caricaturadas figuras do Bósforo. Isso, claro, depois de acessar à Internet e conversar com amigos jornalistas que já estavam em Istambul, para obter informações e enviar meu texto para o Estadão, Jornal da Tarde e Agência Estado. Agora você pode ler esses textos exatamente como envio na categoria Originais do Estadão, no meu blog.
Comi em meio a personagens que me olhavam, em princípio desconfiados, e se divertiam acompanhando o Fenerbach (não sei se é essa a grafia correta) jogar contra o Kiev. Alguns procuraram conversa. Ao mencionar que era brasileiro, quebrei o protocolo. Rapidamente fui aceito no grupo. Vários jogadores brasileiros estavam em campo, como Alex, e o treinador, Zico. No fim, fiquei triste com meus já amigos torcedores pela não classificacão da equipe ao empatar em 2 a 2. Haviam perdido no jogo de ida, na Ucrânia.
Comi uma espécia de bolinho de carne feito na brasa, que me disseram o nome, óbvio que não guardei – a exposição às diferenças de fuso horário constante é um veneno para a memória – berinjela igualmente assada, uma salada de feijão branco. Sou exigente para comer, como manda a tradição dos italianos, nacionalidade que também tenho por conta de meus pais, mas comi de verdade bem.
Isso para não falar num doce de massa folhada recheado com nozes e coberto de pistache moído e mel. Não, não, não…parem por favor. Sinto-me sob tortura. Que doce maravilhoso, palavra de alguém cuja família quando chegou ao Brasil montou e manteve com muito sucesso uma bela pasticeria. Essa é uma das partes boas também de cobrir a Fórmula 1: comer bem, embora não seja lei. Já sei qual é a pergunta: quanto custou? Muito pouco. Lembre-se que estava no meio do povão, no meio de torcedores de futebol, apesar da idade média estar já próximo da minha. Mas quanto você gastou? 16 libras turcas, ou cerca de 8 euros. Quase nada, convenhamos.
Amanhã preciso estar bem cedo no autódromo. Para chegar lá, digamos, às 9 horas, tenho de sair do meu hotel às 7h30. Quero trabalhar em duas pautas: Como será a Fórmula 1 após a era Schumacher, como acredito que será em 2007, e quem vence o título deste ano, Alonso ou Schumacher. Isso exigirá que eu ouça os principais personagens da Fórmula 1 e vocês não têm a mais leve idéia do exercício de paciência requisitado, sem pretender valorizar nada, por favor.
Não sei quando, mas antes de regressar tenho de ir ao Gran Bazar, ou simplesmente o mais antigo mercado do mundo. Tem mais de mil anos e, acredite, encontra-se no mesmo local até hoje, ao lado da mesquita, uma enorme, ai meu Deus, qual é…eu me certifico e quando falar do Gran Bazar eu lhes digo. Estive lá ano passado. Há de tudo. De jóias a artesanato, passando por roupas e produtos alimentícios típicos. Para quem se deleita com traços de cultura distintos, o Grand Bazar é o substrato para um belo e rico ensaio.
Até amanhã, amigos!

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