Italia, Italia mia!

liviooricchio

17 de fevereiro de 2012 | 14h03

17/II/12

Livio Oricchio, de São Paulo

Não me recordo com precisão a corrida. Mas a temporada está clara na minha mente, 1989. Lembro-me de conversar com alguns jornalistas italianos quando Gabriele Tarquini, piloto da equipe AGS, se aproximou e uma rápida conversa se estabeleceu entre eles. Eu apenas os ouvia. O assunto era a impressionante quantidade de pilotos italianos na Fórmula 1. Aquele momento ficou registrado.

Avancemos no tempo até dezembro de 2011, ou seja, 22 anos depois de os italianos rirem do número de representantes do país na Fórmula 1. No dia 9, a equipe Lotus anunciou que o francês, nascido na Suíça, Romain Grosjean, campeão da GP2, substituiria Vitaly Petrov no campeonato de 2012.

Pensei comigo: Petrov não vai ficar de fora da Fórmula 1. Não é bobo como piloto, tem importante verba de patrocínio e conta com um cabo eleitoral de peso, Bernie Ecclestone, com enormes interesses na sua permanência.

Tenho certeza de que Ecclestone recebeu uma ligação de alguém bem próximo ao primeiro ministro da Russia, Vladimir Putin, senão dele próprio – o maior investidor na carreira de Petrov é o governo russo -, solicitando sua intervenção para encontrar um carro para seu piloto. E os eventuais 12 milhões de euros (estima-se) que foram destinados a Lotus representam pouco se comparados ao que está por detrás de tudo, a estreia da Rússia no Mundial de Fórmula 1.

O promotor da competição deve ter sido lembrado dos esforços da Rússia para a construção do autódromo na estação balneária de Sochi, no Mar Negro, para receber a Fórmula 1 a partir de 2014. O contrato se estende até 2020.

No mesmo ano da estreia do Mundial na nação que foi o protótipo do totalitarismo, o oposto do que prega, em essência, a Fórmula 1, expressão máxima do capitalismo, serão também disputados em Sochi os Jogos Olímpicos de Inverno. O investimento total no projeto de organizar o evento na neve, construir o autódromo e organizar a primeira edição do GP da Rússia é de 150 milhões de euros. Petrov é componente preponderante dessa história.

Hoje tivemos e desfecho do affair Petrov-Putin-Ecclestone-Fórmula 1: vai correr na Caterham, no lugar do italiano Jarno Trulli.

O clima entre Trulli e a Caterham, Lotus em 2011, não era dos melhores, ao contrário do espírito de família descrito no comunicado da escuderia hoje. O time estava cheio de ouvir suas reclamações sobre o sistema de direção hidráulica. Para muitos, era uma justificativa para regularmente ser mais lento que o companheiro, Heikki Kovalainen.
E Trulli não só não leva patrocinadores com tem salário. Comenta-se que é de 1,5 milhão de euros por temporada.

Conversei ainda há instantes com um jornalista amigo italiano que me contou que, apesar da dispensa, Trulli receberá o estabelecido no contrato. É simples: retira-se dos 12 milhões de euros que Petrov está levando, bastante úteis ao time. Só para a Renault, por exemplo, a Caterham pagará 6 milhões de euros pelo uso dos motores.

Nós jornalistas vamos perder um dos personagens mais sensíveis, simpáticos, simples, disponíveis, abertos, sinceros e engraçados da Fórmula 1. Sem falar do premiado vinho produzidor por sua vinícula, que também fará falta.

Sim, e o que é que tem a ver a notícia aquele papo do início do texto?

Se em 1989 havia vários pilotos italianos na Fórmula 1, conforme lembrava Tarquini, a temporada de 2012 começa sem nenhum. Acabei de fazer uma pesquisa no guia Marlboro, uma espécie de Bíblia das estatísticas na Fórmula 1. Fui direto naquele ano da conversa com Tarquini e olha só o que encontrei: nada menos de 14 pilotos italianos competiram na temporada de 1989, ainda que não aos mesmo tempo na pista. Em 1989, os grids eram compostos por 26 carros a cada etapa das 16 do calendário.

Quer sabem quem eram?
1. Michael Alboreto (Tyrrell), 2. Riccardo Patrese (Williams), 3. Stefano Modena (Brabham), 4. Ivan Capelli (March), 5. Piercarlo Ghinzani (Osella), 6. Nicola Larini (Osella), 7. Alessandro Nannini (Benetton), 8. Emanuele Pirro (Benetton), 9. Andrea De Cesaris (Dallara), 10. Alex Caffi (Dallara), 11. Enrico Bertaggia (Coloni), 12. Gabriele Tarquini (AGS), 13. Pierluigi Martini (Minardi), 14. Paolo Barilla (Minardi).

Prossegui no meu estudo estatístico e encontrei que a última vez que um campeonato de Fórmula 1 começou sem um piloto italiano foi em 1970. Naquele ano, Ignazio Giunti estreou no Mundial, pela Ferrari, mas apenas no GP da Bélgica, quarta prova do Mundial. E se por acaso nenhum piloto italiano substituir alguém este ano, ou seja, a Itália permanecer as 20 etapas programadas sem piloto, será como em 1969, último campeonato sem um italiano no grid.

A esta hora, o telefone da Federação Italiana de Automobilismo já deve ter tocado inúmeras vezes. São os meus amigos jornalistas tentando ouvir dos homens que comandam esse esporte no país as razões da catástrofe.

Não, não há exagero, a nação de Ferrari, Alfa Romeo, Maserati, Lancia, todas campeões no mundo na Fórmula 1, Lamborghini, dentre tantos outros exemplos de tradição no automobilismo, para não citar a paixão histórica de seus cidadãos pela velocidade, não ter um único piloto na Fórmula 1 é chocante, merecedora de profunda reflexão. E o pior é a falta de perspectiva de mudar o quadro a curto prazo. É uma situação semelhante à brasileira, hoje. Triste, mas não surpreendente.

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