Já vi esse filme antes

liviooricchio

20 de fevereiro de 2012 | 01h57

19/II/12
 
  Amigos, esse é o texto de minha coluna na edição desta segunda-feira no Jornal da Tarde
 
  O tema é delicado. Sei que irá ferir suscetibilidades. Vim ao Brasil para planificar com o Grupo Estado a cobertura da temporada de Fórmula 1 e, por conta de me encontrar na redação, semana passada, assisti ao Jornal Nacional, da TV Globo. Qual não foi a minha surpresa ao ver um espaço impressionantemente generoso dedicado a Felipe Nasr, campeão em 2011 da Fórmula 3 Britânica e a maior esperança brasileira, hoje, nas pistas.
 
  A reportagem anunciou, em primeira mão, sua contratação pela equipe DAMS, da GP2, do campeão em 2011, Romain Grosjean, e faz uma breve retrospectiva da carreira do brasiliense. Por sinal, brilhante. Apenas no dia seguinte as demais mídias receberam o comunicado da sua assessoria de imprensa para informar que Felipe Nasr havia definido seu futuro profissional e com o apoio de dois grupos empresarias extremamente fortes, o Banco do Brasil e a OGX, de Eike Batista. Eu também investiria nele.
 
  Fico me perguntando: quando a Globo deu tamanho destaque, no seu horário mais nobre, em que cerca de um quarto da significativa população do País a acompanha, a um piloto que pode chegar à Fórmula 1? O que move a emissora a optar, contra tudo o que faz, por dedicar preciosos minutos a uma promessa do automobilismo?
 
  Simples: Felipe Massa e Bruno Senna têm contrato de apenas um ano com suas equipes, Ferrari e Williams. E, se não corresponderem ao que seus times esperam deles, não vão ter o compromisso renovado. É a lei da Fórmula 1. Aliás, da vida numa sociedade capitalista. O País ficaria sem piloto no Mundial. E ter um representante brasileiro na competição é importante para ajudar a Globo vender as milionárias cotas de patrocínio da Fórmula 1, pagar os direitos para FOM e, claro, ganhar muito dinheiro. O que não é pecado.
 
  Fica no ar apenas a profunda decepção ao comparar o que faz a Globo com o trabalho da BBC, na Inglaterra, RAI, Itália, e RTL, Alemanha. Dá dó do nosso telespectador. Sobre isso, vi de perto em 2011, no GP de Mônaco, quando Bernie Ecclestone enviou ao produtor da Globo uma cópia do tratamento dedicado à Fórmula 1 por essas emissoras, cobrando com energia maior atenção e investimentos na trasmissão do evento, já que seu contrato é de exclusividade. Produzem entrevistas com personagens famosos da Fórmula 1, debates envolvendo campeões, sessões técnicas para explicar, por exemplo, o que é o escapamento aerodinâmico, fator decisivo no ano passado, enfim, um trabalho realmente profissional e necessário num esporte não simples de ser compreendido como a Fórmula 1.
 
  Mas onde desejo chegar nem é aí, mas nos sérios riscos que, de fato, o capaz Felipe Nasr corre ao ser tratado, desde já, como o novo futuro campeão brasileiro na Fórmula 1. Insisto: se eu tivesse 10 fichas para apostar, colocaria sete no sucesso desse menino de 19 anos. E duas das outras três não poria em jogo não por não acreditar no seu talento, mas em razão de no automobilismo as conquistas não estarem associadas apenas à capacidade de quem o pratica. Há muitas variáveis nessa equação, como por exemplo o poder de o piloto administrar todas as enorme pressões que o cercam, cada vez maiores na Fórmula 1.
 
  Já estão lançando sobre um garoto em fase bastante tenra de formação pessoal e profissional uma responsabilidade enorme e perigosa. Se Felipe Nasr não souber lidar com isso, e é extremamente complexo, pode perder-se emocionalmente e o Brasil ver o sonho realista de voltar a ter um jovem promissor na Fórmula 1 evaporar.
 
  O deslumbre com a fama e a necessidade interna de substituir Ayrton Senna (imagine!) foram os principais motivos que levaram Rubens Barrichello a ficar sem rumo em boa parte da carreira, assumido por ele próprio. Logo depois da perda de Senna, em 1994, os interesses de todos, não só da Globo, foram canalizados naquele menino de 21 anos que, como Felipe Nasr, havia sido campeão da Fórmula 3 britânica e até já havia deixado ótima impressão nas corridas de Fórmula 1 que disputou.
 
  Espero, profundamente, que Felipe Nasr desfrute desse apoio, mesmo que seja, essencialmente, por causa dos interesses da Globo, mas não se deixe levar pelo que acontecerá diante da imensa popularidade que vai ganhar, em brevíssimo espaço de tempo. Irão vê-lo como o novo redentor, salvador da pátria. E daí para o fracasso é um apenas um pulinho.
 
 

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