Lucas Di Grassi: a grande chance!

liviooricchio

07 de dezembro de 2006 | 00h38

Boas notícias para nós que gostamos de automobilismo. Lucas Di Grassi vai disputar o próximo campeonato da GP2 pela melhor equipe da competição, a ART Grand Prix, que tem como sócio Nicolas Todt, filho de Jean Todt, diretor-geral da Ferrari. A outra já era conhecida, embora ainda não oficial: Antonio Pizzonia será piloto do time de Giancarlo Fisichella na mesma competição. Falta agora Bruno Senna confirmar sua escuderia. Apostaria na iSport. Torço por isso.

Vamos fazer um pit stop no box de Lucas Di Grassi? Esse paulistano de 22 anos percorreu os mais recomendados caminhos, hoje, na sua formação profissional. Várias temporadas de kart, no Brasil e corridas no exterior, onde conquistou importantes vitórias e títulos, Fórmula Renault Brasileira, na estréia no automobilismo, em 2002 – foi vice-campeão – e, em seguida, combinou a Fórmula 3 Sul-Americana com a Européia. Por aqui foi vice-campeão.

Pela Hitech, no Campeonato Britânico de Fórmula 3, em 2004, venceu duas vezes, fez duas poles e chegou em 6 ocasiões ao pódio. Ótimo 3.º lugar em Macau. Ano passado disputou a Fórmula 3 Européia pela Manor. Acabou como o melhor dos normais: 3.º. Os dois primeiros fizeram um campeonato à parte, na fantástica equipe ASM. Lewis Hamilton foi campeão e Adrian Sutil, o companheiro, ficou em segundo. Este ano, mais uma vez a ASM sobrou no Europeu: o inglês Paul Di Resta levou o título e o vice foi o outro piloto do time, o já famoso alemão Sebastian Vettel.

Pela Manor, Di Grassi venceu uma prova, estabeleceu duas poles e obteve 4 pódios. E realizou um feito: ganhou o GP de Macau, tendo atrás de si o talento emergente de Robert Kubica, titular da BMW na Fórmula 1. Como prêmio, Di Grassi testou o carro da Renault campeão do mundo com Fernando Alonso e causou boa impressão.

Quando estou no Brasil, uma ou duas vezes por ano vou ao kartódromo de Interlagos, aos sábados. Gosto de ver a meninada correr. Lembro-me de assistir a boa parte dos pilotos que estão hoje competindo com automóveis lá no kart. Luca Di Grassi é um desses casos. Ao passar a correr na Fórmula Renault, em 2002, o ano de estréia da categoria e o seu melhor no Brasil, acompanhei mais de perto sua trajetória.

Seu estilo me chamou a atenção não pela velocidade estonteante ou forma agressiva de conduzir. Pelo contrário: passei a vê-lo com maior interesse porque percebi tratar-se de um piloto rápido, claro, essencial para o que fazem, mas principalmente inteligente. Nada é ao acaso na sua condução. A importante experiência adquirida no kart aliada a sua natureza serena e consciência do que o cerca o diferenciava, em especial por ser, então, muito jovem ainda, 18 anos. Sérgio Jimezes, brilhante kartista, acabou campeão. Di Grassi, vice.

Em 2003, o vi creio que em três ou quatro oportunidades, na Fórmula 3 Sul-Americana e Européia, e um pouco menos na temporada seguinte, na Fórmula 3 Britânica. Mas sempre acompanhei seus resultados. Di Grassi é daqueles pilotos que você faz uma aposta interior e depois permanece verificando sua trajetória para compreender como anda o seu feeling.

Ano passado o conheci melhor. Em algumas provas, como o GP de Mônaco, eu me surpreendi literalmente torcendo pelo seu sucesso. Antes da largada, no grid, sabendo da maior velocidade dos dois carros da ASM, de Lewis Hamilton e Adrian Sutil, eu disse a Di Grassi, ao lado do cockpit: “Eu não deveria nem estar aqui lhe dizendo isso, talvez você saiba bem melhor que eu, mas como venho aqui a Mônaco há 16 anos, vi que o piloto que corre com a cabeça costuma se dar melhor que os que usam apenas o pé direito.”

Segundos depois ele deixou o grid para a volta de apresentação. Correndo de forma regular, sem expor-se a riscos desnecessários por conta das severas limitações do equipamento, em comparação aos carros da ASM, competiu com inteligência e foi 5.º. Aprecio, acho que como você, pilotos que trazem para si a maior parte da responsabilidade do resultado e correm com a faca entre os dentes. Mas desde que saibam, com precisão, o que fazem. No caso de Mônaco, as chances de um piloto bater, nessa ânsia de querer fazer algo a qualquer custo, são bem grandes.

Este ano acompanhei da mureta dos boxes e da sala de imprensa sua temporada na GP2. A equipe Durango, que havia sido a penúltima em 2005, trocou todo mundo. Vi seus integrantes tentando se encontrar ao longo do campeonato. Imagine essa equipe competindo contra a ART Grand Prix, a Ferrari da GP2. Some a isso o fato de Di Grassi ser um estreante na categoria. Mesmo assim, correu muito bem várias vezes, como em Ímola, quando tinha tudo para chegar ao pódio, mas errou.

Para Nicolas Todt escolhê-lo é porque viu no piloto as características que podem levá-lo, em 2007, com a experiência deste ano, a disputar o título. Em 2005, Nico Rosberg foi campeão da GP2 e este ano, Lewis Hamilton, ambos pela ART Grand Prix. Essas características seriam a velocidade, apesar de nesse quesito sua nota ser alta, mas não a mais alta, regularidade, sensibilidade para acertar o carro, humildade para aprender com a equipe, foco no objetivo e nível de dedicação. Não foi por acaso que quase todos os pilotos desejavam correr na ART e Nicolas escolheu Di Grassi.

Nesses últimos anos, Nicolas é uma das pessoas com que mais converso nos fins de semana de Fórmula 1. Não se esqueça de que é o empresário de Felipe Massa. Sua maneira de trabalhar se assemelha à do pai, que mantém sempre uma certa distância da imprensa, apesar de nos encontros ser, em geral, afável. Pouco antes do GP do Brasil, o último agora, a Ferrari convidou um grupo de jornalistas para almoçar com Massa. Como ocorre nessas ocasiões, sentei-me ao lado de Nicolas e ele me contou como surgiu a ART Grand Prix. Parte dessa conversa gerou uma reportagem para o Estadão.

Luca Di Grassi: essa é a sua grande chance profissional. Uma bela temporada, consistente, lutando regularmente pelas vitórias, sem erros primários, como tem sido até agora, e, se possível, conquistando o campeonato, as portas da Fórmula 1 estarão mais que abertas a você. Seus dois antecessores, Nico e Lewis, estão aí para comprovar. Creio que todo brasileiro que gosta de automobilismo está torcendo pelo seu sucesso.

Sobre Antonio Pizzonia nós conversamos há algumas semanas, lembra? É possível, sim, dar um passo para trás a fim de, depois, dar dois para a frente. No seu caso não é fácil em razão de um certo desgaste que sua imagem sofreu na Fórmula 1. Mas uma temporada sólida e sem nada menos da conquista do título poderá relançá-lo no meio. Velocidade Pizzonia possui, mas esse não é o parâmetro mais dificil de se ter. Tem de demonstrar foco, gana, determinação, o que não teve na sua última chance de correr, na Williams.

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