Marko conta tudo sobre a Red Bull e Toro Rosso

liviooricchio

09 de setembro de 2013 | 10h50

09/IX/13
Nice

Amigos, escrevo já de casa, em Nice. Cheguei de madrugada. Saí da sala de imprensa às 23 horas de ontem, domingo, parei para comer algo rápido na estrada, A7, Milão-Genova, e as 3 da manhã já estava lendo na cama, depois de gostoso banho. Da garagem de casa à tangencial de Milão são exatamente 299,5 quilômetros. Depois outros 20 até o autódromo.

Sexta-feira conversei longamente com Helmut Marko, o homem que de fato mais manda na Red Bull e Toro Rosso. Entrevista, lógico, no terraço no Energy Station, o supermotorhome da Red Bull, mas com caráter muito mais de bate-papo. Eu o conheço profissionalmente há bom tempo e sempre se mostrou disponível para coversar, apesar de raramente o ter visto sorrir, o que já lhe disse e, acredite, o vi rindo. Uma ocasião, penso que está no blog, faz tempo, entramos fundo no acidente que o fez perder a vista esquerda, resultado de uma pedra lançada pela March de Ronnie Peterson, em Clermont Ferrand, na França, em 1972.

Bem, se tiver paciência, e a recomendo, vale a pena ler o texto a seguir, apesar da extensão. Nele consta boa parte do que abordamos na entrevista-bate-papo. Considero reveladora. Diga o que você pensa, por exemplo, quando fala do porquê não escolheu Kimi Raikkonen para companheiro de Sebastian Vettel e a maneira como descarta o talentoso Felipe Nasr na Toro Rosso. Combinado? Abraços!

O texto:
Aos 70 anos, esse ex-piloto de Fórmula 1das temporadas de 1971 e 1972, pela BRM, cego de um olho, resultado do acidente que o fez abandonar a carreira, no GP da França, tem, pode-se dizer, a palavra final na mais eficiente equipe da competição, invicta há três anos, a poderosa Red Bull.

Venceu os três mundiais de pilotos, com Sebastian Vettel, e os três de construtores. Helmut Marko é a chamada eminência parda da organização: aparece pouco, mas seus “conselhos” ao presidente da empresa, Dietrich Mateschitz, têm poder de decisão, tal o moral com o chefe e amigo de longa data. Austríaco, como ele. E os impressionantes resultados conquistados só reforçaram sua posição no grupo.

Nessa entrevista exclusiva ao Estado, realizada em Monza, antes de Vettel vencer pela sexta vez na temporada e dar importante passo para ser tetracampeão, Marko faz revelações importantes. A primeira delas é sobre uma questão que intriga a Fórmula 1: por qual razão a Red Bull não assinou com Kimi Raikkonen. O finlandês atravessa talvez o seu melhor momento na Fórmula 1.

“Decidimos pelo que é melhor para nós a longo prazo e não visando algo apenas imediato. Quantos anos tem Kimi, 34? Daniel, 24. E o contrato é de três anos. Portanto Daniel é quem melhor oferece perspectivas para nossa equipe”, diz Marko.

Mas não é tudo que pesou na escolha. “Administrar dois pilotos como Sebastian e Kimi não seria fácil. Cada piloto tem como obrigação tentar ser melhor que o companheiro.” O que esperar então de Ricciardo? “Ele sabe. Desejamos que depois de três ou quatro corridas se transforme num desafio para Sebastian.”

À pergunta se não seria muito cedo para uma cobrança dessa natureza, afinal o australiano nunca pilotou um carro vencedor e o alemão já tem três títulos mundiais e caminha para o quarto, Marko respondeu: “Por quê? Daniel não é novo na Fórmula 1. Tem apenas de aprender como a equipe trabalha e desenvolver uma relação básica com seu engenheiro”. Marko é famoso por ser implacável nas suas cobranças.

Ricciardo não foi contratado para fazer concorrência a Vettel na luta pelo título de pilotos, como poderia se pensar da declaração de Marko. “Não estou dizendo que é para Daniel bater Vettel. O que espero dele é que traga os pontos necessários para nós conquistarmos o título de construtores e depois dessas etapas iniciais esteja perto do ritmo de Sebastian.” Fica claro que essa função não poderia mesmo ser atribuída a Raikkonen.

É verdade também que Vettel e Webber por vezes tiveram uma relação belicosa, como no choque entre ambos no GP da Turquia de 2010, quando disputavam a liderança, e este ano, na Malásia, em que Vettel não respeitou a ordem para não ultrapassar Webber a fim de ganhar a corrida. Foi um grande ensinamento para a escuderia autríaca.

E essa cultura será agora aplicada na gestão do relacionamento entre Vettel e Ricciardo. “Para isso precisamos que Daniel seja tão veloz quanto Mark. Em algumas provas Mark esteve no mesmo nível de Sebastian e foi até melhor. É o que queremos de Ricciardo. Sebastian e Mark não são amigos. Companheiros não precisam ser amigos.”

No GP da Hungria, o empresário de Fernando Alonso, Luis Garcia Abad, foi procurar o diretor da Red Bull, Christian Horner, para oferecer seu piloto. Foi um choque para a Ferrari. E para a Red Bull. O negócio não havia como sequer começar a ser discutido por causa do contrato do espanhol com o time italiano.

Mas pela declaração de Marko, também porque a Red Bull não o deseja. “Nós nunca trabalhamos com Alonso e essas associações (dois campeões do mundo) exigem que se conheça bem o caráter dos dois pilotos. Com alguns o trabalho conjunto é possível, com outros, não. Mas do que vimos de Alonso penso que não haveria como administrar essa relação.”

Se existe uma coisa que envaidece Marko é falar da sua descoberta, o notável Sebastian Vettel. No fim de 2007, apesar de deixar ótima impressão ao substituir Robert Kubica na BMW, no GP dos EUA e já marcar pontos, com a oitava colocação, o mais jovem da história, com 19 anos, Mario Theissen, diretor da equipe, dispensou Vettel no fim do ano para competir em 2008 com outro alemão, Nick Heidfeld, e Kubica. “Tivemos a sorte de eles terem apostado no homem errado (Heidfeld), o que nos permitiu trazer Vettel”, lembra, rindo, Marko.

Os dois têm uma relação que se estende além da profissional. Conversam muito. Marko, sempre muito objetivo, orienta o piloto que “descobriu”, embora seu talento fosse algo já tão palpável que se podia tocá-lo. Mas não para o diretor da BMW. “Sinto orgulho de Sebastian, claro. O vi crescer. Veio da nossa escola de jovens pilotos, o programa Júnior, e foi campeão pelo nosso time.”

Em 2014, a competência de Vettel e de seus colegas de Fórmula 1 passará por um exame de alta complexidade. “Apenas os pilotos rápidos e muito inteligentes poderão andar no bloco da frente”, prevê Marko. “Eles terão de descobrir como utilizar o motor turbo, sem controle de tração, utilizar os dois sistemas de recuperação de energia (kers) e administrar o consumo de gasolina, pois serão apenas 100 litros na corrida”, explica. “Temos um extenso programa de simulação em curso a fim de melhor prepararmos nossos pilotos. E essa exigência também orientou a escolha de Daniel.”

Marko não diz, mas fica no ar a mensagem do que todos na Fórmula 1 sabem: Raikkonen é brilhante. Mas da hora que abaixa a viseira à hora que traz o carro aos boxes, quase sempre inteiro e com bom resultado no bolso do macacão. Mas dos boxes para trás a dedicação extrema ao trabalho, como será imprescindível em 2014, certamente não corresponde ao seu forte.

A saída de Ricciardo da Toro Rosso levantou a questão: quem Marko e Horner vão contratar? A escuderia passará a ter o mesmo motor e kers Renault da Red Bull, a quem pertence, em substituição ao atual Ferrari, o que deve ajudá-la a crescer na competição. Antes de abordar do perfil do substituto de Ricciardo, Marko espontaneamente fala do simpático time, com sede em Faenza, na Itália.

“Nos o adquirmos em 2006 porque tínhamos o projeto de utilizar o Centro Tecnológico da Red Bull (em Milton Keynes, Inglaterra) para produzir o seu carro também. O regulamento permitia utilizar basicamente o mesmo chassi. E podemos dizer que começou funcionando muito bem”, comenta Marko.

Provavelmente lhe veio à mente a temporada de 2008, em que o carro era eficiente e o piloto da Toro Rosso se chamava Sebastian Vettel. Não apenas estabeleceu a pole no GP da Itália de 2008 como venceu a corrida de ponta a ponta, sob chuva. Para se ter um ideia da proeza da escuderia naquele ano, marcou 39 pontos, ficou em sexto entre os construtores, enquanto a nave-mãe, a Red Bull, classificou-se em sétimo, com 29 pontos.

“Mas aí, claro, mudaram a regra de novo e fomos obrigados a fazer um investimento enorme, contratar dezenas de profissionais, dobrar o número que possuíamos, comprar todo tipo de equipamento, os mesmos que já tínhamos no Centro de Tecnologia da Red Bull.”

Até que tudo funcione é preciso um tempo. A Fórmula 1 é imperiosa nesse sentido, lembra o austríaco. “Estamos começando a atingir agora o nosso objetivo. Temos de ser o melhor do bloco intermediário. É o queremos para 2014.”

O brasileiro Felipe Nasr, na luta pelo título da GP2, é candidato à vaga de Ricciardo na Toro Rosso? Sua resposta não deixa dúvida e não é por não fazer parte da escola da Red Bull. “Não. Eu o conheço, é o segundo colocado na GP2. Apesar de ser um campeonato longo ele ainda não venceu nenhuma corrida.”

Nasr optou por privilegiar essencialmente a regularidade, marcar pontos a cada etapa das 22 corridas das 11 etapas da temporada. Até agora foram disputadas 18. E seguiu com fidelidade o planejado. Nas 14 primeiras provas só não marcou pontos em uma. Ocorre que para alguns dirigentes da Fórmula 1 às vezes o estilo aguerrido, mesmo que com um pouco menos de resultados, convence mais. Como é a filosofia de Marko. Mas nem todos pensam dessa forma.

O português Antonio Felix da Costa, do programa Júnior da Red Bull, tem chances na Toro Rosso. É o quinto na veloz Fórmula Renault 3.5 World Series, com 95 pontos, diante de 163 do dinamarquês Kevin Magnussen, líder.

“Costa me impressionou no ano passado, na estreia na World Series, vencendo de cara várias provas, mas este ano não está indo tão bem. Vamos ver, não temos pressa, há ainda muitas corridas nas competições onde temos pilotos do programa Júnior.” Ter vencido apenas uma prova, dentre as 11 disputadas, está fazendo Marko pensar se Costa é mesmo o homem certo para a Toro Rosso.

Em conversa com o Estado, este ano, na China, o piloto português conta que a cobrança depois de um treino classificatório ou mesmo a corrida é grande. “Ele sempre me liga. Orienta, dá conselhos, mas cobra resultado e sempre me lembra que sem eles não tem Fórmula 1.”

A receita básica do perfil do companheiro de Jean-Eric Verge na Toro Rosso, em 2014, contudo, Marko tem, há tempos. No que melhor o caracteriza, afirma: “Terá de ser alguém do programa Júnior e não apenas com potencial para se tornar piloto de Fórmula 1, mas essencialmente lutar pelas vitórias e títulos, o que é bem diferente”.

Usou exatamente esse argumento para dispensar, sumariamente, em dezembro de 2011, o suíço Sebastian Buemi e o espanhol Jaime Alguersuari, da Toro Rosso: “Não demonstraram que poderiam ser um novo Vettel”.

Apesar de faltar cinco meses para o início da temporada de 2014, onde ocorrerá uma das maiores mudanças técnicas da história da Fórmula 1, a competição ainda não conhece o seu fornecedor de pneus. A FOM já tem contrato assinado com a Pirelli, bem como as equipes. Apenas a FIA ainda não assinou por, incrivelmente, seu presidente, Jean Todt, apoiar a Michelin, longe da Fórmula 1 desde 2007, e ser contra a exigência de Bernie Ecclestone, promotor do evento, de os pneus terem elevado desgaste para as corridas apresentarem dois ou três pit stops.

Marko abordou o tema: “Seria uma pena se depois de todo o trabalho realizado com a Pirelli eles mudassem o fornecedor de pneus. Mas não somos nós que decidimos”. No fim de semana, em Monza, as conversas com a direção da FIA avançaram e a Pirelli deve ser reconfirmada para os próximos três campeonatos.

A última parte da conversa com o sisudo Marko, pois quase nunca esboça um sorriso, embora seja sempre solícito, envereda por o engenheiro de maior sucesso na história da Fórmula 1, o genial Adrian Newey, diretor técnico da Red Bull. O austríaco o admira. “Definitivamente é o nosso grande líder na área técnica. Foi ele quem criou toda nossa estrutura técnica, contratou profissionais certos para os lugares certos, todos sintonizados com ele, realmente especialistas e capazes de entender o que Adrian lhes pede.”

A extensão da obra de Newey deve ser medida não apenas pelos números impressionantes da sua carreira. Seus carros foram campeões do mundo de 1992, com Nigel Mansell, 1993, Alain Prost, 1996, Damon Hill, e 1997, Jacques Villeneuve, na época de Newey na Williams. Depois, com Mika Hakkinen, em 1998 e 1999, na McLaren. Retomou a série de conquistas em 2010, na Red Bull, com os três títulos seguidos de Vettel e provavelmente o quarto, este ano. Até agora são nada menos de nove títulos mundiais de pilotos.

“Poucos sabem que foi Adrian que organizou a pirâmide técnica da Red Bull e a dirige. E sabe que sem o grupo que trabalha com ele não conseguiria obter o grande sucesso alcançado por nosso time.”
Depois de Vettel cujo contrato é estimado em 18 milhões de euros (R$ 54 milhões por ano) por ano, o de Newey é o maior da Red Bull, com 10 milhões de euros (R$ 30 milhões). Há um consenso na Fórmula 1 que o engenheiro aeronáutico inglês retribuiu com muitos euros cada centavo investido nele. Marko concorda.

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