Massa: 'Achei um acidente ridículo, um acidente tonto'

Estadão

17 de agosto de 2009 | 13h18

17/VIII/09
Livio Oricchio, de Nice (França)

Se dependesse apenas da sua vontade, sexta-feira, primeiro dia de treinos do GP da Europa, em Valência, Felipe Massa já estaria lá com sua Ferrari. Mas reconhece, nessa entrevista, não estar preparado, ainda. “Apesar de me sentir bem, não estou 100%”. Nos primeiros dias de setembro, comentou com entusiasmo, fará nova tomografia para avaliar a sua evolução e, se tudo estiver de acordo com o esperado, poderá submeter-se aos exames da FIA para pensar em voltar a correr.

Na sua primeira conversa com a imprensa escolheu, junto da Ferrari, os jornalistas que acompanharam seu drama e a surpreendente recuperação no Hospital Militar de Budapeste, entre os dias 25 de julho, data do acidente no treino classificatório do GP da Húngria, e a alta hospitalar, dia 3. Definiu o acidente como “ridículo”, comentou não ter recebido uma ligação sequer do companheiro de equipe, Kimi Raikkonen, e afirmou com todas as letras: “Não tenho medo de voltar a acelerar”.

BLOG DO LIVIO – Como é ficar tanto tempo longe da Fórmula 1, como você se sente?
FELIPE MASSA – É…tenho de esperar mais um pouco (para regressar às pistas), o que é chato. Mas não me sinto ainda 100% em condições de voltar. Não sei dizer, acho que não conseguiria suportar a vibração dentro do carro, sinto também a cicatriz. Minha vista esquerda, por exemplo, não está 100%, continua melhorando rápido, a cada dia, mas começou com 40%, passou para 80% e semana passada fiz um exame que deu 95%. No cérebro eu não sinto nada. Meu jeito de pensar, fazer as coisas é o mesmo, pergunto até para minha mulher, meu pai e eles me dizem que não mudei nada. Agora no começo de setembro vou fazer mais uma tomografia, ver o quanto eu melhorei e depois pensar, então, em fazer os testes para voltar a correr.

Qual a sua reação ao ver na TV as imagens do acidente?
Achei um acidente ridículo, um acidente tonto. Com certeza não vi a mola. Pode ser que na hora que estava para bater eu a tenha visto, mas bateu no capacete e apaguei na hora. Deu para ver depois, pela minha mão, que eu acelerava e brecava ao mesmo tempo na grama. Fórmula 1 é assim, acidentes acontecem não só quando você erra ou tem problema com outros carros.

Chegou a alguma conclusão a respeito do ocorrido?
Discuti a questão com meu engenheiro (Rob Smedley). O Rubinho estava uns quatro segundos na minha frente. A mola se soltou do seu carro, pegou numa zebra, fez o efeito de mola e voltou na direção do meu capacete. Ela pesa umas 800 gramas e a velocidade, imaginamos, foi de uns 260 km/h. Isso equivale a um impacto de uns 200 quilos. Deu para enxergar no capacete como foi forte a batida. Houve um grande efeito no meu cérebro. Mas como todo piloto, eu voltaria ontem a correr, sempre foi minha paixão.

Não tem receio de quando for para a pista alguma coisa na sua mente gere medo de ser atingido por algo solto?
Do ponto de vista psicológico o acidente não gerou efeito nenhum em mim. Já sofri acidente muito mais feio. Perdi o freio, bati forte e sai do carro com o botão do volante no capacete. Não vai ter nenhum efeito em mim. Foi muito estúpido o que aconteceu. Outro dia minha esposa, a Rafaela, me perguntou se eu não sentiria nenhum medinho quando voltasse a pilotar. Respondi nenhum. Quero voltar a pilotar já, mas não depende apenas de mim.

O Niki Lauda disse que depois do seu acidente, em 1976, foi para o circuito de Monza, deu uma volta e regressou para os boxes porque não conseguia acelerar. Depois superou o medo e foi campeão do mundo mais duas vezes.
Não pensei nisso ainda porque, como disse, eu apaguei na batida e fui acordar no hospital três dias depois. O acidente é algo que não fez parte da minha vida. Fiquei sabendo o que aconteceu depois, quando me contaram no hospital e ao ver as imagens. Não o senti. Não vou regressar às corridas sem estar 100%, mas tirar o pé (do acelerador), seja no dia que for andar de kart ou de Fórmula 1, não vai acontecer comigo. Espero voltar mais forte. Medo eu não tenho!

O seu companheiro de equipe, Kimi Raikkonen, como se comportou?
Não me telefonou. Eu o ouvi na mensagem que os pilotos me mandaram e a fala dele foi a mais curta. Ele me mandou um cartão postal, mas não me atinge. É o jeito do Kimi. Não consigo imaginar fazendo coisa diferente. O Michael Schumacher foi me ver no hospital, conversamos bastante, me contou que deu algumas voltas com o carro de 2007, mas que sentia dores no pescoço quando passava nas ondulações e perdia um pouco a visão. Comentou que estava preocupado. Depois fez o exame e deu que não poderia correr. Falei por telefone com ele, estava bastante chateado.

Você pode exercer alguma atividade física?
Não. Perguntei aos médicos e eles disseram que não posso por ser o jeito mais rápido de melhorar. Não sou de comer muito, me alimento normalmente, está dando para manter o peso. Em casa assisto a filmes, fico no computador, é a parte chata, não poder fazer muita coisa. Acho que terei, ainda, de fazer uma cirurgia plástica na cicatriz que é meio grande, mas pode ser depois de o campeonato acabar.

Quais suas últimas memórias do GP da Hungria?
Como disse, o acidente não existe na minha cabeça, nem fazendo força. Bati, acordei três dias depois no hospital, vi depois tudo na TV, compreendi o que aconteceu. A última coisa que me lembro foi que saí para o Q1 (primeira parte do treino classificatório) com pneu usado, recordo da minha primeira volta no Q2 e até voltar para o box. A batida apagou alguma coisa porque não me lembro da segunda saída (a do acidente). Sei que acordei todo inchado no hospital e minha família explicando tudo. Eu não vivi aqueles momentos na pista.

E sobre o atendimento, você estava consciente, está claro para você?
Me disseram que eu gritava, dá para ver através de algumas imagens que eu mexia os braços, punha a mão no machucado, devia estar consciente, mas não lembro. Não senti dor nenhuma. Quando acordei parecia um elefante. Recordo do meu pai (Luis Antonio), o médico, Dino Altman, da Rafaela, minha mãe, as pessoas mais próximas de mim. Lembro de acordar no hospital, tentar tirar o tubo (estava entubado para facilitar a respiração), mas conseguia respirar sozinho e estava me atrapalhando, tanto que logo tiraram o tubo. Imagina acordar no hospital e não saber que havia batido no treino.

Como foram os instantes que se seguiram a você acordar no hospital?
Eu não lembro. Eu dormia uma, duas horas, ficava acordado uma hora e meia. Mas dizem que eu perguntava sempre se era grave e se voltaria a pilotar. Me disseram que passei por uma situação de risco, precisaria de um tempo para me recuperar, não havia nada mais sério comigo. Mas eu chegava para o Dino e perguntava, e aí? Não passava pela minha cabeça não correr em Valência (próxima etapa do campeonato, domingo). Até Valência teríamos três semanas. A Rafaela vinha eu dizia que eram apenas três semanas. Eu cheguei para o Dino e pedi para ele assumir a frente porque se depender dela eu não corro mais. O que ficou para mim é que não foi um acidente gravíssimo, mas de risco.

Você reclamou de ter permanecido internado tanto tempo (do sábado do acidente à segunda-feira da semana seguinte)?
Foi até engraçado. Teve momento de eu levantar da cama e dizer estou indo embora. Mas acabava voltando. Quem estava lá do meu lado dizia ‘o cara é louco’. Foi muito difícil. Desejava sair da cama, eu tinha uma televisãozinha bem pequena onde só passava programas em húngaro, não dispunha de internet para procurar o que tinha se passado comigo. Difícil. Só fui ver tudo quando cheguei em São Paulo. Assisti à classificação, à corrida. Aliás, as imagens da classificação não mostraram o que estava acontecendo comigo. Imagina minha família (em São Paulo). A Rafaela viu o médico fazer aquele sinal de cruz com os braços… A partir daí ela não assistiu a mais nada, saiu atrás de providenciar um avião.

Como você vai acompanhar o GP da Europa, em Valência?
Vou estar em cima de tudo, pela TV, telefone, internet, torcendo muito. Falei bastante com o Luca Badoer (seu substituto), não será fácil para ele (não conhece o modelo F60 da Ferrari). Disse para trabalhar em duas coisas: a parte física e aprender a pista no simulador. Ter o circuito na cabeça lhe permitirá ganhar tempo para trabalhar no carro.

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