Massa fora da Ferrari. Mas não tem muito o que reclamar.

liviooricchio

10 de setembro de 2013 | 19h36

10/IX/13
Nice

Apesar de ter sido comunicado de que seu contrato não será renovado, Felipe Massa só pode agradecer a Ferrari, ao contrário de qualquer outro sentimento que possa sentir. Nenhum piloto na Fórmula 1 ganhou tantas novas oportunidades de sua equipe como Massa.

A primeira pergunta que emerge da bela história desse paulista de 32 anos na Ferrari é por qual razão não irá disputar lá sua oitava temporada? Resposta: os seus números. O confronto com o companheiro na escuderia é o parâmetro para julgar seu trabalho. E as eventuais preferências por Fernando Alonso nesses quase quatro anos competindo juntos não justificam tanta diferença.

Em 2010, primeiro ano com Alonso na Ferrari, disputaram 19 Gps. O espanhol largou duas vezes na pole position e venceu cinco corridas, diante de nenhuma pole e vitória de Massa. Alonso marcou 252 pontos, contra 144 de Massa, e terminou o campeonato como vice-campeão enquanto o brasileiro foi sexto.

Nas duas temporadas seguintes a história se repetiu. Em 2011, ambos não fizeram poles, mas Alonso venceu uma etapa, marcou 257 pontos, Massa 118, e no final foi quarto, diante do sexto de Massa. Em 2012, o confronto das poles ficou 2 a 0 para Alonso e de vitórias, 3 a 0. Entre os pontos, 278, vice-campeão, contra 122, sétimo.

Este ano, depois de 12 etapas com o GP da Itália, domingo, em Monza, os dois pilotos da Ferrari não têm ainda pole, mas Alonso já ganhou duas provas, tem 169 pontos, vice-líder, e Massa, 79, sétimo colocado.

Assim que Alonso se mostrou bem mais eficiente que Massa em termos de obter resultados, em 2010, ficou implícito para o piloto brasileiro que sua função da escuderia seria somar o máximo de pontos a cada corrida. Para disputar o título, Alonso demonstrava ser mais capaz. É uma realidade. Como Massa foi bem mais eficiente que Kimi Raikkonen, em 2008, na mesma Ferrari, e não foi campeão, contra outro piloto excepcional, Lewis Hamilton, da McLaren, por apenas um ponto.

É bem provável que qualquer outro time já tivesse substituído Massa depois da campeonato de 2011, quando a diferença de desempenho para o companheiro transcendeu os limites aceitáveis. Era a segunda vez que isso ocorria.

Além do Mundial de Pilotos há em jogo na Fórmula 1 o Mundial de Construtores. É a classificação nessa competição que determina quanto a Formula One Management (FOM) repassa de verba aos times. O número de pontos obtidos pelos dois pilotos das equipes define a classificação.

Por Massa ter conquistado bem menos pontos que Alonso, a Ferrari ficou aquém do que seu potencial lhe permitia nas temporadas de 2010, 2011 e 2012. E possivelmente ocorrerá o mesmo este ano. A implicação dessa defasagem de desempenho é uma pior classificação no Mundial de Construtores e, por conseguinte, receber bem menos dinheiro da FOM. Coisa na casa dos US$ 20 milhões (R$ 42 milhões), na média, por ano. Algo nada desprezível. Quase tanto quanto a Ferrari paga para Alonso por ano.

Em 2014, haverá uma mudança radical no regulamento técnico e ninguém é capaz de supor, sequer, como será a competição, qual equipe terá um carro mais rápido e, essencialmente, confiável. A Ferrari precisa de um piloto que obtenha números mais próximos de Alonso. Por isso o anúncio de que Kimi Raikkonen irá substituir Massa parece ser iminente. A velocidade e regularidade do finlandês são impressionantes. Resta saber como será a disputa Alonso versus Raikkonen.

A Ferrari tem também muito o que agradecer a Massa, apesar da diferença nas estatísticas para Alonso. Por exemplo: tudo o que lhe foi solicitado, como incontáveis horas no simulador, desenvolvendo o carro, e Massa é eficiente nesse trabalho, ou quando não hesitou em facilitar a passagem de Alonso nas ocasiões em que estava na frente, sabendo o preço que pagaria, em especial com a torcida brasileira.

A não renovação do contrato da Ferrari representa o fim da linha para Massa na Fórmula 1?

É provável, mas ainda não é algo definitivo. Sua experiência de 132 Gps, 11 vitórias, 36 pódios e 15 pole positions somada ao inestivável conhecimento adquirido em sete anos como titular da Ferrari, organização vencedora das mais bem estruturadas da Fórmula 1, podem ser muito úteis a outro time, principalmente agora, com o novo e complexo regulamento de 2014.

Mais: Massa tem um aliado de peso para ajudá-lo a permanecer na Fórmula 1, Bernie Ecclestone, pois o Brasil é uma peça importante do seu mosaico de interesses.

O futuro de Massa não vai demorar para ser conhecido. Se não for na Lotus, como parece ser o caso, pois Nico Hulkenberg deve ser o escolhido, haveria alguma chance, ainda, na Sauber e na Force India. Se o negócio não der certo, Massa já disse que se sente jovem e com muita velocidade para se aposentar. O conceituado Campeonato Alemão de Turismo (DTM) pode ser o seu destino. “Não gosto de corridas longas. O DTM é algo que vejo como algo possível para mim”, afirmou na Hungria.

Junto da saída de Massa da Fórmula 1, se for o caso, há outra questão ainda mais importante: a presença do Brasil no Mundial. Desde a estreia de Emerson Fittipaldi, em 1970, pela Lotus, o País sempre teve ao menos um piloto no Mundial. Como a situação de Felipe Nasr, veloz brasiliense da GP2, de 21 anos, também não está fácil, quarto colocado no campeonato, há o risco de o Brasil não ter piloto na Fórmula 1, 44 anos depois da incrível história iniciada por Emerson.

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