Massa mostrou a Alonso como se faz. Vamos ver como será quando for a sua vez.

liviooricchio

19 de março de 2010 | 13h08

19/III/10

Livio Oricchio, de Nice

 

  Dias e dias mais tarde, verdade, reconheço, mas ainda em tempo de colocar no ar um comentário sobre a ultrapassagem de Fernando Alonso em Felipe Massa, na segunda curva da primeira volta do GP de Bahrein, domingo, já que o tema continua reverberando, pelo que compreendo ao ler os comentários.

 

  Massa largou do lado par da pista, era o segundo no grid, onde há menor aderência, por estar fora da trajetória normal dos carros na reta dos boxes. Há menor acúmulo de borracha. Mas além desse fator ele próprio não realizou todo o procedimento de largada com perfeição. Curiosamente, Massa é, em geral, um bom largador. Talves seja o fato de se tratar da primeira largada real do piloto desde o GP da Alemanha do ano passado, dia 12 de julho, uma prova antes do acidente na Hungria. Nos testes os pilotos param na saída dos boxes e praticam largadas, mas sozinhos e sempre na mesma posição.

 

 Foi fácil ver que a preocupação de Massa metros depois de o sinal vermelho apagar era defender-se dos ataques do companheiro de Ferrari, Alonso, e de Lewis Hamilton, McLaren, quarto no grid. Alonso, terceiro, pegou o seu vácuo. Hamilton acelerava mais pela direita e ganhava terreno. Massa deslocou a Ferrari para a direita para se defender de Hamilton e tomar a curva 1 por dentro. Alonso aproveitou-se e colocou o seu carro do lado da Ferrari de Massa, apenas um pouco à frente, ainda, na curva 1.

 

  Aqui Massa poderia alargar a saída de curva. Mas Alonso já estava quase lado a lado. Ou o espanhol tirava o pé e Massa mantinha-se à frente ou mantinha a aceleração e os dois colidiriam. Massa não alargou a saída da curva 1 porque viu Alonso do lado e compreender o acidente iminente. Na sequência, poucos metros adiante, encontrava-se a curva 2, para a esquerda, no caso favorável a Alonso, que a tomaria por dentro. É provável que a essa altura Massa tenha compreendido que a posição estava perdida.

 

  Com Alonso do seu lado, não houve nem como fechar a porta ao adversário. Fecha-se a porta quando se está à frente, nem que seja apenas alguns metros. E Alonso já estava lado a lado. Qualquer tentativa de fazer a curva ignorando Alonso provocaria o choque. Não haveria nem como o espanhol frear por estar do seu lado.

 

  “Não tinha o que fazer. A curva 2 era para a esquerda, onde ele estava, eu larguei mal, perdi a posição”, nos disse Massa, depois da corrida. Sua declaração refletiu a verdade. Não estava tentanto evitar polêmicas. Não falou com essas palavras “não há controvérsia na manobra de Alonso”, mas foi sua mensagem. Quem trabalha perto do Massa o conhece, sabe como reage quando não gosta de algo. É um péssimo mentiroso. Suas expressões denunciam logo o que sente, o que não foi o caso, domingo.

 

  Mas o ocorrido na etapa de abertura do Mundial, logo no primeiro confronto entre Massa e Alonso, não pode ser visto apenas dessa forma simplista, Alonso ultrapassou e acabou.

 

  Massa certamente, ainda que inconscientemente, deixou uma mensagem ao concorrente ao título: “Você viu como eu me comportei? Em situações onde defender a posição implicará um acidente, como a nossa no circuito de Sakhir, a melhor solução para todos é evitar um choque altamente potencial. Portanto, se acontecer de nas provas seguintes eu colocar o meu carro por dentro, deixá-lo lado a lado do seu, lembre-se do meu comportamento na largada em Bahrein, combinado?”

 

  Stefano Domenicali, penso, deve ter colocado o fato aos dois pilotos na reunião da equipe, depois do GP. “Essa é uma situação típica onde um deve não fechar a porta porque vão com certeza colidir. Bravo Felipe, pela altivez da manobra, bravo Alonso, por aproveitar a situação para, com segurança, ultrapassar Felipe. Da próxima vez que isso acontecer, os dois viram como deve funcionar, certo?”

 

  Mas esse exemplo refere-se apenas às ultrapassagens inevitáveis. Ainda ninguém sabe como será quando, por exemplo, Alonso ou Massa estiverem à frente e um do outro, não de lado como na largada de domingo. As próxima etapas responderão a questão.

 

  A minha opinião a respeito da reação de ambos no circuito de Sakhir? Tanto Massa fez o mais aconselhável, evitar uma batida certa, quanto Alonso não poderia desperdiçar a oportunidade de deixar o companheiro de Ferrari, mas adversário, para trás. A situação lhe surgiu muito favoravelmente por causa da má largada de Massa. Em resumo: não há o que constestar. É mesmo como Massa deu a entender, não houve nada de controverso. Mas Alonso também entendeu a lição e deve se comportar da mesma forma em circunstância semelhante.

 Vicente: Escrevo aqui que é para todos lerem mais facilmente. Não tens ideia do quão feliz estou em ler os seus comentários de novo, de saber que você está bem. Minha relação com o blog é um pouco distinta do que a baixa periodicidade de publicação de textos sugere. Eu o vivo mais intensamente do que parece. E são pessoas como você que me oferecem maior satisfação em dividir esse espaço sobre um tema que não há dúvida: somos amantes da Fórmula 1.

  Abraços, amigos. Segunda-feira estou viajando aqui de Nice para a Austrália e de lá para a Malásia.

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