Massa: piloto e cobaia no mesmo dia

liviooricchio

23 de agosto de 2011 | 03h55

23/VIII/11

Amigos:

No fim de semana da etapa do Festival Racing, em São Paulo, no início do mês, tive a oportunidade de vivenciar uma experiência deliciosa: estar ao lado de Felipe Massa enquanto descobria o carro do Troféu Linea, em Interlagos. E depois invertemos as posições. Eu dirigi, observe que não falei pilotei, e o Felipe ficou do lado, corrigindo. Quase tudo, lógico. No portal do Estadão, Esportes, está disponível o vídeo dessa prova inequívoca de coragem do Felipe. A seguir, o texto de apresentação do tema. Na sequência, dois outros posts. O primeiro com uma entrevista com Felipe e o outro, com dois depoimentos, dele e meu, sobre o desafio de Interlagos.

Só gostaria de avisá-los de que qualquer gozação (eu as faria) provocará abalos da ordem de 6,2 na escala Richter nas nossas relações. Trata-se de uma intensidade devastadora. Divirtam-se.

No primeiro momento, Felipe Massa deu risada, acreditando tratar-se de uma piada. Depois, quando viu que a coisa era séria, ficou preocupado. Muito. A ponto de ligar para a Ferrari a fim de saber se poderia, nas férias, se expor a tamanho risco. Seu desafio: pilotar em Interlagos, pela primeira vez, o carro do Troféu Linea, competição apadrinhada por ele próprio ­- até aí prazeroso -, mas com um complemento assustador: seria, depois, passageiro no Linea e o “piloto”, um jornalista da área automobilística, mas sem experiência prática de pista. E olha que o Fiat Linea preparado para as corridas, com seu motor turbo de 210 cavalos, chega rápido na freada do S do Senna: 220 km/h.

  Contra todas as previsões, a direção da Ferrari concordou com a realização da reportagem durante a etapa do Racing Festival, em São Paulo, semana passada. Há rumores de que tenham aumentado consideravelmente o valor da apólice de seguro do piloto. O Troféu Linea faz parte do Racing Festival e nela competem alguns dos maiores pilotos de turismo do Brasil, com Cacá Bueno, Christian Fittipaldi e Giuliano Losacco. Seria com esse carro que Massa e o jornalista Livio Oricchio, do Grupo Estado, viveriam uma experiência bem pouco comum, com objetivos profundamente distintos.

  Enquanto o piloto da Ferrari, profissional, vice-campeão do mundo em 2008, procuraria desvendar os limites do modelo Linea nos 4.309 metros de Interlagos, o jornalista, ao seu lado, dentro do carro, aproveitaria a extraordinária oportunidade para assimilar o máximo de conhecimento possível do teste inédito de Massa: marchas utilizadas em cada curva, onde freia, como explora a potência do motor, detalhes do traçado, correções de trajetória etc.

  Mas não apenas para, mais tarde, narrar como o piloto da Ferrari foi descobrindo o Linea em Interlagos: aplicaria ele próprio os ensinamentos, como “piloto”, numa série de voltas no mesmo circuito, tendo Massa ao seu lado como examinador. Bem, na realidade, professor. Tarefa mais complexa, desafiadora, não há como não concordar, que simplesmente buscar os limites do Linea para Massa. O que não quer dizer que não tenha sido, para o jornalista, agradável, contagioso, marcante… 

  Os instantes de prazer começam já no chamado ground school do Linea, ou o breve curso, ainda diante dos boxes, para conhecer o que há disponível no carro e como funciona. Massa e o jornalista, com a indumentária necessária e nos seus bancos de competição, ouvem atentos as explicações de Beto Gardano, responsável técnico do Troféu Linea, e Dudu Massa, irmão do piloto, promotor do Racing Festival.

  Aí já surge uma diferença relevante de velocidade: no aprendizado. Para o piloto, os recursos do Linea de competição são familiares, apenas comandados de forma um tanto distinta do que está mais acostumado. Questão de adaptação. Para o jornalista, apesar do conhecimento básico da teoria, interagir com aquilo tudo que está sendo explicado, como câmbio sequencial acionado por imensa alavanca, uso da embreagem somente nas reduções de marchas, freios de ação ultra-rápida, tendo em mente primeiro a segurança e bem depois o desempenho, sem ser vexatório, soa desafiador.

  A proximidade de pessoas envolvidas com o Racing Festival e até de serviçais do autódromo, todos ao lado do Linea, estimulados pela presença de Massa, acompanhando cada movimento do piloto e do jornalista, ajuda a aumentar no profissional de comunicação a autocobrança por um trabalho minimamente decente. Seria como se, de repente, Massa estivesse na redação do Estadão e, pouco tempo antes do fechamento da edição, num desafio de jornalismo, lhe fosse requisitada a redação de um texto.

  Se não observasse os requisitos necessários, o que seria normal, alguém da área poderia redigi-lo rapidamente, sem prejuízos maiores. Já na experiência de Interlagos, quando se está a 200 km/h, reparos de condução são quase impossíveis. E por maior que sejam as providências com a segurança, como foi o caso, as consequências da falta de vivência do jornalista com a atividade de piloto poderiam ser danosas.

  Não foi por outra razão que Luis Antonio Massa, o Titonio, pai do piloto, se aproximou discretamente do jornalista, antes de este assumir o volante, e lhe disse: “Cuide bem de meu patrimônio, por favor”.

  No fim, a experiência acabou sendo prazerosa para ambos. Leia, ao lado, os depoimentos em primeira pessoa de Massa e do jornalista, bem como a entrevista exclusiva do piloto. Claro, o verdadeiro piloto. Nenhum incidente marcou a produção da reportagem, a não ser uma leve escapada no S do Senna. Não é difícil supor de quem.

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