McLaren limitará contatos de Hamilton com a imprensa. Faz sentido.

liviooricchio

22 Janeiro 2007 | 18h57

Ronald Dennis, não. Ronald não! De novo: Ron Dennis anunciou que irá impôr o “controle de exposição” a seu jovem piloto Lewis Hamilton. Li no site planet-f1.com

Primeiro deixe-me explicar a razão de mudar a forma como iniciei o texto. Ronald Dennis é como chamavam, ao menos os desavisados, Ron Dennis, atual sócio e diretor da McLaren. E referiam-se a Ron como Ronald apenas no tempo em que era um simples mecânico de carros de competição, nos anos 60.

Jamais mexa nesse assunto com ele. O papo acaba ali, na hora. O homem faz questão de omitir seu passado de pessoa simples. Em resumo: um durango. Por duas vezes nossa conversa acabou bruscamente, durante entrevistas.

Numa delas, foi porque eu lhe perguntei exatamente isso: o motivo de se recusar a falar de sua origem. Como profissional de enorme sucesso, competência comprovada, sua trajetória deveria ser até motivo de orgulho e não vergonha, como parece.

Ronald, desculpe, Ron levantou e foi embora. Sem contra-atacar, é bom que se diga. Apenas expressou, com o gesto de levantar-se e sair de onde estávamos, sua reprovação a minha iniciativa. Faz tempo já. Em outra oportunidade eu lhe perguntei o que achava da análise de Ayrton Senna, que dissera que a McLaren havia perdido técnicos importantes e não os havia reposto.

“Ayrton tem razão. Eu lhe pago tanto dinheiro que não sobra para investir em engenheiros famosos.” Mais uma vez deixou o ambiente da entrevista. Mas há uma coisa de bom, dentre tantas, lógico, em Ron: não parece guardar mágoas.

Em outras ocasiões me aproximei e lhe questionei algo e, profissionalmente, respondeu, até com um pouco mais atenção do normal. O que jamais espere, por exemplo, de Norbert Haug, diretor-esportivo da Mercedes, que apesar de não renunciar o seu passado de jornalista, os trata com regular descaso.

Mas vamos ao que mais interessa. Quer saber de uma coisa? O senhor Ron ou Ronald Dennis, como queiram, tem a mais absoluta razão em limitar as entrevistas individuais com Lewis Hamilton.

A sua argumentação é mais que procedente. Às vezes vejo pilotos atendendo a tantos compromissos promocionais, ou mesmo com a imprensa, que me pergunto como é possível manter a concentração numa atividade onde qualquer detalhe se traduz na perda de milésimos de segundo no tempo de volta, ou a diferença entre o sucesso e o fracasso.

Cito os exemplos dos pilotos da Red Bull e da Toro Rosso. Sempre afáveis, disponíveis, quando não estão atendendo os inúmeros compromissos dos patrocinadores do projeto, proprietários ou não da equipe.

Li há alguns dias que Gerhar Berger, sócio da Toro Rosso, manifestou seu inconformismo com o número de eventos, festas, que os seus pilotos atendem. “Falta-lhes foco”, afirmou. Não dá para imaginar que em pleno fim de semana de competição os pilotos transformem a atividade de reunir-se com os engenheiros e pilotar como secundária em relação a sua agenda promocional.

Já sei que tem gente pensado…esses jornalistas…quando não lhe dão atenção reclamam. E quando recebem manifestam-se do mesmo jeito, Não é isso. Estamos falando de extremos. Eles não conduzem ninguém a nada.
Imagine o caso de Lewis Hamilton. Inglês, nacionalidade da maior parte dos cidadãos da Fórmula 1, inclusive a mídia, jovem de talento – foi campeão onde passou – e, principalmente, negro. O primeiro da raça, como piloto, no Mundial.

Todos vão quer falar com ele. Ingleses ou não. Imagine se conquistar um bom resultado logo de cara, o que é possível, por que não? Pronto: já é ídolo e, mais, prestes a tornar-se herói. Mas ele tem apenas 22 anos, recém-completados, nunca disputou um único GP. Sempre soube que automobilismo é sentar no carro e acelerar.

Na Fórmula-Renault, Fórmula 3 e GP2 o carro já vem pronto. É só ajustá-lo ao circuito e pronto. Já na Fórmula 1 se faz o desenvolvimento do monoposto. É apenas mais uma das suas tarefas. E qual a sua experiência?

Em condições normais a Fórmula 1 já é extremamente seletiva no preparo emocional de seus praticantes. Sendo alvo das atenções , como com toda certeza será Hamilton nos dias de competição, esse tende a ser um favor que pode desestabilizá-lo bastante. Sabe onde esse desgaste irá se refletir: no cronômetro. Vá lá, o eletrônico, mas mede o tempo em milésimos de segundo.

O piloto, muitas vezes, nem sabe por que não está sendo veloz, como, em algumas oportunidades, o companheiro demonstra com o mesmo carro. O problema é ele consigo próprio. Repito: milésimos de segundo fazem muita diferença no universo ultracompetitivo da Fórmula 1.

Não que Dennis deva colocá-lo numa bolha à prova de interferências. Afinal, terá de passar pelas solicitações emocionais da disputa, faz parte do processo de maturidade. Mas controlar esses encontros, promocionais e com a mídia, de maneira racional, sem comprometer os dois lados, é mesmo altamente recomendável para a McLaren.

“Em algumas circunstâncias, é como atirar jovens pilotos aos lobos, e isso certamente não irá acontecer”, disse Dennis. Já não uso nem Ronald ou Ron, pronto. Eu, mesmo sendo jornalista, no lugar dele, faria algo semelhante.

Entrevistas exclusivas, sim, mas com frequência controlada. Depois, quando compreender melhor o que lhe solicitam, com que intensidade, e superar o choque inicial, maiores contatos não o prejudicarão, desde que aprenda a lição. Também, se não aprender, estará no lugar errado. A Fórmula 1 é para pessoas fortes.