Michael Schumacher, de coração aberto

liviooricchio

16 de março de 2010 | 07h29

16/III/10

Olá amigos:

Escrevo já de Nice, onde resido durante a temporada. Em primeiro lugar, uma explicação: não consegui postar nenhum texto no domingo. Ontem, segunda-feira, quando cá cheguei, inseri o post anterior a este e os demais que havia produzido para o Estadão, JT ne ão entraram. As mudanças gráficas no Estadão, segundo me informaram, causaram dificuldades iniciais no nosso sistema.

Apesar de já ter passado dois dias desde que o texto a seguir foi publicado no Estadão, penso valer a pena disponibilizá-lo aqui também, mesmo agora. Nos testes da pré-temporada em Valencia e Barcelona e depois um pouquinho ainda em Bahrein, recolhi um depoimento de Michael Schumacher, como sempre muito profissional comigo. Ele já havia feito o mesmo em 2004, em Suzuka. Como agora, concordou que eu escrevesse o que me contou em primeira pessoa, autorizando sua assinatura. Sem desejar valorizar nada, por favor, mas essas coisas na Fórmula 1 são raras. Meu agradecimento a Schumacher e a sua assessora de imprensa, Sabine Kehm, sempre disposta a me auxiliar quando os procuro.

Na reforma gráfica do jornal de 2004,  publicamos um depoimento sincero e humano desse excepcional piloto que, agora, está roendo um osso duro com essa meninada bem mais jovem e supertalentosa. Naqueles dias, Schumacher concordou em falar comigo em pleno fim de semana de corrida, o que não faz. “Ele está te esperando às 17 horas na sua sala”, disse me Sabine, lá no Japão. Expressei estar consciente da deferência em me atender em plena sexta-feira de GP e o agradeci pela demonstração de confiança por me permitir relatar nossa conversa em primeira pessoa, sem exigir que o texto fosse encaminhado a Sabine previamente, como seria de se esperar, afinal nossa relação é extritamente profissional, o que ele sabe de mim? Até onde sei, nada.

Tudo se processou de maneira bem semelhante agora também, seis anos depois. Esses encontros me mostraram um piloto mais sensível que sua conduta nos autódromos sugere. E um homem da mesma forma ligado a certos valores mais humanitários que não são percebidos através do que nos chega pela imprensa porque ele parece criar uma espécie de blindagem no espírito. O que víamos era quase apenas uma máquina de vencer. Mas há mais que isso, pude compreender nesses bate papos informais, desprovidos do formato estanque das entrevistas tradicionais. A seguir, apresento um resumo do que Schumacher me contou este ano. Abraços!

Depoimento:

 Voltei a fazer nesse fim de semana uma das coisas que mais gosto na vida: disputar um GP de Fórmula 1. E confesso que sentia muita falta. Depois que deixei o Mundial, após o GP do Brasil de 2006, vivi um período de grande satisfação, por poder me dedicar mais à família, o que sempre desejei. Mas com o tempo passei a sentir saudades da competição. Ao mesmo tempo, a F-1 mudou bastante com a proibição dos testes. Isso fez com que eu passasse a pensar na possibilidade de regressar ao Mundial.

  O que vou contar aqui é essa história, entre a decisão de deixar a F-1 e a de aceitar o desafio de enfrentar uma nova geração de pilotos jovens, cheios de vontade de serem campeões ou aumentar seus títulos.

  Durante o campeonato de 2006, compreendi que estava cansado das muitas atividades exigidas de um piloto de F-1. Nossos compromissos se estendem para bem além de sentar no carro e acelerar. Essa é, aliás, a parte mais gostosa da profissão. Temos uma extensa agenda de ações promocionais e, na época, infinitos testes.

  No exemplo de 2006, quase não havia restrição de treinamentos particulares e como a luta com Fernando Alonso estava dura, não havia semana que não estávamos na pista. Então se você junta o fim de semana de corrida a esses dias de testes e a agenda promocional, algumas vezes em países distantes, verá que não sobrava tempo para vida pessoal. Mal via minha família.

  Àquela altura, eu já tinha conquistado vários títulos, me divertido, e minha condição profissional me permitia pensar em parar. Eu precisava dar um tempo, voltar minha atenção para mim mesmo. Sentia falta de participar mais da vida como pai.

  Essa combinação de razões me fez procurar nosso presidente na Ferrari, Luca di Montezemolo, para lhe informar que não iria renovar meu contrato. Continuava adorando pilotar, me sentia em condições de lutar pelas vitórias, títulos, mas estava pagando um preço alto, que era renunciar a tudo na minha vida. Sabia exatamente o que queria. Fui procurá-los sem hesitar.

  Em 2007, realmente vivi alguns dos melhores momentos de minha existência, pois podia fazer o que todo pai normal gosta de fazer. Compreendi que deixar a F-1 foi a decisão mais acertada da minha vida.

  Claro que vez por outra dava um jeito de realizar umas corridas de kart e de moto, o que gosto bastante. Tudo bem, é verdade, ganhei um quilos a mais em 2007, mas não me senti culpado. A sensação era de que eu podia me permitir alguns excessos, afinal as severas restrições que a profissão de piloto de F-1 exige cobraram de mim anos e anos de dedicação total. Em 2008, não foi diferente.

  Comecei 2009 interessado em correr, mas nem de longe aceitaria aquela enxurrada de compromissos que mal me permitiam respirar fora do mundo do automobilismo. As motos me divertiam. Mas aí sofri aquela queda num treino que todos sabem (dia 2 de fevereiro, em Cartagena), na Espanha, e precisei dar um tempo parado. Algum tempo depois, Montezemolo me telefonou e pediu que eu fosse a Maranello.

  Ele me propôs substituir Felipe, ou meu irmão mais novo, como o sinto, que havia se acidentado na Hungria, e vi a chance de voltar a fazer o que desejava na medida certa para mim, sem as imensas obrigações de ser piloto regular de F-1. Tudo caminhava bem para eu voltar em Valência. Quando fui treinar em Mugello com um carro de F-1 da Ferrari (modelo 2007), no entanto, depois de um tempo comecei a sentir uma dor intensa na musculatura do pescoço. Contra todos o meus interesses, procurei Montezemolo para lhe dizer que, infelizmente, eu não poderia correr, não havia me recuperado ainda.

  A minha relação com a Mercedes é antiga. Corri por eles com os protótipos, em 1990 e parte de 1991, e eles me ajudaram a estrear na Fórmula 1, pela Jordan. Sou muito grato. Alguns meses depois do teste em Mugello, eu me sentia normal, sem os problemas no pescoço, quando fui procurado pelo pessoal da Mercedes.

  Não tenho como negar que me sentia atraído por uma eventual volta à F-1. O Mundial não era mais como eu o havia deixado. Comecei a pensar: não existe mais treino durante o campeonato. Dessa forma, regressar à F-1 seria, basicamente, me apresentar para as corridas nos fins de semana. Faria o que amo, pilotar os carros, iria às reuniões da equipe, atenderia aos compromissos promocionais, mas nem de longe seria como em 2006.

  Disse ao Felipe que estava bastante inclinado a voltar à F-1 em Florianópolis, no seu evento de kart, e ele me deu grande apoio.

  Dentro de casa não foi diferente. Corinna (a esposa) me viu tão entusiasmado com a possibilidade da volta que me disse para ir adiante. Ela cresceu nesse meio, como eu, não tem receios. Acredito, porém, que prefere me ver correndo com veículos de quatro a duas rodas. Ela me respeita assim como eu admiro sua dedicação ao hipismo. Ela montou um centro de treinamento, usado também para competições, extraordinário. Irá receber o Campeonato Europeu de Hipismo. Fica em Givrins, não distante de onde residimos, na Suíça.

  Estou voltando não para satisfazer a saudades de pilotar. Não assinei um contrato de três anos para me divertir apenas, muito menos tentar prova algo. Voltei para conquistar meu oitavo título e levar a minha equipe a ser campeã. E por que três anos? Porque aprendi na F-1 que os objetivos não são atingidos imediatamente. Se não for campeão este ano, crescerei com o time para poder ser nos seguintes, como foi no tempo de Benetton e Ferrari. Meu projeto é vencer o campeonato dentro desse prazo. E o prazo foi imposição minha.

  Não há nenhuma razão financeira. Se existisse, jamais funcionaria. Todo esportista de alto nível que regressa a suas atividades por essa razão, depois de um tempo parado, não faz sucesso.

  Ficou tudo claro com a Mercedes e assinei o contrato. Eu me sentia realmente bem. Quando pilotei o carro da Mercedes, em Valência, pela primeira vez, falei que estava me lembrando do meu primeiro dia na F-1, num teste que fiz em Silverstone, com a Jordan.

  Depois da primeira, segunda volta, em 1991, questionei se eu seria capaz de conduzir aquele carro, de tão rápido que tudo se processava. As voltas foram passando e compreendi que eu poderia, sim, ser piloto de F-1. Em Valência, no mês passado, aconteceu exatamente a mesma coisa. As reações do carro pareciam mais rápidas que as minhas. De novo fui pegando a mão da pilotagem e não demorou para me sentir confortável e tirar prazer dentro do cockpit.

   Já compreendi, agora, que muitos me consideram o piloto a ser batido nessa minha volta, apesar de considerar que nossa equipe não será muito competitiva nas primeiras provas. Me sinto cercado pelo sete pilotos das quatro equipes que devem disputar o título (Mercedes, Ferrari, McLaren e Red Bull). Mas eu gosto de desafios. E esse é dos maiores. Estou falando de enfrentar pilotos de grande talento. Está aceito. Vamos ver quem ganha no final.