Minha opinião sobre os episódios de Hockenheim

liviooricchio

28 de julho de 2010 | 22h19

28/VII/10

Livio Oricchio, de Budapeste

Amigos, para começar do começo mesmo, combinado? Duvido que a maioria vá até o fim.

 

Li e leio todos os comentários do blog. Em primeiro lugar, obrigado por participar. E lendo as opiniões, interpretações, sugestões, compreendo que é hora de expor bem claramente o que penso. O Marcão já entrou de sola: “Você é um ferrarista!” Depois li que estou sendo condescendente com o Felipe Massa. Alguns até se dizem decepcionados comigo e outros sugerem que eu tenha algum tipo de ligação com os envolvidos.

 

Sobre minha relação com Felipe Massa. Amigos, sabe o primeiro erro de um jornalista quando vem cobrir a Fórmula 1? Que ele se tornou amigo de um piloto. Conheço o Felipe Massa da época em que corria de kart. Chegou a almoçar comigo no Estadão com seu assessor de imprensa, Marcio Fonseca. Em 1997, o Binho Carcasci, responsável pelo projeto sério da Seletiva Petrobras de Kart, organizou a Seletiva de Kart Elf, a fim de selecionar um piloto para ir à França e por seis meses frequentar a escola de pilotagem La Filière, coordenada pelo ex-piloto da Fórmula 1 Henry Pescarolo.

 

Eu e José Carlos Brunoro fomos convidados, também, para fazer parte do grupo que analisaria os pilotos, além do critério técnico estabelecido pelos resultados na pista. Quando acabou o evento e a competição apontou um legítimo vencedor, Pescarolo nos perguntou, na reunião: “Alguém tem alguma coisa a dizer, estamos aqui para selecionar o melhor piloto.”

 

Eu levantei a mão e falei: “Já que você pediu a nossa opinião, a minha é de que, com todo respeito ao rapaz que venceu, por favor, o melhor piloto dessa competição foi esse menino chamado Felipe Massa”, com 16 anos na época. Quem acabou indo para a Europa foi o outro piloto que pelos mais variados motivos não seguiu carreira.

 

Ano passado, em Mônaco, na sexta-feira, dia sem atividade, Felipe Massa me contou ficar sabendo dessa história. E riu.

 

Agora nos dias da Copa do Mundo, solicitei ao Felipe Massa ouvi-lo depois do jogo contra o Chile para redigir um texto para o Estadão, pois ele, o Bruno Senna, o Alberto Valério, dentre outros, estariam juntos para acompanhar a partida em Mônaco, onde residem. Eu moro em Nice, do lado de Mônaco, vou regularmente ao principado e, quase sempre, passo na porta do edifício onde moram o Felipe Massa, Lucas Di Grassi e Galvão Bueno. Com a boa vontade deles, realizei um gostoso trabalho jornalístico sobre a vitória de 3 a 0, com foto enviada pelo Bruno.

 

Veio o jogo contra a Holanda. Fiz o mesmo pedido e entrei em contato com o assessor de imprensa do Felipe Massa, o mesmo do início de carreira, para solicitar seu comentário depois do jogo. Vocês não fazem a menor ideia dos artifícios que eles buscaram para que, se o Felipe Massa me telefonasse, não ficasse registrado no meu celular ou no telefone de casa o seu número.

 

A solução foi que se o Felipe Massa decidisse falar, o que talvez exigisse autorização da Ferrari, ele me ligaria do celular do irmão, Dudu, que estava com ele. Assim, não haveria o risco de eu ficar sabendo o telefone dele. Já imaginaram o que poderia acontecer? Quando redigi a reportagem depois do jogo com o Chile, liguei para o celular do Bruno que, gentilmente, repassou para o Massa falar comigo e foi, como regra, extremamente simpático.

 

Tanta história para quê? Para mostrar como é a nossa relação. Se você é jornalista da Globo, não rádio Globo AM e CBN FM, como eu, mas da TV Globo, os direitos são outros. O acesso ao Felipe Massa é concedido. E não há nenhum problema, ou seja, ele e sua família não correm nenhum risco de, eventualmente, o número ficar registrado no celular dos jornalistas da Globo porque eles dispõem desse número.

 

Já respondi a primeira dúvida: não sou amigo do Felipe Massa e de piloto nenhum na Fórmula 1. Todos eles, sem exceção, a partir do momento que assinam o primeiro bom contrato para ganhar mais de € 1 milhão por ano, ascendem a outra casta, enquanto você permanece na dos mortais. Ocorre um “clic” e, de repente, mudam.

 

Isso não quer dizer que nossas relações se deteriorem, ao menos necessariamente. Estão lá por méritos próprios e tomara que evoluam na profissão. É bom para todos. Mas as relações que antes até incluíam instantes de maior proximidade, onde cada lado conversava mais francamente, sem as formalidades das entrevistas, pode esquecer. Deixam de existir. Em geral esses contatos continuam corteses, mas estritamente profissionais, apenas.

 

Senhores, Felipe Massa foi surpreendido pela decisão da equipe ordená-lo deixar Alonso ultrapassar. Não havia nada tratado previamente. Sei o que estou falando. Felipe Massa estava ali lutando pela vitória, tão necessária pelo momento difícil que atravessa, com o veloz companheiro, um segundo atrás, quando ouviu a senha. A maioria das equipes tem uma senha também.

 

Vocês se lembram do GP da Turquia, este ano mesmo, quando o Lewis Hamilton e o Jenson Button lutaram felinamente pelo primeiro lugar depois de a dupla da Red Bull colidir? A senha da McLaren foi: “Jenson, você está consumindo muita gasolina, economize-a.” Como que num passe de mágica Hamilton deixou de ser atacado por Button. A mais genuína ordem de equipe. E não se fala mais nisso. Por quê? Não deveria repercutir como com Felipe Massa, agora?

 

O piloto está hiperconcentrado na corrida e a chefia, para quem ele deve responder, ordena algo. Ele dispõe de raros segundos quando o carro entra na reta, por exemplo, para refletir ao mesmo tempo que interage com o carro, como exige a Fórmula 1 hoje. Mas não há muito tempo. A equipe está exigindo uma solução imediata. Aí entra em cena a relação do piloto com o grupo que, ao contrário do que as pessoas pensam, é das melhores. Não existe piloto número 1 e número 2. Existe, sim, piloto mais bem colocado na classificação.

 

O que primeiro lhe vem à mente é, apesar as imensa frustração, obedecer às pessoas com quem trabalha nesse clima de solidariedade que há no grupo. Uma coisa é ver uma equipe de Fórmula 1 de longe outra é viver o dia a dia no autódromo. Conversar informalmente com seus integrantes, senti-los, ouvir o que te dizem sobre vários temas, muitas vezes confiando de que aquela informação é para ficarmos sabendo e não para divulgação, lhe dá uma visão bem diferenciada.

 

É uma visão mais próxima da realidade, sem a presunção de achar que sabemos tudo e dispomos de todas as verdades. De qualquer maneira, é bem mais profunda e compatível com o que ocorre lá dentro. E na Ferrari o ambiente é bastante profissional e há um ar de amizade no ar não comum nas demais organizações. Já imagino o que vão pensar de mim: “É ferrarista mesmo.”

 

A Ferrari, então, acertou ao ordenar a ordem de equipe? Tudo é uma solução de compromisso na vida. Ganha-se de um lado e perde-se do outro. No Brasil, a decisão foi a mais equivocada que eu já vi nos meus mais de 20 anos cobrindo a Fórmula 1. Aqui na Europa, a não ser na Inglaterra, a contestação foi infinitamente menor que no Brasil e tampouco Felipe Massa foi excomungado, como no seu país.

 

A Ferrari está atrás no campeonato, Stefano Domenicali vive momentos de extrema tensão pela cobrança da cúpula do grupo, que transcende Luca di Montezemolo, mas naquela balança de perdas e ganhos a balança pendeu muito mais para a perda. Os 7 pontos a mais permitidos a Fernando Alonso não valem o reforço de degeneração da imagem do time por ações dessa natureza. Em resumo: solução equivocada. Que a Ferrari aprenda de vez com essas soluções de ordem de equipe com o campeonato ainda no início da segunda metade. Mesmo sob a égide do negócio, como manda a Fórmula 1, não se mostra do seu interesse.

 

Se Massa vencesse, Alonso ficaria 7 pontos mais distante de Hamilton, verdade. Mas hoje a atmosfera ao redor da Ferrari seria oposta à experimentada, de profundo desgaste. Esse negativismo ao redor da Ferrari é bem mais capaz de prejudicar suas ambições do que os 7 pontos a menos que Fernando Alonso teria, mas em compensação circundado pelo positivismo de o time não intervir na disputa.

 

Dá até para entender que num campeonato com três escuderias lutando pela vitória os pontos se diluem e cada um deles tem elevada importância. Mas insisto que as perdas foram muito maiores para a Ferrari que o capitalizado com os 7 pontos a mais de Alonso, reconhecidamente o piloto com maiores possibilidades de levar o time, este ano, a lutar pelo título.

 

Voltando para Felipe Massa. Eu lhe fiz a pergunta na sala de entrevistas diante de uns 300 jornalistas das mais distintas nacionalidades, logo depois do pódio: queria saber se ele não receava se tornar outro Rubens Barrichello na opinião do brasileiro com aquela submissão doída até a alma para quem assistiu à corrida, profissional ou simplesmente apaixonado pela Fórmula 1.

 

Amigos, pela reposta do Felipe Massa, de bate pronto “De jeito nenhum”, com certeza em nenhum instante passou pela sua cabeça que o sentimento dos que confiaram nele como piloto, vibraram por sua recuperação depois do acidente, seria de traição. Penso que apenas depois de ler os comentários de alguns blogs que ele diz acessar compreendeu a extensão do dano a sua imagem.

 

Desacatar a ordem significaria não disputar, talvez, a próxima etapa depois da Hungria, o GP da Bélgica. Nessas três semanas a Ferrari pensaria numa solução para substituí-lo. Felipe Massa não teve tempo para entender o que aconteceria se não acatasse a ordem. Só sentiu mesmo a terrível sensação de abdicar daquilo que é a causa de estar na Fórmula 1: vencer.

 

Estou, sim, reduzindo, o peso da decisão de Felipe Massa, mas sem isentá-lo, como explicarei no parágrafo seguinte. Estou 100% convencido de que ele não mensurou a decepção que estava causando em milhões de brasileiros, essencialmente. O quadro não ficou claro por ser tudo muito rápido. Não lhe veio à cabeça os desdobramentos do caso naquele instante. Dispos de poucos segundos, sob a tensão da disputa com Alonso, a mais de 300 km/h, para compreender o pedido e atendê-lo.

 

Isso tudo, porém, não significa que se tivesse tido tempo para decidir não respeitaria a ordem. Penso até que como foi criado dentro da Ferrari, provavelmente manteria a fidelidade ao grupo.

 

Senhores, qualquer cidadão que vive fora do Brasil enxerga mais fácil o câncer que é o sistem bancário brasileiro, nação com inflação média de 0,2% ao mês e instituições que cobram taxas de juros médios de 8%. Ser banqueiro no Brasil é o maior negócio do mundo. Disciplinar essa raça e extirpar no judiciário o que há de mais lesivo historicamente aos interesses do país seria o primeiro passo que tomaria como dirigente no Brasil, mas acreditar que o Santander manda na Ferrari é um erro imenso.

 

Existe, sim, uma maneira de Felipe Massa redimir-se. A um custo alto também. Mas o resgataria da excomunhão decretada pelos brasileiros: se ocorrer de novamente estar à frente de Fernando Alonso, receber nova ordem e não cumpri-la. Não seguiria na Ferrari talvez já este ano ou, com muita sorte, no máximo na próxima temporada, mas times como Renault, Force India, Sauber, por exemplo, provavelmente se interessariam em contratá-lo para 2011.

 

Não ganharia nem de longe os supostos € 8 milhões livres que leva para casa, mas se relançaria como homem honrado no seu país e avisaria a quem o contratasse quais são as regras. As dele. E não as da equipe.

 

Desculpem-me a extensão do texto e eventuais equívocos na escrita. Agora passa das duas horas já da quinta-feira, aqui em Budapeste, e o dia começou ontem bem cedo para mim, em Nice, na França. Amanhã nos falamos do circuito.

Abraços!

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