Mudanças recentes vão gerar diferenças profundas na competição

liviooricchio

29 de setembro de 2012 | 12h44

29/IX/12

Livio Oricchio, de Nice

Logo depois de o diretor de corrida dar a bandeirada ao vencedor do GP do Brasil, dia 25 de novembro, em Interlagos, oficialmente encerrando o campeonato, Lewis Hamilton e Sergio Perez vão começar a trabalhar para valer nas suas novas equipes. Os desdobramentos na Fórmula 1 da transferência de Hamilton da McLaren para a Mercedes e de Perez da Sauber para a McLaren são imensos.

Por exemplo: Fernando Alonso, da Ferrari, Sebastian Vettel, Red Bull, e Jenson Button, McLaren, já compreenderam que num primeiro momento deverão ter, provavelmente, menos adversários na luta pelas vitórias. A história da Fórmula 1 mostra serem raros os casos de equipes que de uma temporada para a outra dobraram o número de pontos conquistados.

A Mercedes tem hoje, depois de 14 etapas, 136 pontos, quinta colocada, diante de 297 da Red Bull, líder, 261 da McLaren e 245 da Ferrari. Assim, ao menos na primeira metade do próximo campeonato seria surpreendente se a escuderia alemã, mesmo com o notável reforço de Hamilton, disputasse a primeira colocação com regularidade.

É verdade, também, em contrapartida, que um piloto mais capaz dos que defendem atualmente a Mercedes, como Hamilton, representa um enorme salto adiante em termos de desempenho e evolução do carro. Da mesma forma, faz sentido se esperar significativo desenvolvimento da equipe como um todo. O investimento da Mercedes contempla não apenas a contratação de Hamilton, mas uma injeção de dinheiro na estrutura da organização, ainda pequena se comparada a de Red Bull, McLaren e Ferrari.

Hamilton foi anunciado como parte de um pacote, onde até a renovação do Acordo da Concórdia pela Mercedes veio à tona, depois de Bernie Ecclestone, promotor do Mundial, decidir liberar mais dinheiro à equipe, como havia feito com Ferrari, McLaren e Red Bull. Hamilton, portanto, não desembarca sozinho na Mercedes, mas junto de um plano de tornar sua infraestrutura compatível com a dos times capazes de vencer com frequência na Fórmula 1. “Uma das surpresas que tive foi ver como a equipe é pequena”, comentou Michael Schumacher. “Apenas este ano cresceu fisicamente”.

Outro bom motivo para a Mercedes abrir os cofres para Hamilton foi a profunda revisão conceitual por que passará a Fórmula 1 a partir de 2014.
Os motores turbo de 1,6 litro, V-6, vão substituir os atuais V-8 de 2,4 litros. Mercedes, Ferrari e Renault serão os únicos fabricantes de motores. A McLaren será apenas cliente da Mercedes.

Hamilton juntou tudo para se definir pela Mercedes: muito mais dinheiro, o desejo pessoal de mostrar a Ron Dennis, diretor da McLaren, ser possível vencer mesmo distante da sua organização, e a perspectiva bastante positiva de a escuderia alemã tirar importante vantagem da mudança radical do regulamento em 2014.

Do outro lado, por mais talentoso que seja Perez, é pouco provável que inicie o campeonato lutando pelas vitórias. “Na Fórmula 1, um piloto vencedor não nasce vencedor, mas se forma vencedor”, costuma dizer Jackie Stewart, três vezes campeão do mundo. É o caso de Perez na fase inicial da próxima temporada.

Por essa combinação de razões é que se pode esperar ver, caso Ferrari, Red Bull e McLaren produzam bons carros em 2013, Alonso, Vettel e Button fortalecidos na luta pelo título. O espanhol tanto já sabia disso que sugeriu a Hamilton a mudança da McLaren para a Mercedes. Obviamente não havia outra intenção no “conselho” a não ser enfraquecer Hamilton, mesmo que apenas nas suas primeiras experiências com a equipe alemã.

Ainda a favor de Alonso, Vettel e Button, inicialmente, está a instabilidade emocional de Hamilton quando as coisas não funcionam. “Não temos novidades relevantes no nosso carro desde o GP da Espanha enquanto nossos adversários já refizeram os seus”, afirmou em tom crítico Hamilton à imprensa, em Silverstone. A McLaren havia ficado para trás em relação a Ferrari e Red Bull.

“Lewis sabe que tem de esperar mais um pouco, mas sua apreensão é compreensível”, falou ao Estado, na mesma prova, Martin Whitmarsh, diretor da McLaren. Na etapa seguinte, em Hockenheim, na Alemanha, a McLaren apresentou um nova versão do seu modelo MP4/27 que permitiu a seus pilotos vencer quase tudo.

Perez vai começar a trabalhar na McLaren como grande promessa da Fórmula 1. O que nem todos no próprio time sabem é que o mexicano é um menino de 22 anos de relacionamento difícil. Não é o máximo da humildade. Quando Luca di Montezemolo disse que Perez não tem experiência para defender a Ferrari, quis dizer que o piloto da Sauber não tem o perfil do desejado por sua escuderia.

“Egli non è un uomo squadra”, ouve-se de profissionais que militam perto do mexicano, ou seja, não é um homem capaz de trabalhar em equipe, em outras palavras, não tem o que a Ferrari mais valoriza. Perez é muito individualista, embora profundamente talentoso na pista. Até a McLaren e Perez se acertarem os ensinamentos da Fórmula 1 propõem que haverá um período inicial de ajustes e resultados um pouco abaixo dos possíveis. Mais um ponto para Alonso, Vettel e Button explorarem no começo de 2013.

Todos esses elementos combinados apenas valorizam ainda mais a temporada que vai começar dia 17 de março na Austrália. Restando seis etapas para a atual acabar, os fãs da Fórmula 1 podem ficar tranquilos. Se este campeonato está sendo sensacional o do ano que vem reúne, desde já, aspectos potencialmente capazes de torná-lo tão ou mais espetacular.

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