Mundo milionário. Mas nem tanto, por favor!

liviooricchio

05 de dezembro de 2006 | 21h26

Às vezes penso que alguns profissionais de comunicação simplesmente ouvem falar algo e, sem a menor cerimônia, escrevem e publicam o que escutaram. Sequer têm interesse em compreender as regras do jogo ou mesmo se faz sentido técnico o que julgam ser notícia.

Esse com certeza é o caso do responsável pela informação que até agências internacionais divulgaram, hoje, a respeito dos valores dos contratos de alguns pilotos de Fórmula 1, em especial o de Kimi Raikkonen, que trocou a McLaren pela Ferrari.

O jornal sensacionalista suíço Blick estampou em manchete que Raikkonen vai ganhar US$ 51 milhões por ano nas próximas três temporadas, ou US$ 153 milhões no total. Tendo em mente que um ano tem 52 semanas, o finlandês receberia, sempre segundo o Blick, por favor, cerca de US$ 1 milhão por semana.

Puxa, Raikkonen vale, então, mais que Michael Schumacher, isso mesmo, o heptacampeão, cujo contrato com a Ferrari, bancado pela Shell, Philip Morris, Vodafone e a própria Ferrari, via sua proprietária, a Fiat, atingia espantosos US$ 40 milhões por ano. Willi Weber nunca desmentiu a imprensa alemã quando esses valores, foram, regularmente, publicados. Deve proceder.

Afirmar que Raikkonen assinou por US$ 51 milhões por ano é não só estar mal informado como desconhecer que nunca ninguém jamais chegou perto disso e não é tão fácil assim ganhar dinheiro. Um exemplo grosseiro pode exemplificar a aberração da notícia. A Ferrari produz cerca de 4 mil veiculos por ano. Supondo que o valor médio de seus carros seja de US$ 150 mil, o faturamento seria de US$ 600 milhões por ano.

Na hipótese, bem linearmente, por favor, de no fim do ano seu lucro líquido ser de 15%, a Ferrari embolsaria US$ 90 milhões. Claro que o raciocínio não é bem esse, mas não deixa de ser uma referência para mostrar quão desproporcional é a idéia de que Raikkonen vai ganhar tudo isso. Seria mais da metade de todo o lucro líquido da mítica empresa de automóveis. Dá para ver que nem Schumacher, com tudo o que representou, representa e sempre representará vale tudo isso?

Eu teria Raikkonen na minha equipe. Ele e Fernando Alonso foram os melhores pilotos que surgiram na Fórmula 1 desde a estréia de Schumacher, no GP da Bélgica de 1991. Mas pagar US$ 51 milhões seria acreditar que ele se responsabilizaria por gerar muito mais para os investidores. O que, convenhamos, como todo o respeito que mereça como piloto, não é nem de longe o caso.

Assim são as coisas na Fórmula 1. Alguém lança uma pseudo notícia e milhões no mundo todo, por não disporem da oportunidade de compreender melhor como funciona o meio, ainda que nesse caso estamos falando até de bom senso, acreditam e vira “verdade.” E olha que estamos falando de uma informação que veio da Suíça!

Os ingleses não ficaram, hoje, atrás dos suíços. A revista F1 Racing publicou que Fernando Alonso aceitou trocar a Renault pela McLaren para receber US$ 35 milhões por ano. Também devem acreditar que a organização dirigida por Ron Dennis e a Mercedes têm máquina para impressão de dinheiro.

A F1Racing divulga os valores de outros contratos, também: Jenson Button, na Honda, ganharia US$ 16 milhões por temporada, e Giancarlo Fisichella, na Renault, US$ 10 milhões. É o que vocês leram: Fisichella receberia, pela reportagem da F1 Racing, US$ 10 milhões. Acho que vou me candidatar a assessor de imprensa da equipe Renault. Se a política de salário é essa, de repente sobra uns US$ 25 mil por mês para mim.

Longe de desejar ser o dono da verdade, até porque tudo o que envolve dinheiro na Fórmula 1 é guardado como segredo de cofre, faz parte do seu marketing, mas o que se comentava nos paddocks até a prova aqui de Interlagos, a última do campeonato, eram valores bem distintos. Tenho certeza de que não conferem 100% com a realidade, mas ao menos estão dentro de parâmetros estabelecidos pelas leis de economia e finanças de negociações mantidas num sistema são.

Já estourando, para desconfiarmos se é mesmo verdade, Raikkonen e Alonso ganharão valores semelhantes, na casa dos US$ 25 milhões por ano, em razão de serem, com a aposentadoria de Schumacher, os melhores da Fórmula 1. Mais: porque a Ferrari está disposta a investir muito alto, para tentar dar sequência à série de conquistas da era Schumacher, ainda que não na mesma proporção, lógico, e a McLaren e a Mercedes necessitarem, urgente, de alguém que os leve a serem campeões novamente, o que não ocorre desde 1999.

Quanto a Button e Fisichella, poucos acreditam que receberão a metade do anunciado pela publicação inglesa. A Fórmula 1 é um evento milionário. Mas conduzido por homens que, ainda que invistam pesado, têm a precisa noção de causa e efeito.
Abraços!

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