Na largada, talvez a definição do vencedor

liviooricchio

26 de agosto de 2006 | 12h59

Quem gosta muito de Fórmula 1, como eu, deve estar ansioso, também como estou, com relação ao que deve ocorrer na largada, amanhã, aqui em Istambul. Duas ferraris na primeira fila e duas Renaults na segunda. Acompanhe comigo quantas variáveis há nessa fase decisiva da prova e suas implicações para a sequência do campeonato.
Michael Schumacher e Felipe Massa sabem, os treinos mostraram isso, que a Ferrari deverá ser um pouco mais veloz que a Renault ao longo das 58 voltas da corrida, ao menos em boa parte da competição. O próprio Alonso reconheceu, ainda há pouco, que suas chances de vencer estão relacionadas diretamente à performance dos pneus Michelin. “Depois de 10 ou 15 voltas teremos uma noção mais precisa”, disse.
Só que ontem à tarde e hoje pela manhã vi ele fazer seus long runs, essas 10 ou 15 voltas seguidas, para verificar o comportamento do carro e dos pneus. É praxe nos fins de semana de GP. Todos utilizam o tempo dessa forma. É preciso ter referências de como o carro e os pneus irão se comportar onde realmente importa, o domingo. E Alonso viu que, na análise comparativa dos tempos de volta com o que fizeram Schumacher e Massa, a Renault está alguns décimos de segundo mais lenta.
Já assisti às coisas mudarem de um dia para o outro por motivos como a temperatura se alterar bastante ou o asfalto ganhar borracha a ponto de inteferir radicalmente no comportamento do carro. Não deve ser o que vai ocorrer aqui. A previsão é de calor intenso para amanhã também, 32 graus, e nenhum piloto falou em asfalto por demais escorregadio por falta de borracha. Por isso, se não haver surpresa, a tendência é Alonso não dispor de meios para um ataque mais contundente em Massa e Schumacher. Mas a largada pode alterar essa ordem natural de a corrida se desenvolver.
Alonso ultrapassar Schumacher, por exemplo, será normal. O alemão está no lado sujo da pista e a Renault tem um carro que, reconhecidamente, larga bem. Tenho certeza de que Flavio Briatore, diretor-geral da Renault, se não falou dirá a Fisichella, quarto no grid: “Tente dividir a primeira curva com o Schumacher. Ele tem a perder, você não.” O raciocínio vale também para Alonso. Se os dois abandonarem a corrida, será uma chance a menos de Schumacher superá-lo no campeonato. Está 100 a 90. Depois da prova de Istambul serão apenas mais quatro etapas.
Na hipótese de Alonso ultrapassar Schumacher, como vimos bem possível de ocorrer, a importância do papel de Massa, caso ele largue bem, se aproveite da pole position e mantenha-se em primeiro, cresce ainda mais. Não poderá permitir que Alonso o ultrapasse no primeiro pit stop. Ninguém sabe o nível de gasolina dos quatro pilotos, mas não deve ser muito diferente. As primeiras paradas provavelmente serão em voltas próximas.
Na eventualidade de perder o segundo lugar para Alonso, Schumacher irá procurar já no seu primeiro pit stop retomar sua colocação. Apesar da vantagem técnica do conjunto Ferrari-Bridgestone sobre o Renault-Michelin em Istambul Park, parece difícil que o alemão consiga, na pista, a ultrapassagem, daí a importância dos pit stops. Mais de em outras provas, eles poderão na Turquia colocar Schumacher mais próximo ou mais distante de Alonso na liderança do Mundial. Repare que não respondemos nada, apenas levantamos algumas das possibilidades mais prováveis de como a competição deve começar e os seus desdobramentos a seguir. Nada impede que as coisas ocorram de outra maneira.
Como nós, Ross Brawn, na Ferrari, e Pat Symonds, Renault, com muito mais propriedade e estrutura à disposição, estão fazendo a mesma coisa. Deveremos assistir aqui em Istambul a um belo e imprevisível pega. Se não na pista, ao menos entre os estrategistas dos dois times. Os pilotos serão seus executores. Devemos torcer para ninguém se tocar com ninguém na primeira curva, o que roubaria um pouco o brilho da disputa. O bom dessa história é que está tudo aberto, mesmo com a esperada maior velocidade da Ferrari.

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