Nelsinho: "Vou recomeçar longe de todos"

liviooricchio

23 de janeiro de 2010 | 23h35

23/I/10

As acusações a Nelsinho Piquet por ter provocado deliberadamente o acidente no GP de Cingapura de 2008 para seu companheiro de Renault, Fernando Alonso, vencer a corrida foram sérias: manchou o nome do pai, Nelson Piquet, três vezes campeão do mundo; envergonhou o Brasil, País com tradição de sucesso na Fórmula 1; e expôs os demais pilotos e até o público a uma situação de risco. E não foi fácil para Nelsinho, aos 24 anos, superar a fase inicial desse processo de demolição que atingiu não só sua carreira como a ele próprio, como homem.

Na noite de sexta-feira, no Hotel Transamérica, onde está hospedado em São Paulo (disputaria os 1.000 km de Interlagos, hoje, mas seu carro teve problemas), Nelsinho falou ao Estado, durante uma hora, sobre “o período mais difícil de sua vida”, compreendido entre abrir o jogo sobre o ocorrido em Cingapura, “para que todos conhecessem melhor quem é o Flavio Briatore (ex-diretor da equipe Renault)”, ser quase excomungado pela torcida, e a decisão de substituir o projeto de correr na Fórmula 1 pelo da Nascar, a Stock Car norte-americana, “longe de todos que o conhecem”.

Demonstrando serenidade, resignação e confiança no futuro, Nelsinho comentou a respeito da ameaça de Briatore de processá-lo, bem como a seu pai, pela acusação de envolvimento no escândalo de Cingapura: “Ele é que sabe. Nós temos muito mais bala, e de calibre pesado, para incriminá-lo.” Seu maior erro na Fórmula 1? “Não sei se foi erro ou azar. Mas dividir a equipe com o Fernando Alonso, uma espécie de Deus na Renault, fez com que todas as atenções se concentrassem nele.”

Seu pai o treinou cientificamente para que se tornasse um vencedor na Fórmula 1, o que exigiu elevados investimentos, e depois de apenas um ano e meio na competição você já está fora. Como lidar com a frustração dos seus sonhos e do seu pai também?
Para muita gente a vida acabou para mim. O que posso dizer é que a minha vida apenas começou, tenho 24 anos. Ao ver que eu estou hoje feliz, o que não era quando corria na Fórmula 1, meu pai da mesma forma se sente bem. Quando corria no esquema do Flavio (Briatore), eu acordava e começava a me preparar para ir ao autódromo a fim de enfrentar aquele desgaste todo. Isso é ser feliz? O que o meu pai mais deseja é ver os seus filhos vivendo bem, não infelizes, independentemente de ser dentro ou fora da Fórmula 1.

A impressão de muita gente é que vocês procuraram atingir o Briatore, ao denunciar a farsa de Cingapura à FIA, mas sem medir direito as consequências para você. Hoje, se ele desejar voltar, como foi absolvido, está livre. Enquanto a própria Fórmula 1 cria resistência ao seu retorno…
O Flavio ganhou na Justiça comum. A FIA vai recorrer e ele sofrerá uma punição, não há dúvida sobre isso. Eu também estou livre, disponho da superlicença. Eu abri o jogo para todo o mundo conhecer melhor quem é o Flavio. Ele sacaneou comigo o tempo todo, tinha de ser exposto. As portas não estão fechadas para mim na Fórmula 1. Em dezembro, o próprio Bernie Ecclestone me telefonou para dizer que o Zoran Stefanovich me queria no seu time, o Stefan GP. Conversamos muito. Mas depois resolvi correr nos Estados Unidos. Precisava mudar tudo na minha vida, não aguentava mais tanta gente falando de Cingapura, até a minha própria mãe. Chega. Errei, me arrependi profundamente, mas não posso me martirizar mais por isso. Nos Estados Unidos nunca me perguntaram nada sobre o que se passou, eles nem sabem o que é a Fórmula 1 (Stefanovich pretende estrear na Fórmula 1 em 2011).

O Briatore disse que vai processar você e seu pai pela acusação e a FIA em razão da enorme perda de dinheiro por ter sido excluído temporariamente do automobilismo.
Ele é quem sabe. Nós temos muito mais bala, e de calibre pesado, para incriminá-lo. O Heikki Kovalainen e o Lucas Di Grassi, ex-pilotos do Flavio, me procuraram para obter mais dados a fim de processá-lo também. Claro, o Flavio tem seus defensores. O Mark Webber (da Red Bull e um dos líderes da associação dos pilotos GPDA)me escreveu quando os delegados da FIA foram interrogar o Flavio em Spa-Francorchamps, durante o GP da Bélgica, pedindo para não levar adiante o caso, parar de falar. O Webber defende o Flavio até a morte.

Tanto tempo depois, o que você pensa sobre o Fernando Alonso?Ele não sabia mesmo de nada, foi inocente no caso Cingapura, como garantiu a FIA?
Ele nunca falou nada comigo sobre o que aconteceu lá. Não dá para saber. O que posso dizer é que não sei se foi erro ou azar, mas dividir a equipe com o Fernando Alonso, uma espécie de Deus na Renault, fez com que todas as atenções se concentrassem nele. O Alonso foi campeão em 2005 e 2006 com o time e em 2007 a Renault não fez nada. Quando voltou, depois dos problemas na McLaren, deve ter exigido tudo no contrato e a Renault, claro, aceitou. Se meu companheiro tivesse sido o Kovalainen e não o Alonso de repente minha história na Fórmula 1 tivesse sido outra.

O desafio agora é correr na Nascar, competição em que nenhum brasileiro até hoje fez sucesso.
Você tocou no ponto. Poderia ter ido para a Indy, mas já há tantos brasileiros por lá. Meu projeto é aprender como se corre na América, muito diferente da Europa, e passo a passo crescer. Por isso vou começar pela série Truck da Nascar, depois pretendo ir à Nation Wide para chegar, bem preparado, à Cup, a principal, o que nenhum brasileiro fez até hoje.

Foi uma boa opção profissional?
A cada dia vejo que tomei a decisão certa. Eu me sinto feliz de novo. Como disse, é diferente da Europa. Cerca de 90% do que ganhamos vêm dos prêmios e da porcentagem dos investimentos em patrocínio. O salário é apenas 10%. Na Europa é exatamente o oposto. O mais importante é que no dia 6 vou correr em Daytona e em vez de me sentir desconfortável, como na Renault, estou sentindo imensa vontade de que chegue logo.

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