Nico: 'Não é fácil ser companheiro de Schumacher'

liviooricchio

23 de setembro de 2011 | 11h04

   23/IX/11

  Livio Oricchio, de Cingapura 

  Amigos, entrevistei ontem Nico Rosberg, no circuito que classifico como dos mais bonitos do calendário, Maryna Bay, aqui em Cingapura. Nem tanto pelo traçado, mas por tudo o que cerca o “autódromo” e, claro, sua funcionalidade, em especial por se tratar de uma pista de rua. Mesmo não sendo um circuito fechado de velocidade supera em muito vários autódromos do mundo, em especial o pior deles todos, Interlagos.

  Acredito que por conta de a maioria dos pilotos me ver há tantos anos nas entrevistas da FIA, sempre na primeira fila da sala de coletivas, e em razão de lhes fazer perguntas de forma regular, costumam me tratar com certa deferência nas entrevistas tipo tetê-à-tête, a exemplo da com Nico no elegante e espaçoso ambiente da Mercedes no autódromo, exatamente o oposto do que é disponibilizado às equipes em Interlagos.

  Essas entrevistas acabam virando bate-papo, pois não raro os pilotos, surpreendentemente, nos fazem também perguntas. E às vezes sobre temas que imaginávamos não ser possível. Chama a atenção o fato de não serem tão bem informados como imaginamos. Acredite: há casos em que a imprensa dispõe de mais dados do que eles, daí sermos sabatinados.

   Placar da disputa Nico Rosberg X Michael Schumacher na Mercedes

  Em 2010: Grid: Nico 14 X 5 Schumacher. Corrida: Nico 14 X 4 Schumacher. Ambos abandonaram o GP da Hungria.

  No campeonato: Nico, 7.º, 142 pontos. Schumacher, 9.º, 72.

 Em 2011, depois de 13 etapas: Grid: Nico 11 X 2 Schumacher. Corrida: Nico 7 X 5 Schumacher. Ambos abandonaram o GP da Austrália

 No campeonato: Nico, 7.º, 56 pontos. Schumacher, 8.º, 52 

  A conversa com Nico não foi diferente de outras boas que tive. Enquanto escrevia esta apresentação do texto, os carros entravam na pista para a segunda sessão de treinos livres. São, para mim, 21h30 desta sexta-feira, dia 23. No horário de Brasília, 10h30. Bom GP a todos nós.

  Estado (E) – Há quem o defina como finlandês e os que o veem como alemão. Você se sente alemão ou finlandês e com que licença corre?

  Nico Rosberg (NR) – Comecei competindo, no kart, com licença italiana. Nasci na Alemanha (Wiesbaden) e cresci em Mônaco. Depois passei para licença finlandesa e então a alemã, com a qual corro hoje. Eu me sinto alemão.

  E – Como é ser piloto de Fórmula 1 tendo o pai como campeão do mundo? Vocês conversam, trocam informações, Keke lhe dá conselhos? (Keke Rosberg, finlandês, pai de Nico, foi campeão do mundo de 1982, pela Williams.)

  NR – Nossa relação em geral é boa. Fomos muito próximos no começo da carreira, quando ele me ajudou muito. Meu pai é uma pessoa sensata. Suas orientações são boas ainda que por vezes é difícil para mim aceitá-las. Mais para a frente, porém, quase sempre acabo por compreender que ele está certo. Ainda hoje conversamos com alguma regularidade, mas bem menos de antes. Meu pai não vem mais às corridas.

  E – Sua trajetória se assemelha a de Nelsinho Piquet. Seu pai tinha uma equipe na Fórmula 3 Europeia por onde você corria, como o Nelsinho na Fórmula 3 Britânica com o Nelson. Isso acabou por se mostrar um problema para o Nelsinho quando chegou à Fórmula 1, quando passou a ser empregado e teve de acatar ordens. Não sabia o que era isso. E para você?

  NR – É verdade, corri no time de meu pai. Mas nós tínhamos um chefe de equipe, a quem me reportava. Tive uma educação muito boa e isso ajuda (estudou nas melhores escolas de Mônaco, onde reside até hoje). Mas já na ART GP, na GP2 (2005), eu era contratado. Na F-1 você se relaciona com muita gente e tem de aprender a trabalhar com pessoas nem sempre de fácil relacionamento.

  E – Sua estreia na F-1 foi espetacular, com um sétimo lugar no GP de Bahrein, pela Williams, em 2006, com apenas 20 anos de idade. Mas depois, diante das dificuldades da Williams e da Mercedes, nas duas últimas temporadas, não obteve os resultados que provavelmente você mesmo e a torcida esperavam. Se sente frustrado por não poder mostrar seu talento?

  NR – Não diria frustrado. Tenho consciência de que na F-1 você precisa de um bom carro para conquistar bons resultados. E sou do tipo paciente. Meu prazer vem, por exemplo, de chegar na quarta colocação porque sei que com nosso carro é um desafio. Se terminei bem colocado significa que fiz uma corrida fantástica. Mas, claro, espero logo dispor de um melhor equipamento para poder vencer.

  E – Por que a Mercedes, com sua capacidade de investimento e estrutura técnica, não consegue chegar sequer ao pódio, é hoje a quarta força do Mundial?

  NR – A Mercedes entendeu que a regra da F-1 é essa: tem de produzir um grande carro para poder vencer. Hoje nossa equipe tem mais empregados, profissionais muito competentes, contratados de outros times, estamos num processo de mudanças e isso exige algum tempo para funcionar. Nossa equipe era e anda é pequena comparada com outras.

  E – Com a manutenção do regulamento na próxima temporada, o desafio de times como o seu não será pequeno. Terão de tirar uma diferença superior a um segundo em relação à Red Bull. Acredita que a Mercedes conseguirá?

  NR – Não sei se construiremos um carro capaz de lutar pelo título, mas confio na estrutura que está sendo criada. Penso que fará um bom carro para 2012.

  E – É inevitável perguntar sobre seu relacionamento com Michael Schumacher, companheiro de equipe na Mercedes. Como é?

  NR – Muito interessante. Você entende as razões de ele ser sete vezes campeão do mundo. Sua maneira de encarar tudo é bem particular, vai fundo nos detalhes, e sua experiência ajuda. Michael é muito profissional. Bom para mim, que aprendo com ele, assim como penso que ele aprende comigo.

  E – É fácil compartilhar a equipe com Schumacher?

  NR – Não, nada fácil. Michael não é do tipo de fazer amigos. É muito exigente, o tempo todo, com a equipe, não pode haver falhas, busca o limite em tudo. Você tem de estar bem atento, manter os pés na terra, estar acordado para superá-lo. Não há um ponto que eu posso dizer que depois de trabalhar com Michael eu aprendi algo a não ser essa forma profissional de encarar tudo.

  E – Trocam informações?

  NR – Não muito. Às vezes, nas reuniões, nossos engenheiros repassam dados uns aos outros.

  E – Você é o primeiro companheiro de equipe que supera Schumacher, o maior de todos os tempos na F-1 em números, ao menos de forma regular. Que efeito isso tem em você?

  NR – Não sinto nenhum prazer especial. Claro que me sinto contente por batê-lo tão frequentemente, mas não por ser Michael. Para minha carreira, óbvio, é muito bom, definitivamente.

  E – Como se sente ao ler ou ouvir que supera Schumacher apenas por ele ter 42 anos e você 26?

  NR – Não dou atenção ao fato e nem li isso, ainda. Como disse, tem sido importante para mim bater Michael, não entra em cena se ele tem 42 anos.

  E – O que os dados de telemetria indicam, onde você é mais eficiente que Schumacher?

  NR – Essencialmente ganho tempo nas curvas de baixa velocidade, que é onde na Fórmula 1 se contrói o tempo. Freio depois dele. Acho que sou bom piloto em curvas de baixa velocidade. Da metade da curva em diante nosso desempenho é bem semelhante, aceleramos ao mesmo ponto. 

  E – Superar Felipe Massa na classificação do campeonato tem sido seu objetivo declarado. (Nico está em sétimo, com 56 pontos, diante de 82 de Massa, sexto.)

  NR – Não será fácil, mas vou tentar. Na realidade, se eu terminar a temporada em sexto, caso fique na sua frente, ou em sétimo, não importa. Coloquei essa meta por causa das limitações do nosso carro. Em 2012, sim, será importante.

  E – Como piloto, como vê essa queda de rendimento do Massa, como explicar?

  NR – Não sei. Estamos vendo Felipe atravessar um momento difícil na Ferrari. Talvez Fernando tenha elevado o nível da disputa a um ponto muito alto. Com certeza Fernando é fortíssimo, encontra-se num patamar bastante elevado.

  E – Aceitaria ser companheiro de equipe de Alonso? (Nico, Jenson Button e Sergio Perez são pilotos de interesse da Ferrari.)

  NR – Sim, sem problemas. Sou companheiro de Michael. Seria de Fernando também.

  E- Foi aqui em Cingapura que você obteve sua melhor colocação numa corrida de F-1, segundo lugar, em 2008. Se Alonso tivesse sido desclassificado, em razão da vitória fabricada por seu companheiro de Renault, Nelsinho Piquet, você venceria pela primeira vez na competição. Como é voltar aqui?

  NR – Não penso no que aconteceu em 2008. Só cheguei em segundo, também, por causa da merda que fizeram. De outra maneira não seria segundo. Sempre ando bem nesta pista, adoro o lugar, mas este ano deverá ser difícil para nós, por não termos ido bem em traçados de rua. Por esse motivo trouxemos várias novidades para cá, talvez dê para fazer alguma coisa.

  E – Ninguém sabe quando termina seu contrato com a Mercedes.

 NR – E eu não vou dizer. Não quero falar sobre esse assunto. Sinto-me orgulhoso, sendo alemão, de pilotar os carros flechas de prata da Mercedes. A equipe está crescendo, representa um privilégio correr na Mercedes. Se tivermos um carro melhor em 2012, como acredito, e começar a vencer, representará a realização de um sonho para mim. Não pensei, ainda, como poderá ser depois.

 

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