No duro regime de disciplina da Ferrari Kimi vai funcionar como na Lotus?

liviooricchio

12 de setembro de 2013 | 19h18

12/IX/13
Nice

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A maior parte dos fãs da Ferrari fez festa para celebrar a contratação de Kimi Raikkonen. Se na Lotus, equipe de orçamento bem menor que o da italiana, o finlandês somou no ano passado 207 pontos e disputou o título, depois de duas temporadas distante da Fórmula 1, o que não poderá fazer em 2014 na Ferrari, organização de maiores recursos técnicos e financeiros?

Ninguém questiona o extraordinário piloto que no dia 17 de outubro vai completar 34 anos. Veloz e constante como poucos, marcou pontos em 27 corridas seguidas pela Lotus. E tendo no currículo o título mundial de 2007, pela mesma Ferrari. Foi por tudo isso que Luca di Montezemolo, presidente da empresa, e Stefano Domenicali, diretor da equipe, decidiram substituir Felipe Massa por Raikkonen.

É preciso, no entanto, levarmos Raikkonen para o meio de um palco numa arena circular a fim de observá-lo de todos os lados. O que fez com que no regresso à Fórmula 1, no ano passado, voltasse a ser o piloto interessado, preciso e capaz de liderar uma equipe a ponto de redimensionar sua participação no campeonato?

Em 2011, a Lotus somou 73 pontos, quinta entre os construtores. Em 2012, com Raikkonen, 303, quarto. Nada menos de 230 a mais. O finlandês fez 207 e Romain Grosjean, 96. Em 2011, a Lotus obteve apenas dois pódios, duas terceiras colocações.

Em 2012, foram 10 pódios, sendo 7 com Raikkonen e 3 com Grosjean. Mais: Raikkonen venceu o GP de Abu Dabi. Este ano a Lotus tem depois de 12 provas 191 pontos e Raikkonen ganhou na abertura da temporada, na Austrália.

“Kimi marcou pontos 27 vezes seguidas, venceu, lançou o moral do grupo lá em cima”, disse Eric Boullier, diretor da Lotus, depois do anúncio da Ferrari.

“Kimi é um piloto particular. Para tirar o máximo dele é preciso entendê-lo. Deixar viver no seu mundo. E responde de maneira impressionante. Se você desejar enquadrá-lo nos esquemas estanques da Fórmula 1 não vai funcionar, ao menos como poderia se você lhe der liberdade”, afirmou ao Estado, Boullier, este ano, na Malásia.

Da cadeira próxima ao palco onde está Raikkonen é possível vê-lo sorrir. Há um bom motivo para isso: faz o que quer na Lotus. A primeira exigência para assinar com Boullier, em 2012, foi participar o mínimo possível de eventos promocionais. Nada de compromisso fora dos dias de corrida. Realizar treinamentos no simulador fica a cargo do companheiro de equipe. E tem um ótimo argumento para evitá-lo: sente-se enjoado depois de breve tempo. Como era o caso de Michael Schumacher.

Assim, o time e Raikkonen se veem apenas na quinta-feira do fim de semana de GP. A comunicação no intervalo entre as corridas pode ser feita pelo celular ou e-mail. O finlandês chega aos autódromos e na entrevista de quinta-feira, antes da reunião com os engenheiros, diz sempre a mesma coisa quando lhe perguntam o que pensa das novidades do carro. “Não tenho a menor ideia. Vou ficar sabendo daqui a pouco, na reunião com os engenheiros.”

Nesses muitos dias livres, Boullier só lhe fez uma objeção: não disputar provas de rali. Como desejava. A Lotus perdeu o talentoso Robert Kubica no começo de 2011 por causa do acidente sofrido no rali de Andora, na Itália, competição regional. Fora disso, Raikkonen faz o que bem entende e não deve satisfação a ninguém.

Nossa posição é privilegiada para vermos Raikkonen. Está feliz, como vimos, por Boullier atender a todos os seus pedidos. Quinta-feira, na Bélgica, sabia que teria de responder perguntas sobre o seu futuro, na coletiva de imprensa. Como não suporta o contato com os jornalistas, mandou avisar Boullier que não estava interessado e, portanto, não iria. Não foi sequer contestado. Os jornalistas que esperavam foram informados e voltaram ao paddock.

O assessor de imprensa de Raikkonen na Lotus, Andy Stobart, tem orientação para não intervir nas conversas de Raikkonen. Mantém-se à distância. O finlandês responde o que deseja. É profissional o suficiente para evitar grandes polêmicas capazes de atingir a imagem das empresas que investem na Lotus.

Fim do primeiro ato

Raikkonen pode voltar para o camarim. Tem dez minutos para trocar a camisa e o boné negros da Lotus pela camisa e o boné vermelhos da Ferrari.

Já o chamamos de volta. Está, agora, frente a frente com o diretor da Ferrari, Domenicali, também no palco.

O italiano começa a lembrá-lo que aquela disciplina ferrenha de 2007, 2008 e 2009 não mudou. A Ferrari produz e vende carros de alta performance, tudo a ver com a imagem de um piloto de sucesso como Raikkonen. Portanto, a agenda de eventos promocionais da marca e das empresas que investem na escuderia, como banco Santader, Shell, UPS, principalmente, será extensa.

Todos viram Raikkonen torcer o nariz.

A temporada de 2014 será histórica. Haverá uma mudança conceitual. A forma de encarar as corridas, por parte dos pilotos e das escuderias, será distinta. É tudo por ser aprendido, ainda. “Já estamos treinando horas e horas no simulador e assim que tivermos uma definição do atual campeonato nos concentraremos ainda mais. Nossos pilotos vão ter de aprender o básico no simulador a respeito de como vão competir em 2014. Nosso programa é extensíssimo”, disse Domenicali, ao Estado, no Canadá.

Todos viram Raikkonen torcer o nariz.

A Ferrari convoca seus pilotos, por vezes, para ir a Maranello, com o objetivo de discutir com o grupo de projeto questões relativas ao desenvolvimento do carro. Domenicali lembra Raikkonen de que não há como estabelecer uma agenda para Fernando Alonso e outra para ele. Os dois terão de acatar as deliberações da área técnica e de marketing.

Domenicali segue o script da Ferrari e entrega ao recém-contratado um livro. Na realidade uma cartilha, não muito diversa da adotada há muitos anos por várias escolas, Caminho Suave. Na versão da Ferrari há na capa um estudante diante de um computador. É a última, mais moderna, para combinar com a Fórmula 1. Raikkonen terá inúmeras lições de casa.

A principal será ler as perguntas relacionadas, as mais esperadas que a imprensa irá lhe fazer, e estudar atenciosamente as respostas redigidas no texto. Na hora de responder, quando estiver diante dos jornalistas, terá de ser o mais fiel possível às palavras da cartilha, escolhidas a dedo, para passar a imagem do politicamente correto.

Qualquer respiro de espontaneidade deve ser reprimido vigorosamente. Será aconselhado a olhar para a expressão do novo assessor de imprensa que vai sempre estar com ele, a fim de orientá-lo se necessário no caso de dúvidas sobre o que dizer. Não há impedimento de pedir um tempo a quem fez a pergunta, cochichar com o assessor e em seguida, sorrindo, lógico, dar a resposta.

Todos viram Raikkonen torcer o nariz.

Os atores recebem as palmas da plateia e são liberados. As pessoas presentes, se desejaram, podem participar de um debate, a seguir. Tema: Raikkonen, sob regime de disciplina severa, como na Ferrari, e uma agenda de compromissos de toda natureza, a ponto de sua vida pessoal, tão importante para ele, ter de ser quase abandonada, se comparada à de hoje, vai funcionar como na Lotus?

Senhores, esqueci de dizer. Vocês são a plateia. Viram Raikkonen no palco com as cores da Lotus e da Ferrari. O que acham? Sob o novo regime poderá produzir tudo o que faz na Lotus e gerou sua volta a Ferrari?

O debate começou. A palavra está com vocês. É só levantar a mão e opinar, o que equivale a dizer comentar no blog.

Abraços!

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