Notas dos pilotos no GP de Cingapura

liviooricchio

25 de setembro de 2013 | 18h13

25/IX/13
Nice

Olá amigos. Escrevo de Nice, onde passarei esta semana antes de embarcar, terça-feira, de volta à Asia, para cobrir as corridas da Coreia e do Japão. Vamos, agora, às notas dos pilotos no GP de Cingapura. Como sempre, não levo em conta apenas as duas horas da corrida, mas o trabalho ao longo de todo o fim de semana. Assisto aos treinos livres, à classificação e à corrida com extrema atenção. Quais seriam a suas notas e por quê?

Sebastian Vettel – 10

Dá para querer mais desse extraordinário piloto? Ok, dispôs no circuito Marina Bay, como vem acontecendo desde a prova da Bélgica, de um carro impressionantemente rápido e equilibrado. Estabeleceu as últimas três poles e venceu os três últimos Gps. Não vale dizer que é o RB9-Renault de Adrian Newey que vence. Mark Webber tem o mesmo equipamento. Não há diferença alguma, como alguns pensam.

Se a imagem da Red Bull fosse a que Webber passa seria bem distinta da supereficiência evidenciada pelo trabalho de Vettel. Não cometeu o mais leve equívoco o tempo todo. E andou rápido. Podem acreditar. Está muito perto de garantir o quarto título seguido. E como sempre sem que haja a menor controvérsia ou questionamento sobre o mérito da conquista. Explora toda a potencialidade dos projetos notáveis de Newey com sabedoria e talento. Um verdadeiro supercampeão!

Fernando Alonso – 9

Mesmo Vettel não seria capaz de levar esse carro da Ferrari da sétima colocação no grid ao segundo lugar na corrida, como fez Alonso em Cingapura. Esse não é o forte do alemão. Mas é o de Alonso. Em compensação, a sessão de classificação que da mesma forma não representa onde o espanhol melhor se expressa é o caso de Vettel, dentre outras virtudes, claro. Na definição do grid o espanhol ficou atrás de Massa. Porém ao longo das 61 voltas foi, como sempre, arrojado, veloz, preciso, inteligente, dotado de uma visão de corrida bastante rara.

A ideia de não fazer o terceiro pit stop, decidida em conjunto com seu engenheiro, Andrea Stella, autor da sugestão, era bastante arriscada. Apenas Alonso e Kimi Raikkonen conseguiram explorá-la muito bem e isso tem a ver, com certeza, à maneira como conduziram associada às caracaterísticas de seus monopostos.

Não foi à toa que Martin Whitmarsh, diretor da McLaren, lançou um balão de ensaio, sábado, para ver qual seria a reação do espanhol ao ouvir que gostaria de tê-lo de volta. Alonso fora do cockpit é um dos pilotos mais difíceis de serem administrados. Dentro, certamente o mais competente. Representa a garantia de resultado. Mesmo com um carro deficiente, se comparado, por exemplo, ao da Red Bull.

Kimi Raikkonen – 10

A 13.ª colocação, sábado, decorreu de não poder exigir tudo de si. Sentia dores nas costas. Dá para imaginar o que significa tocar nas zebras do circuito de Cingapura com violência, como tem de ser, para vir tempo, tendo problemas nas costas. Nem todos sabem, mas entre o coccix, a porção mais baixa da coluna vertebral, e o asfalto há apenas raros centímetros. Os impactos são bem sentidos pelo piloto.

Raikkonen saiu da sétima fila, perdeu tempo considerável atrás de um piloto mais lento, o combativo Jenson Button, da McLaren, e o ultrapassou brilhantemente, por fora, na curva 8, na 54.ª volta, sem comprometer a trajetória do adversário, pois joga sempre limpo, para assumir o terceiro lugar. No fim, gerenciou o consumo dos pneus com a maestria demonstrada desde o surpreendente retorno à Fórmula 1, no ano passado, que lhe rendeu em Cingapura o pódio. Sem o tempo perdido atrás de Button provavelmente lutaria com Alonso pelo segundo lugar. Seus pneus estavam em melhores condições.

A Lotus vai perder seu principal elemento de performance, Raikkonen. E irá sentir. Como também deverá acusar o golpe da perda de sua coluna dorsal na área de engenharia: James Allisson, diretor técnico, e Dirk de Beer, aerodinamicista, ambos contratados pela Ferrari. Mark Slade, engenheiro de Raikkonen, desde os tempos de McLaren, deverá também substituir Rob Smedley, engenheiro de Massa, na Ferrari, para seguir com o finlandês.

Nico Rosberg – 8

Anda sempre muito bem nos 5.073 metros do traçado de Marina Bay. Na largada, torci para contornar a primeira curva na frente de Vettel. Não que isso pudesse representar qualquer desafio maior para o alemão da Red Bull pois, no máximo, no primeiro pit stop, o ultrapassaria. Mas Rosberg atrasou demais a freada da curva 1 e foi obrigado a alargar, o que deu a chance de Vettel ultrapassá-lo e impor desde a primeira volta o seu ritmo aluciante de corrida.

Rosberg foi sempre mais eficiente que o piloto que coloco ao lado de Vettel, Alonso e Raikkonen como os mais capazes da Fórmula 1, Lewis Hamilton, vencedor da prova em 2009. Rosberg não deixou dúvida de que no GP de Cingapura foi melhor. E em parte importante da prova um pedaço de borracha, dos muitos existentes na pista, se alojou entre o corpo principal do aerofólio dianteiro e a primeira série de flaps, reduzindo sua capacidade de gerar pressão aerodinâmica.

Não é à toa que quando perguntaram a Hamilton que diferença via entre a relação de hoje com Rosberg na Fórmula 1 e a que foram também companheiros de equipe, no kart, na Fórmula A, em 2000, e Super A, em 2001, o inglês campeão do mundo de 2008 respondeu: “Hoje Nico é bem mais difícil de ser vencido”.

Lewis Hamilton – 6

Não foi o mesmo piloto velocíssimo de sempre, desde a primeira volta, quer seja no treino livre, de classificação ou na corrida. Assumiu não ter produzido tudo o que poderia. É raro. Ainda que seu equipamento não corresponda, a exemplo de Alonso chama para si a responsabilidade de tirar o que o monoposto tem e não tem.

Diferentemente de Alonso e Raikkonen, o piloto da Mercedes não fez o segundo pit stop na 25.ª volta, quando o safety car estava na pista. Rosberg também não. Hamilton e Rosberg sabiam que teriam de realizar mais uma parada. Alonso e Raikkonen arriscaram permanecer sem uma parada extra, seriam 36 desgastantes voltas pela frente com os pneus médios da Pirelli. Valia a pena aproveitar a presença do safety car.

Hamilton Rosberg não conseguiriam e fizeram o segundo pit stop nas voltas 43 e 41, quando o safety car não mais neutralizava a competição. Desta vez Hamilton não inventou nada. Ficou em quinto lugar e com uma nota abaixo de sua média, sempre muito alta.

Felipe Massa – 6

Ótima classificação. Muito boa largada. Está correndo com segurança, novamente. Para ser rápido em Cingapura deve-se passar muito próximo aos muros. Se passar a 10 centímetros dele estará lento. Essa diferença é muito sutil no Marina Bay, como em Mônaco. E Massa ficou na frente de um piloto como Alonso. Mas aí veio a corrida.

O número de vezes que ele e seu engenheiro, Rob Smedley, mais adotam estratégia que depois verifica-se não foram as melhores é bem maior que as ocasiões em que acertam em cheio e ambos conquistam resultados de grande expressão. Massa e Smedley apostaram que os pneus médios da Pirelli não suportariam as 36 voltas até a bandeirada, depois do segundo pit stop, na 25.ª volta, com o safety car, e escolheram os pneus supermacios em vez dos macios.

Obviamente tiveram de parar de novo, desta vez na 42,ª volta. Massa alegou que apenas Alonso e Raikkonen se deram bem naquela estratégia de tentar ir até o fim com os médios. Os demais, como Button, Perez e Hulkenberg foram ficando no meio do caminho.

Mas me pergunto por que quase nunca as apostas de Massa e Smedley são as vencedoras? É provável que Massa também levasse a Ferrari sem o terceiro pit stop pois, na média, preserva os pneus um pouco mais de Alonso. Nessas horas percebe-se melhor a diferença entre um grande campeão e um bom piloto. Massa largou em sexto e chegou em sexto. Alonso saiu de sétimo no grid e foi segundo.

Jenson Button – 7

Como Alonso e Raikkonen, o inglês campeão do mundo de 2009 substituiu os pneus supermacios pelos médios, na 25.ª volta, a do safety car, e tentou ir até a bandeirada, na 61.ª. Antes da hora, porém, os pneus acabam. Mas Button foi combativo, agiu com a tradicional lisura que o caracteriza, manteve atrás de si com competência Raikkonen, bem mais rápido, e com o carro que tem havia mesmo de inventar alguma coisa. Não havia nada a perder. E conseguiu o sétimo lugar. Depois de largar em oitavo.

Sergio Perez – 6

Disputou uma má classificação, ao não ir além do 14.º tempo. Por mais atenuantes que existam para as deficiências do carro da McLaren, Button foi oitavo. E o mexicano sempre diz que o companheiro é a referência para julgar seu trabalho. O melhor acerto do carro é também responsabilidade do piloto. Perez recuperou-se bem na largada ao terminar a primeira volta em décimo. Fez uma aposta, como Button, de tentar ir até o fim com o jogo de pneus médios do pit stop da volta 25. A Lotus e a Ferrari são capazes, dependendo da pilotagem, a McLaren, não, mesmo Perez sendo muito capaz nesse aspecto. Cruzou a 466 milésimos de Button.

Nico Hulkenberg – 7

Outro grande trabalho desse muito bom piloto alemão, que tanto aprecio e gostaria de ver numa equipe melhor das que andou até hoje. Disputa com Massa a vaga de Raikkonen na Lotus. Se é que a Lotus será uma escuderia eficiente como nos dois últimos anos depois da perda de técnicos importantes. Sua gana ficou evidente quando a Sauber lhe orientou a devolver a posição para Sergio Perez, logo no início, por ultrapassá-lo cortando a pista: “What?”, gritou o alemão no rádio.

Tenho amigos na Sauber, voo sempre com a Swiss, assim como eles na maioria dos Gps. Compartilhamos as salas da companhia nos aeroportos, almoço muitas vezes no motorhome da Sauber com o meu amigo o engenheiro Gianpaolo Dall’Ara. O time respeita muito Hulkenberg, ainda que o veja menos aberto a ouvir os técnicos que, curiosamente, Perez, com que trabalharam em 2011 e 2012. Mas voltando ao GP de Cingapura, o nono lugar com o carro que dispõe é uma prova da eficiência de Hulkenberg.

Adrian Sutil – 6

Nada menos de 21 pilotos largaram com os pneus supermacios. Um, apenas, com os médios: Sutil. Sua estratégia apareceria, mesmo, apenas no fim, como aconteceu. Largou em 15.º e marcou um ponto com o décimo lugar. Era o máximo possível. A Force India foi o time que mais perdeu com a mudança dos pneus, a partir do GP da Bélgica, uma necessidade da Pirelli para a segurança da Fórmula 1. E em Monza, quando a equipe viu que não havia mais o que fazer assumiu que seus esforços, agora, estão concentrados no modelo de 2014.

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