Notas dos pilotos pela temporada

liviooricchio

30 de novembro de 2012 | 18h41

30/XI/12

Livio Oricchio, de São Paulo

Olá amigos!

Antes de sair de férias, penso ser oportuno falarmos sobre a temporada de cada piloto e equipe. Coloco a minha visão e vocês a sua, combinado? Construí a minha estando presente da etapa de abertura, na Austrália, à de Monza, 13.ª do campeonato, e depois no GP do Brasil. As provas de Cingapura, Japão, Coreia do Sul, Índia, Abu Dabi e Estados Unidos acompanhei pela TV, na França e aqui no Brasil.

Foi a primeira vez, em 22 anos, que não fui a seis etapas seguidas do calendário. E a razão de estar em São Paulo desde a segunda quinzena de outubro é evitar que em 2013 ocorra o mesmo. Em janeiro estarei de volta à Europa.

Sebastian Vettel

Faz sentido começar pelo campeão do mundo. Vettel respondeu uma pergunta que muitos se faziam, mesmo dentro da Fórmula 1: como seria sua temporada sem largar na pole position na maioria das corridas, como foi em 2011? Que esse notável alemão de apenas 25 anos é capaz como quase nenhum outro piloto de largar na frente e, dispondo de um bom carro, dominar a competição já sabíamos. Havia dúvidas quanto a sua capacidade de progredir na classificação das provas com um carro eficiente, como o seu, porém sem ser muito superior ao da concorrência, a exemplo do ano passado.

Como ele mesmo disse, recentemente: “Quem dizia que eu não sei correr largando lá atrás tem de, agora, depois das corridas em Austin e São Paulo, mudar de opinião”. Vettel mostrou-se capaz, inquestionável. Importante: mas também ficou evidente até a metade do campeonato que não é nessas condições que expressa o seu melhor. A Red Bull não tinha um monoposto excepcional, haja vista que Vettel estabeleceu até o GP da Alemanha, décimo do ano, apenas três pole positions.

Depois do GP da Grã-Bretanha, por exemplo, nono do Mundial, Vettel ocupava o terceiro lugar, com 100 pontos, e até seu companheiro de equipe, Mark Webber, estava na sua frente, segundo, com 116 pontos.

Vettel pôde expor os seus melhores dotes mesmo a partir do GP de Cingapura, quando Adrian Newey apresentou uma nova versão do modelo RB8-Renault. Perguntei pessoalmente a Vettel, em Interlagos, o porquê da diferença no seu desempenho entre antes e depois de Cingapura. Não, por favor, que até aquela etapa Vettel não estive bem. Apenas que seus números não impressionavam.

Depois do GP da Itália, anterior ao de Cingapura, Vettel ocupava o quarto lugar no campeonato, com 140 pontos. Webber, o quinto, 132. Estavam a sua frente Kimi Raikkonen, da Lotus, 141, Lewis Hamilton, McLaren, 142, e Fernando Alonso, Ferrari, 179.

“Trabalhamos muito para tornar nosso carro mais de acordo como gosto de pilotar. No começo tivemos várias dificuldades nesse sentido, não me sentia à vontade como aconteceu a partir de Cingapura” respondeu Vettel. Isso mostra que se tiver de lutar com o monoposto, ele não reagir a sua forma precisa e velocíssima de conduzir, a diferença para Webber não é grande. E, claro, para outros concorrentes.

Tudo mudou quando Vettel passou a dispor de um carro bastante afinado com seu estilo. Nessa condição, tenho dúvida se até mesmo outros dois pilotos excepcionais da Fórmula 1, Fernando Alonso e Lewis Hamilton, seriam capazes de repetir as proezas de Vettel.

A partir do GP de Cingapura, Vettel ganhou quatro vezes seguidas, foi terceiro em Abu Dabi e segundo em Austin. Sendo que no GP dos EUA largou dos boxes. No Brasil terminou em sexto, depois de cair para último na primeira volta.

Para resumir, vimos este ano Vettel crescendo nas corridas, mesmo sem um grande carro na mão, mas sem ser excepcional. E esse sempre acessível, simpático e sincero jovem alemão ratificou a condição de piloto fantástico quando tem um monoposto que reaja de acordo com seus desejos.

Tem grande mérito na evolução da Red Bull, no trabalho de Newey para desenvolver a versão vencedora do RB8 que estreou em Cingapura. A nota de Vettel não pode ser outra: 10.

Fernando Alonso

Sabe uma das coisas que me impressiona na torcida, em especial a brasileira? Como parte dela não reconhece as enormes qualidades técnicas de Alonso. O espanhol paga altíssimo preço por precisar ver a equipe gravitar ao seu redor para produzir o máximo. Por concordar com decisões como a da Ferrari em Austin, ou quem sabe inspirá-la, que tirou Massa da sua posição no grid para favorecê-lo. Tudo isso é um fato. Está aí para todo mundo ver. Do ponto de vista esportivo é abominável. Sob o prisma da cobrança implacável da Fórmula 1, porém, compreensível, considerando-se que Massa não tinha chances de ser campeão.

Esse é um Alonso. Outro é o da velocidade extraordinária, da capacidade de ler a corrida, reagir com precisão a cada nova condição da prova, da liderança dentro da escuderia, como estimula todos a darem o máximo o tempo todo, como ele faz. Esse conjunto de virtudes raras em um piloto não pode ser apagada por sua filosofia mesquinha de querer ser o centro do universo.

Alonso disputou, este ano, a melhor temporada da carreira, mesmo sem ter sido campeão, como em 2005 e 2006. Com um carro inferior ao da Red Bull e da McLaren na maioria das etapas, chegou a Interlagos com chances de conquistar o título. E não foi por pouco. Por si só esse é o seu grande mérito este ano.

Enquanto Vettel, Raikkonen, Hamilton, Button, Webber vez por outra não obtinham o máximo possível, Alonso era capaz. Foi isso que o fez liderar o Mundial. Sua constância num nível elevadíssimo diante de os concorrentes não fazerem, sempre, o mesmo.

Senhores, quem viu o carro da Ferrari de perto, nas pistas, em Melbourne, Sepang, Xangai e Sakhir não poderia imaginar ser possível a seu piloto disputar o título. O grupo coordenado por Nikolas Tombazis realizou trabalho grandioso no modelo F2012, porém muito influenciado por Alonso, como fez Vettel com Newey para desenvolver o RB8 da Red Bull.

O desempenho de Alonso, este ano, me lembrou muito, como já escrevi aqui, o de Ayrton Senna, em 1993, que também acompanhei de perto. Com equipamento inferior ao dos adversários, provaram que o piloto ainda conta muito na Fórmula 1. A nota de Alonso é 10. Com louvor.

Kimi Raikkonen

Em primeiro lugar gostaria de expressar minha surpresa com seu campeonato. A exemplo de muitos profissionais da Fórmula 1, não acreditava que esse finlandês “de coração mole”, como me disse sua mãe, Paula, em Espoo, onde vive, em completa oposição à imagem de Iceman que tem, pudesse retornar de forma tão eficiente. Foi o único piloto que recebeu a bandeirada nas 20 etapas do calendário e marcou pontos em impressionantes 19 delas.

Veloz, constante ao extremo, adaptou-se à Fórmula 1 deste ano rapidamente, bem distinta da que deixou, em 2009. Naquela época os pneus da Bridgestone se comportavam de maneira diferente em relação aos Pirelli de hoje e não existia o flap móvel (DRS), por exemplo.

Muito do crescimento da Lotus tem a ver com a qualidade do trabalho de Raikkonen. Um piloto como ele faz o grupo inteiro crescer. Nada menos de sete pódios, sendo uma vitória, em Abu Dabi, refletem com precisão o que fez este ano. Melhor ainda: permite à Lotus esperar ainda mais de 2013. Raikkonen é o piloto que toda escuderia gostaria de ter: além de todas as virtudes, não cria problema com absolutamente nada. Nota óbvia do campeão do mundo de 2007 este ano: 10.

Lewis Hamilton

O que mais me deixou feliz, este ano, com relação a Hamilton foi compreender, já em Melbourne, que voltara a ser o menino de 2010 para trás. Amigos, em 2011, parecia viver em outro universo de valores. Quem somos nós para fazer julgamentos dessa natureza, mas estava claro para todos, na Fórmula 1, como aquele Hamilton era o resultado da interferência de cidadãos inescrupulosos que o iludiram com esse discurso de “espiritualidade”.

O que desejavam mesmo era seu dinheiro. Felizmente a verdadeira espiritualidade venceu e Hamilton deixou aquele bando de interesseiros capazes de qualquer coisa por conta de seus interesses exclusivamente materiais.

Hamilton voltou com aquela gana que o caracteriza, exposta já na primeira volta no primeiro treino livre de um GP. E como pilota. Tira o que o carro tem e não tem. Está quase sempre acima do equipamento. Mas a exemplo do ano da estreia na Fórmula 1, em 2007, vez por outra comete alguns erros de avaliação que impressionam, em especial por ser capaz, ao mesmo tempo, de proezas nas pistas. Ganhou quatro corridas.

Se a McLaren não tivesse se perdido entre as etapas de Bahrein, quarta do ano, e Grã-Bretanha, nona, no desafio de melhor utilizar os pneus Pirelli, bem como não apresentasse tantos problemas de confiabilidade no carro, acredito que Hamilton estaria em condições de lutar pelo título nas provas finais. E se fosse campeão seria da mesma forma merecido.

A McLaren vai entender melhor o que perdeu, ao não fazer todos os esforços para renovar o contrato de Hamilton, no começo do ano que vem. E a Mercedes vai compreender o que ganhou já nos testes de inverno. Nota de Hamilton: 9

Nossa, conversamos apenas sobre quatro pilotos e olha a dimensão do texto. Façamos o seguinte: na próxima semana, redijo o restante, combinado?

Grande abraço!

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