O ataque a Kovalainen foi a defesa de Briatore

liviooricchio

22 de março de 2007 | 20h13

“Faz sentido, foi ele que o escolheu.” Essa foi a frase que ouvi de uma fonte da área técnica da Renault, ainda em Melbourne, depois de as pessoas no paddock comentarem as duras críticas de Flavio Briatore a Heikki Kovalainen. Exemplo: “Na Malásia correrá o verdadeiro Kovalainen, o que correu aqui era falso.” Ou: “Esteve horrível, errou demais.”

Hoje o piloto finlandês se defendeu, ao dizer: “Briatore não mediu as palavras, tanto em público como entre nós. Considero normal. Todos ficaram decepcionados (com a estréia da equipe bicampeã do mundo). Não esperava que ninguém viesse me dizer bom trabalho ou faz parte do aprendizado.”

Desmentiu os que afirmam que a experiência da estréia foi valiosa. “Não aprendi muito no fim de semana, não há tanto assim por extrair. Tenho certeza de poder fazer bem mais. A minha autoconfiança não se abalou.”

O comentário do integrante da Renault é revelador. Briatore contratou Kovalainen depois de ter sido campeão da World Series, em 2004, e vice-campeão da GP2, na temporada seguinte. Submeteu o veloz jovem finlandês a 25 mil quilômetros de testes, entre 2006 e o início deste ano antes de permitir sua estréia como titular.

Quando Fernando Alonso comunicou a Briatore, em novembro de 2005, que iria competir pela McLaren a partir deste ano, o italiano levou um choque. Creio que foi em Ímola, se não erro, numa conversa informal com jornalistas, como sempre faz, confessou não esperar a saída de Alonso. “Me pegou totalmente de surpresa, àquela altura, Alonso assinar com a McLaren.” O espanhol teria o campeonato de 2006, ainda, pela Renault.

Briatore repetiu com Kovalainen a receita de Alonso. Um ano de grandes aprendizados como piloto de testes e, depois, a condição de titular. Como nos treinos o finlandês sempre mostrou-se extremamente veloz, ao repetir e até melhorar as marcas de Alonso e Giancarlo Fisichella, o dirigente passou a defender junto ao então presidente da Renault Sports, Patrick Faure, e o presidente da Equipe de Fórmula 1, Alain Dassas, a confirmação de Kovalainen como substituto de Alonso.

Para ficar bem claro: Briatore é funcionário da Renault, no cargo de diretor da equipe de Fórmula 1. Recebe salário. Ainda que suas maiores fontes de renda sejam as comissões dos pilotos da Renault e de outras escuderias, por gerenciar suas carreiras, e dos patrocinadores que leva para o time.

Dassas dá carta branca a Briatore, mas um não dele é definitivo. O italiano lhe falou maravilhas do finlandês. Acredito que lhe dissesse o que sempre falou para nós, nesses bate papos informais: “Alonso é um grande piloto, sem dúvida, mas não sentiremos sua falta. Kovalainen tem demonstrado ser um talento nato e está aprendendo muito conosco.”

Agora imagine esse piloto que teve em Briatore seu maior defensor dentro da equipe chegar na hora H, seu GP de estréia, e frustrar a todos. Não foi bem na classificação, sábado, o seu forte, e na corrida saiu da pista, rodou e sequer mostrou a mesma velocidade do companheiro de Renault, o modestíssimo Fisichella. quinto colocado, a 66 segundos e 469 milésimos de Kimi Raikkonen, o vencedor.

Para se ter um leve parâmetro de performance entre os dois pilotos da Renault: a diferença de tempo entre as melhores voltas de ambos foi de precisos 700 milésimos de segundo. Na 18ª passagem do GP da Austrália Fisichella fez 1min26s892, enquanto Kovalainen, na 44ª, registrou 1min27s592, suas melhores voltas.

O ataque a Kovalainen foi a defesa de Briatore. Voltemos à frase da minha fonte, lá do início: “Faz sentido, foi ele que o escolheu.” A reação de Briatore não deixa de revelar aquilo que ele nunca escondeu: “Eu não entendo de Fórmula 1.” Eu o admiro por isso. “Assisti ao meu primeiro GP em 1989. Antes disso nunca havia estado num autódromo”, costuma contar o polêmico diretor.

O seu grande mérito é exercer uma liderança inconteste, carência maior em equipes como Toyota e Honda, contratar profissionais capazes, nada de figurões – mandou o “não me toque” John Barnard embora, não sem antes brigar com ele – e delibera responsabilidades. Cobra, a seguir, resultados.

Dentro do time, sabe como tirar o máximo de cada um. Fora das dependências da fábrica e dos boxes nem tanto, como agora com Kovalainen. Para se defender, colocou sobre o jovem piloto de 25 anos, com apenas um GP de experiência, pressão ainda maior da já existente.

Vi o finlandês no paddock do circuito Albert Park, bom tempo depois da corrida, sentado ao lado de seus pais, curiosamente já idosos. Sua expressão não escondia o profundo desgaste vivido em Melbourne, mais por ouvir de Briatore, na cara, que teve uma participação ridícula, assim como dos jornalistas que o questionavam sobre a postura do chefe, do que pelos desgastes de não corresponder ao que ele próprio esperava de si.

Mesmo sentindo-se na situação de ter de dar uma satisfação por defender fervorosamente Kovalainen, Briatore deveria ter tido o bom senso de que jogar na fogueira um piloto que fazia apenas a sua estréia na sempre difícil Fórmula 1, apenas para tentar reduzir sua responsabilidade, como se fosse possível, é lançar sobre o finlandês uma espécie de vai ou racha. Se na Malásia, dia 8, não conquistar um resultado convincente, o próprio Briatore sofrerá ainda mais desgastes. Afinal a escolha foi sua.

Tentar explicar-se menos teria sido mais inteligente. As chances de Kovalainen compreender as razões de sua desastrosa estréia e, na corrida de Sepang, sem as imensas tensões da primeira experiência, responder com melhor performance seriam bem maiores. O próprio Briatore seria beneficiado. Diante das críticas desmedidas, não sei se terá clareza de raciocínio para analisar seus vários erros.

Verdade, a performance ruim de Kovalainen foi brutalmente amplificada pelo excepcional desempenho do também estreante Lewis Hamilton, na McLaren. Se o inglês não tivesse sido tão brilhante, o trabalho do finlandês receberia avaliações como “parte do aprendizado.” O problema maior é que Hamilton já chegou sabendo.

Abraços!

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