O carro do Barão parou nos boxes. Mas a corrida continua.

liviooricchio

11 de março de 2013 | 18h08

11/III/13
Zurique, Suíça

Amigos, os passageiros já estão embarcando no voo 180 da Swiss com destino a Bangcok. Serei breve. Que perda a do Barão. Mas na realidade sua obra segue em frente, agora com o bisneto, Pietro. Fiquei triste hoje.

Muito obrigado pelo profundo apreço pelo post da pré-temporada demontrado nos comentários. Sensibilizado.

O texto a seguir redigi na correria. Perdoem os erros. Devem ter passado. Conheci melhor o Barão quando fui trabalhar na Joven Pan, como repórter e comentarista de Fórmula 1, acompanhando o campeonato, o meu primeiro completo. O Barão não estava mais lá, mas nas ocasiões em que nos encontramos desenvolvemos uma relação de proximidade. Ele sabia da minha paixão pelo automobilismo.

Em 2005 passei dois dias no Rio de Janeiro com ele e a dona Suze, também de idade avançada. O Wilsinho também estava lá. Almoçamos, jantamos, passeamos. Eu recolhi depoimentos longos, deliciosos, sobre sua incrível trajetória pioneira. Um pouco do que o Barão me repassou está no texto a seguir, mas em maior escala no livro que produzi e redigo para celebrar os 50 anos do evento que ele criou, as Mil Milhas Brasileiras.

Acompanhe a a seguir a importância do Barão para o automobilismo brasileiro. Nos falamos, agora, de Bangcok, antes que eu perca o voo.

Abraços!

O texto:

Emerson Fittipaldi é um pioneiro. Ninguém questiona. Foi o primeiro piloto brasileiro a vencer uma etapa do Campeonato de Fórmula 1, em 1970, e a conquistar o Mundial, em 1972. Mais: o primeiro a ser campeão na Fórmula Indy, em 1989, e a celebrar duas vitórias na corrida mais famosa do mundo, as 500 Milhas de Indianápolis, em 1989 e 1993.

Mas o que nem todos sabem é que esse caráter de pionerismo faz parte do patrimônio genético de Emerson. E nesse sentido nenhuma obra teve a importância para o automobilismo da deixada por seu pai, o radialista, promotor e empresário Wilson Fittipaldi, carinhosamente conhecido com o Barão, falecido ontem, no Rio de Janeiro, aos 92 anos de idade. “Posso ter passado o amor pelo velocidade aos meus filhos, mas não o talento”, afirmou o Barão, em entrevista ao Estado, em 2005.

Em 1940 a construtora Auto Estrada S/A construiu o autódromo de Interlagos. Na realidade, mal asfaltou um circuito brilhantemente concebido pelo engenheiro britânico Louis Romero Sanson, numa remota área de sua propriedade, distante do núcleo urbano de São Paulo. “Eu ai lá narrar as corridas para a rádio Excelsior, onde trabalhava”, contou o Barão. O então proprietário da Rádio Panamerica, Paulo Machado de Carvalho, no fim de 1946, foi pessoalmente à concorrente Rádio Excelsior agradecer aquele jovem de 26 anos, radialista apaixonado por automobilismo.

“Eu conhecia o dono de um restaurante próximo que me emprestou a linha telefônica para transmitir a corrida. Os outros não conheciam direito as dificuldades de Interlagos”, contou o Barão, já bastante ativo na busca de patrocinadores para viabilizar seu trabalho. Por sua iniciativa, as rádios Panamericana e Record transmitiram em rede. Mas Carvalho tinha mais a dizer ao Barão: convidou-o para se transferir para a Rádio Panamericana. Não é tudo, teria um programa de automobilismo, diário, Esportes e Motor, para começar das 20h30 às 20h45. A relação entre o Barão e a Rádio Panamericana deu tão certo que a deixou apenas em 1980.

Foi o Barão o primeiro radialista a transmitir um Grand Prix do exterior. Chico Landi havia vendido o GP de Bari de 1948, com Ferrari, marca criada um ano antes pelo mais tarde Comendador Enzo Anselmo Ferrari. E a repercussão foi tão grande que Carvalho enviou o Barão para lá no ano seguinte. “Eu levava dois gravadores imensos, impensáveis para os dias de hoje”, lembrou o Barão, rindo. “E usava ternos de linho que para o verão eurpeu me fizeram sofrer o tempo todo. Mas tudo era novidade para mim, estava tão entusiasmado que, na realidade, não me perturbava tanto.” Desta vez a Ferrari de Chico teve um problema e ele não terminou a prova.

Logo depois, a visão e o pioneirismo do Barão foram decisivos para o Brasil conquistar tanto sucesso nas pista no mundo todo durante décadas. “Em 1952, a Auto Estrada estava cansada de não ganhar nada com o investimento em Interlagos e loteu a área de um milhão de metros quadrados”, disse. “Consegui me infiltrar na Secretaria de Esportes, o que ajudou a Prefeitura adquirir o autódromo e salvá-lo. “Para chegar lá cruzávamos uma ponte de madeira, sobre o rio Pinheiros, onde passava um carro de cada vez. E era comum o piloto parar no box para reclamar da presença de um cavalo no meio da pista.”

Foi em 1956 que Emerson se deixou contaminar de vez pelo que o pai fazia, ao dar uma volta como passageiro numa das carreteras que se deslocaram do Rio Grande do Sul para Interlagos. “Na viagem para cobrir a corrida do Chico eu assitir à largada da Mille Miglie, em Brescia, e disse a mim mesmo que promoveria algo semelhante no Brasil, mas em vez de ser pelas estradas do País, na Itália, seria em Interlagos, as Mil Milhas Brasileiras.” A chance para Emerson sentir a aproximação da curva 3, no fim do Retão, a 200 km/h, era aquela. “Lembro como se fosse hoje”, comentou Emerson, numa entrevista para o livro sobre os 50 anos das Mil Milhas, promovida e organizada pelo seu pai. A competição viria a ser a mais tradicional do calendário brasileiro.

O direito esportivo das corridas pertencia ao Automóvel Clube do Brasil, com sede no Rio de Janeiro, capital do Brasil. “Havia de tudo naquele clube. Todos estavam saturados dos desmandos e da sua ineficiência. Tínhamos de pagar altas taxas para ter nada em troca”, falou ao Estado o Barão. “Um grupo de abnegados começou a trabalhar para mostrar para a FIA que precisávamos outra entidade para cuidar do automobilismo.”

O Barão e o publicitário Mauro Salles, dentre outros, foram os responsáveis pela criação da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) e convencer a FIA que o melhor para o Brasil seria transferir os direitos do Automóvel Clube para a CBA, no inicio dos anos 60. “Foi uma batalha duríssima, mas conseguimos”, comentou o Barão.

Nesse período, o Barão acelerava suas motos. Contou uma história impressionante. “Em 1965 promovi com a Rádio Panamericana, em Interlagos, as 24 Horas de Moto. Corri com uma BMW 600. Ás 23h30 eu assumi a moto. Tinha comigo uma enorme caixa com um microfone para repassar a sensação do piloto aos ouvinte, olha a loucura.No fim da primeira volta parei nos boxes porque era impossível pilotar.”

Um acidente passaria a caracterizar o número 7 à família Fittipaldi. “Entrei no Retão e deparei com um moto 125, lentíssima na minha frente. A essa altura eu disputava a posição com um japonês que tinha uma moto 1000. Quando vimos a moto lenta, do português, cada um foi para um lado. E, claro, caímos. Como resultado, eu fiquei um mês no hospital, por ter concussão cerebral, fratura de clavícula e costelas. Um mês no hospital.” o Barão corria com o número 7. Sobreviver a acidente tão sério não podia ser obra do acaso. “O número 7 pode ter ajudado”, afirmou.

Seu pioneirismo se estendeu um pouco mais tarde a ser o primeiro a transmitir de forma regular as corridas de Fórmula 1, no começo nos anos 70. Sempre pela Rádio Panamericana. E em 1972, aquele gene ativo repassado ao filho mais jovem manifestou-se na plenitude ao levá-lo a celebrar o primeiro título mundial, com vitória, pela Lotus, em Monza. “Larguei tudo e saí correndo para abraçá-lo”, declarou, emocionado, o Barão, como carregados de emoção estão os que apreciam automobilismo no País, agora, sem o espírito tenaz de vanguarda de seu maior pioneiro.

A parada do Barão nos boxes para não voltar mais às pistas não significa, contudo, que seu patrimônio genético não esteja fazendo mais “vítimas” do seu amor pela velocidade. Além dos filhos Emerson e Wilson tornaram-se pilotos profissionais o neto, Christian, agora um bisneto, Pietro Fittipaldi, surge com a mesma gana que o bisavô passou para os filhos que por sua vez inocularam no netos e agora desembarca em Peitro, já campeão de uma categoria da Nascar, aos 15 anos. O Barão, portanto, é eterno.

Wilson Fittipaldi faleceu durante a madrugada no Hospital Copa D’Or, onde estava internado desde o dia 25. A família não deu mais informações.

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