O controle de tração vai acabar. Será um bem para a F-1

liviooricchio

30 de março de 2007 | 23h01

Uau…o fim do controle de tração! Confesso que tão logo soube da notícia, hoje, vibrei. Sou a favor do uso da maioria dos recursos eletrônicos, mas o controle de tração, não. Curto e grosso: nivela por baixo os pilotos.

Já escrevi aqui que me dou de presente um dos grandes prazeres permitidos pela cobertura in loco da Fórmula 1: assistir de dentro do circuito, junto de vários fotógrafos, atrás dos muros, aos treinos livres de sábado de manhã nos fins de semana de corrida.

É um ensinamento extraordinário. Posicionar-se nas placas dos 100 e 50 metros, bem como nas saídas de curva, quando possível, e ver onde cada piloto freia, como trabalha o volante e como reagem ao retomar a aceleração.

Sabe o que observo, hoje, aproximadamente da metade da curva em diante? Do jovem e estreante Adrian Sutil ao experiente David Coulthard, a mesma reação: acelerador no curso máximo. O controle de tração se encarrega do restante. Como ele atua, em geral, cortando a ignição, cria uma som no motor bastante característico, mais grave, de menor freqüência, é muito fácil perceber sua ação.

O comportamento do carro não se altera. O motor recebe a solicitação extrema de aceleração e repassa para o motor apenas a potência necessária para deslocar o veículo, sem que as rodas girem em falso, o que o desestabilizaria, dentre outras consequências, como elevar o consumo dos pneus.

Um computador gerencia tudo. Sensores detectam o mais leve sinal de as rodas iniciarem girar em falso. É o sinal para o computador passar a cortar a ignição sequencialmente nos cilindros. Outra forma de atuação é limitar a injeção de combustível, menos prejudicial à saúde do motor, ainda que mais complexa de ser gerida.

Na prática, o controle de tração permite que o piloto preocupe-se apenas em levar o pedal do acelerador ao extremo de seu curso. A sua sensibilidade para conciliar a dosagem na aceleração, suficiente apenas para o carro mover-se, sem que as rodas “patinem”, não está em xeque.

Durante a maior parte da história da Fórmula1 esse foi um importante parâmetro de performance para os pilotos: saber dosar a aceleração. Os carros da competição sempre desenvolveram níveis elevados de potência. Controlá-la é um handicap. Pois essa é uma prerrogativa, atualmente, do controle de tração.

Sem desejar ser saudosista, por favor, mas lembro-me da primeira prova de Fórmula 1 no Brasil, em Interlagos, em 1972, quando pela primeira vez fiquei frente a frente com velozes monopostos, concebidos para correr. Adolescente, fiquei maluco ao ver Emerson Fittipaldi, com a Lotus 72D, e Ronnie Peterson, March 711, por exemplo, atravessados, na Ferradura e no Laranja. As contornavam de lado. Bárbaro!

Alguém se lembra de ter visto, nos últimos anos vai, para não regressar muito no tempo, algum piloto de Fórmula 1 fazer curvas de lado? Não porque é impossível. O controle de tração não permite. Seria necessário usar a potência para obter esse efeito. Acelerar um pouco mais para lançar a traseira.

Outro fator que impede de se pilotar como antigamente é a aerodinâmica. Os carros ou apresentam elevado índice de aderência ou nenhuma. É o chamado fenômeno de tudo ou nada. A partir do momento em que o piloto perde o controle, o procedimento também é padrão: frear com força para tentar deduzir a velocidade de impacto contra a barreira de pneus.

A possibilidade de o piloto retomar o controle do carro é bem pequena, em especial se a derrapagem começou com o conjunto traseiro. Na Fórmula 1 moderna concentra-se mais peso na porção posterior.

Deu para ver que não será a proibição do controle de tração, a partir do ano que vem, imposta pelo Conselho Mundial da FIA, que fará com que, de repente, a Fórmula 1 retorne aos tempos de Ronnie Peterson, dentre outros. Mas, com certeza, repassa aos pilotos maior responsabilidade na eficiência da condução.

Pilotos técnicos, conscientes do que fazem na pista, sensíveis, capazes de sentir as mais leves reações do carro para então responderem serão privilegiados. Se não estão dentre os que regularmente vencem as corridas não passarão, de um instante para o outro, a disputar as primeiras colocações.

Embora essas características ganhem importância maior, o sucesso na Fórmula 1 relaciona-se a uma série de fatores. Pilotos mais bem dotados nesses dotes podem tornar-se mais rápidos, não há dúvida. Nos dias de hoje, por exemplo, só por conta da mudança dessa regra, se aplicada, permitiria a Fernando Alonso aproximar-se um pouco mais de Kimi Raikkonen, acredito.

Alonso é um piloto mais sensível e completo que o finlandês. Se a Ferrari F2007 é capaz de, neste início de temporada, ser três décimos de segundo mais rápida por volta que a McLaren MP4/22, em condição de corrida, o espanhol conseguiria reduzir para, digamos, um décimo.

As porcentagens são hipotéticas, mas penso que representativas do que a proibição do controle de tração faria com a Fórmula 1, hoje. Agora, se a performance dos carros não fosse tão baseada em cima da aerodinâmica, esse fator, sozinho, traria consequências bem maiores.

A Fórmula 1 vive um dilema entre aceitar as tecnologias que, de fato, interferem na pilotagem, como o controle de tração, ou rejeitá-las. O grande problema é que esses recursos já são disponíveis há bom tempo nos carros de série. Quer dizer, então, que os veículos de rua são mais avançados que os de Fórmula 1?

Num certo sentido, sim. As próprias montadoras que têm equipe na Fórmula 1, como Mercedes, BMW, Ferrari, Renault, Toyota, Honda, produzem modelos, em termos de recursos eletrônicos, até mais sofisticados que os de Fórmula 1, por serem proibidos. Exemplos: freios ABS, suspensão e diferenciais inteligentes, câmbio automático e agora o controle de tração. Claro que há áreas, também, em que os monopostos do Mundial estão muito à frente dos de série.

Mas essa é outra discussão. O maior apelo de marketing que a Fórmula 1 utilizou ao longo de sua história – “Nós desenvolvemos a tecnologia que um dia chegará aos carros de série” – já não serve mais. Tem de ser repensado. Vamos discutir esse tema lá da Malásia?

Vou ouvir o pessoal das montadoras para saber o que eles acham de nas suas fábricas construírem modelos que incorporam mais tecnologia do que nos seus monopostos de Fórmula 1. Farei uma reportagem para o Estadão e a colocarei no ar aqui também. Interessante, não?

Abraços, amigos!

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