O dia em que Bernie Ecclestone me deu carona

liviooricchio

22 de junho de 2012 | 10h02

22/VI/12
Livio Oricchio, de Valência

Sei que está meio fora de hora, afinal vivemos as emoções do GP da Europa e a história se passou nos dias do GP do Canadá, mas penso ser válido contá-la. Para um blog é apropriada. Não lhes repassei antes por estar em dúvida se deveria ou não pela experiência envolver Bernie Ecclestone. Mas como não há nada que fira alguém, ao contrário, decidi redigi-la.

Como escrevi aqui antes, não alugo carro em Montreal. O metrô representa, para mim, a maneira mais rápida de chegar ao circuito Gilles Villeneuve. Meu hotel acha-se a 100 metros da estação de metrô de Berri-Uqam, de onde parte a linha amarela para o “autódromo”, e depois de uma estação apenas, em que o trem passa sob as águas do rio São Lourenço, desembarco próximo à pista.

Ao sair do metrô na estação Jean Drapeau caminhamos cerca de 200 metros pelo parque do mesmo nome até chegarmos à ponte de acesso à ilha de Notre Dame, a do circuito. Antes do início da ponte eu paro e espero a perua dos jornalistas que vem da cidade. Forma-se uma extensa fila de carros nesse ponto pois milhares de cidadãos saem da estação do metro e se dirigem para as arquibancadas. Para a multidão acessar a ponte é necessário interromper o tráfego.

Eu estava esperando a perua da imprensa, com a credencial permanente da FIA no peito, para o motorista saber que eu era jornalista, quando de uma elegante Mercedes parada na fila antes da ponte, aguardando os policiais liberarem a passagem dos carros, vi um braço sair pela janela do lado do passageiro e sinalizar com a mão para me aproximar. No primeiro momento pensei não ser comigo, mas ao olhar ao meu redor e ver apenas árvores, compreendi que deveria investigar.

De onde estava, cerca de uns 30 metros da Mercedes, não era possível ver nada dentro por causa do reflexo no vidro. Ao chegar mais perto, identifiquei ninguém menos de Bernie Ecclestone no banco da frente. Com a janela aberta, ouviu-me dizer-lhe “Hello Mister Ecclestone”. E escutei dele para entrar no carro. “Thank you.”

Abri a porta de trás e lá estavam Fabiana Flosi, agora sua esposa, e outra elegante moça. Conheço Fabiana há uns 12 anos, desde a época em que trabalhava na área promocional do GP do Brasil de Fórmula 1. Nos cumprimentamos em português e entendi que a moça do meu lado falava português também. Nós todos íamos para o paddock. O carro atravessaria a ponte, entraria na ilha de Notre Dame, seguiria por uma estradinha de terra, ao lado do rio São Lorenço, até chegar à cabeceira da raia olímpica e de lá atingiria o paddock.

Ecclestone quis saber de onde vinha as milhares de pessoas que atravessavam a ponte e mantinham a fila de automóveis parada. Eu lhe expliquei que eram torcedores. “Cerca de 90% vêm de metro”. Ele: “Good, this is the best way”. Rapidamente falamos do entusiasmo no público canadense e do grau de conhecimento de Fórmula 1 que possuem, oposto ao da maioria dos norte-americanos que vivem outra realidade com seus esportes a motor.

Logo depois da ponte de acesso à ilha de Notre Dame há um controle de credenciais. Pararam nosso carro, como fazem com todos. O rapaz desejava ver a nossa credencial. Até verificar todas demorou alguns segundos. O motorista disse-lhe que transporta Ecclestone. Este reagiu: “Ele está certo, vamos aguardar.” Liberados.

Fabiana e a outra moça me fizeram algumas perguntas sobre o evento, em português, e conversamos sobre Fórmula 1, essencialmente. A moça se identificou, Camila. “Sou a namorada de Jacques Villeneuve”, disse-me, sempre com muita simpatia. Contei-lhe algumas experiências vividas com Jacques. A entrevista em Jerez de la Frontera, em 1997, por exemplo, logo após o título mundial, marcante para mim pela forma como até hoje trata a imprensa. “Jacques é espontâneo, algo proibido na Fórmula 1”, falei. Camila concordou, dizendo ser assim que trata a vida.

Para chegar ao paddock a Mercedes se deslocou por uma estreita faixa de asfalto ao lado da raia olímpica. Quando os que trabalhavam no controle do acesso ao paddock viram o carro de Ecclestone abriram o portão de imediato. Técnicos, demais dirigentes, jornalistas têm de passar pela catraca eletrônica com a credencial, ao lado. Esse portão fica fechado.

Ao estacionar a Mercedes dentro do minúsculo paddock, limitado pela raia olímpica, por fora abriram as portas do carro. Por estar na janela, atrás, fui o primeiro a sair junto de Ecclestone, a minha frente. Havia um mar de fotógrafos. Ouvi centenas de clicks. Agradeci rapidamente a todos e entrei na sala de imprensa, do lado, certo de que me consideravam alguém importante, tantas foram as fotos que tiraram de mim.

E como não tinha registrado minha passagem pela catraca para entrar, por estar na Mercedes, ela não funcionaria para eu sair. Tive de me fazer entender com o rapaz do portão lateral que precisava sair por lá para entrar através da catraca e, depois, poder ser liberado para sair ao término do trabalho. Mas até explicar tudo isso, ser compreendido e autorizado foram longos minutos.

Por fim concordaram. Não estou certo até agora de que acreditaram na história que contei sobre como entrei no paddock sem passar pela catacra. “Esse cara aí no carro de Ecclestone… rá, rá rá…”

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