O dia que Newey errou. Feio. Mas ele pode.

liviooricchio

29 de fevereiro de 2012 | 17h41

29/II/12

Livio Oricchio, de Nice

 O francês Romain Grosjean, da Lotus, ex-Renault, inicia hoje, normalmente, em Barcelona, a última série de quatro dias de testes antes de o campeonato começar, dia 18, na Austrália. James Allison, diretor técnico da equipe, reconheceu que houve um problema no projeto da suspensão traseira, daí a Lotus não poder testar semana passada. “Desenhamos os novos componentes, os produzimos, realizamos os testes (estáticos) necessários e o carro está aí”, explicou Allison.

 Os modelos de Fórmula 1 são, na realidade, protótipos, e historicamente os projetistas assumem riscos na sua concepção, a fim de torná-los mais velozes.

  Logo na sua primeira volta mais rápida, dia 21, em Barcelona também, Grosjean avisou os seus engenheiros, pelo rádio, que havia algo errado com o E20-Renault. Na freada o carro apresentou comportamento estranho. Nos boxes os técnicos detectaram um problema num dos braços do triângulo superior da suspensão traseira. Pior: a falha era crônica. A Lotus teve de embalar tudo e regressar a Enstone, sua sede, na Inglaterra.

  O proprietário da Lotus, Gerhard Lopez, do grupo Genii, investiu muito este ano, contratando até Kimi Raikkonen, campeão do mundo de 2007, disposto a crescer. E o abandono do treino no Circuito da Catalunha foi no mínimo embaraçante, para não se mencionar o perigo de a falha implicar completa revisão do projeto e colocar em xeque a presença do time nas provas iniciais do Mundial.

  Os testes de hoje a domingo responderão se a dificuldade técnica foi mesmo resolvida, como garante, agora, Allison. O modelo E20, no seu primeiro ensaio, em Jerez de la Frontera, demonstrou ser rápido. O objetivo da Lotus é lutar pelo quarto lugar entre os construtores e, este ano, voltar a ocupar vez por outra o pódio.

  O ocorrido com a Lotus é relativamente comum na história de 62 anos da Fórmula 1. Nem todos se lembram, mas o maior nome no complexo universo técnico da competição, o engenheiro com maior número de títulos de todos os tempos, oito, Adrian Newey, hoje na Red Bull, atual bicampeã, cometeu equívoco ainda mais grave que o da Lotus este ano. O modelo McLaren MP4/18-Mercedes deveria representar uma nova era para a organização de Ron Dennis.

  A fim de poder enfrentar a Ferrari, campeã com Michael Schumacher em 2002 com esmagadora vantagem sobre os concorrentes, Newey correu todos os riscos ao conceber a McLaren MP4/18 para 2003. Resultado: o carro nunca foi usado. O MP4/18 sofreu vários acidentes nos treinos e por razões diversas. Além disso, nos testes de resistência a impactos, controlados pela FIA, seu chassi foi reprovado várias vezes até passar.

  Mais: o motor quebrava demais por causa de as tomadas de ar laterais, onde se encontram os radiadores, serem muito estreitas, para ganhar eficiência aerodinâmica. A McLaren, uma das maiores equipes da Fórmula 1, de orçamento quase ilimitado, na época, teve de disputar a temporada de 2003 com uma versão modificada do modelo de 2002.

  A expressão de Ron Dennis, quando perguntávamos sobre o episódio, mudava. Apesar de sócio, era o diretor executivo da equipe e devia satisfações a ninguém menos que os homens da Mercedes. Foi um dos maiores fracassos da história da Fórmula 1.

 Para o bem dos projetistas da Lotus, espera-se que esse não seja o caso também do E-20. Ao contrário, ratifique a boa impressão inicial. Para a Fórmula 1 também seria muito bom.

 

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