O lado comercial da Fórmula 1 sempre irá vencer o esportivo

liviooricchio

25 de julho de 2010 | 13h50

25/VII/10

Livio Oricchio, de Hockenheim

De um lado está o esporte. Todos estão lá para vencer. Do outro os interesses comerciais dessa atividade chamada Fórmula 1. Por vezes, esporte. Do ponto de vista esportivo, o que aconteceu aqui em Hockenheim, há pouco, agride todos os seus princípios. Um piloto deixar de acelerar para o companheiro de equipe ultrapassá-lo para vencer, e assumir sua decisão, como fez Felipe Massa, é o anti-esporte.

 

Já na visão comercial da atividade Fórmula 1, tudo se processou dentro da mais absoluta lógica. Primeiro: o time compreendeu ter, novamente, um carro veloz, capaz de levá-lo a lutar pelo título. Depois, Fernando Alonso estava mais bem colocado no campeonato. Mais: o espanhol demostrou nas dez provas anteriores ser mais eficaz que Felipe Massa, principalmente pela maior adaptação aos pneus deste ano, embora haja um consenso de que também é mais completo que Massa.

 

Não acabou ainda o que pesa do lado atividade Fórmula 1. A Ferrari está sob imensa pressão da cúpula da Fiat, em especial, sua proprietária, para reagir no campeonato. A organização receberá este ano pouco mais de € 200 milhões e precisa responder, na pista, com resultados.

 

Como Alonso é quem mais pode lhe permitir essa possibilidade de ser campeã e atender o que sua direção superior espera dela, nada mais lógico que ordernar a Massa deixar Alonso ultrapassá-lo para vencer o GP da Alemanha. Os interesses da Ferrari foram atingidos.  

 

Nem todos se lembram, mas o próprio Massa foi presenteado com exatamente o mesmo comportamento do companheiro de Ferrari, Kimi Raikkonen, em 2008, no GP da China. O finlandês tirou o pé do acelerador para Massa ultrapassá-lo e com o segundo lugar somar mais pontos que o terceiro. Massa estava mais bem colocado que Raikkonen na classificação do Mundial. Só não foi, em Interlagos, naquele ano, por um ponto.

 

O próprio Massa foi decisivo para Raikkonen ser campeão do mundo no GP do Brasil de 2007, ao permitir que o finlandês o ultrapassasse na operação de pit stop para, com a vitória, conquistar o título. Repararam quanto tempo estamos falando da atividade Fórmula 1? Bem mais que o esporte Fórmula 1, não?

 

De volta, agora, ao esporte. Um desastre para o time e, principalmente, para Massa. Acabou a identificação do brasileiro com ele. Massa tornou-se um novo Rubens Barrichello. A imagem de perdedor de Rubinho, ainda forte, foi assumida por Massa, apesar de ele, inocentemente, acreditar que não, como nos falou há pouco, aqui na Alemanha.

 

Desacatar a ordem da Ferrari, muito mal disfarçada, por sinal, representaria o fim da passagem de Massa pelo time italiano. Não há no seu contrato nada que o obrigue a ajudar Alonso. Mas existe no mesmo documento uma cláusula que garante à Ferrari confirmar ou não o compromisso para 2011, já assinado. Massa não teria seu contrato confirmado. Essa é a lei da Fórmula 1.

 

O preço que ele já está pagando é alto. Alto demais. Perdeu uma nação, que ainda estava com ele, apesar dos fracos resultados este ano. O Brasil tem de, urgentemente, torcer para um outro piloto crescer na Fórmula 1, chegar a uma equipe de ponta e jamais, mas jamais ter qualquer comportamento que lembre sequer o de Rubinho e Massa na Ferrari em algumas ocasiões, a exemplo do GP da Áustria de 2002 e a corrida de hoje aqui em Hockenheim.  Para a torcida, não existe a atividade Fórmula 1. Apenas o esporte Fórmula 1.

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