O mais esperado livro sobre Michael Schumacher

liviooricchio

23 de novembro de 2006 | 18h42

Sem nenhuma presunção, por favor, mas estou autorizado a dizer: minha amiga Sabine Kehn, assessora de Michael Schumacher, vai lançar, amanhã, na Alemanha, a biografia oficial do piloto, que se chamará simplesmente “Schumacher.” Em princípio, editada apenas em alemão, mas em muito breve ganhará edição em inglês, a qual deverei receber aqui em São Paulo.

Tomara que o texto acrescente àquilo que já sabemos. Sabine vivenciou muitas histórias e Michael Schumacher confia plenamente nela. Seria legal se fizesse como Willi Weber, que nos contou, há uns dois ou três, o que aconteceu quando foi oferecer Michael Schumacher a Eddie Jordan, em 1991, para a vaga do francês Bertrand Gachot, preso por borrifar gás no rosto de um motorista de táxi, em Londres, depois de uma discussão no trânsito.

Antes de falar em valores, Eddie perguntou a Weber se Schumacher conhecia o circuito de Spa Francorchamps, onde, se fosse escolhido, o alemão faria sua estréia na Fórmula 1. Weber nos disse ter apenas esboçado um sorriso, como quem diz “hã, você não sabe o que está perguntando…”

O empresário respondeu ao irlandês: “Michael é um especialista em Spa-Francorchamps.” Eddie ficou impressionado. Àquela altura, o piloto disputava o Mundial de Esporte-Protótipos, pela Mercedes, e havia tido a experiência de uma prova de Fórmula 3000 no Japão, na qual chegou em segundo. Era um desconhecido na Fórmula 1.

Convencido do conhecimento de Schumacher dos seletivos 6.940 metros do traçado, Eddie deu o preço para Weber: “São 237 mil dólares.” Era quanto custaria para disputar o GP da Bélgica. Parte do dinheiro veio da Mercedes e o restante o suíço Peter Sauber tirou do bolso. A equipe da Mercedes era gerida por sua organização.

O que se seguiu a maioria dos que se interessam por Fórmula 1 já sabe: Schumacher impressionou ao conquistar o sétimo tempo na classificação, embora a quebra da transmissão o tenha obrigado a desistir logo depois da largada.

Não posso esquecer o que ouvi de Eddie, uma ocasião que fiz uma entrevista de página inteira com ele, aqui para o Estadão, em 1995: “Naquele GP nossa situação financeira era tão dramática que dividi o quarto com Ian Phillip (seu diretor comercial)”, disse. Mas complementou: “O problema é que a cama era de casal.”

Ah, Weber deu mais detalhes de onde Schumacher “aprendera tanto” sobre a pista de Spa-Francorchamps: “Bicicleta. Já que morava perto (Kerpen, sua cidade, localiza-se a cerca de 100 quilômetros do improvisado autódromo), eu o mandei andar de bicicleta no circuito para ter uma idéia do traçado. Dessas voltas de bicicleta vinha a grande especialidade que vendi a Eddie Jordan e ele engoliu.” Mas até que a jogada deu certo.

O próprio Schumacher nos contou, em 1997, que o ocorrido depois entre ele e Eddie Jordan ficou atravessado na sua garganta. E pelo visto está até hoje. Depois de perder o piloto para a Benetton, já na etapa seguinte, o GP da Itália, Eddie entrou na Justiça requerendo uma indenização pela “perda” de Schumacher, cujo contrato era de apenas uma prova.

Olha só o que o Schumacher falou, seis anos mais tarde: “Existem mesmo na Fórmula 1 pessoas que não sabem como tirar dinheiro dos outros. Encontram as mais estranhas e descabidas justificativas. E eu acabei de ser vítima de uma delas.” Eddie Jordan só aceitou contratar Ralf Schumacher, irmão seis anos mais novo de Schumacher, se fosse finalmente “indenizado” por aquela pendência de 1991.

Ralf vencera na temporada anterior o conceituado Campeonato da Fórmula Nippon, no Japão, e o caminho natural seria a Fórmula 1. Em outras palavras, Schumacher pagou para Eddie aceitar Ralf na Jordan, além, claro, do valor acertado com seus patrocinadores. Comenta-se que o que Schumacher desembolsou foi US$ 1,5 milhão.” Questionado pelos jornalistas alemães, Weber não deu o valor, mas não desmentiu a cifra proposta.

São histórias como essas, não usuais na mídia de modo geral, dentre tantas e tantas que Sabine sabe, que tornariam o livro cheio de sabores. Em Interlagos, me garantiu que essa será a filosofia da obra, embora não haja nada de muito controverso ou polêmico. Quero aprender muito mais sobre a trajetória de Schumacher, dentro e fora das pistas. Sou um fá-confesso desse que considero o piloto mais completo que vi correr na Fórmula 1.

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