O pior é que Mosley está absolutamente certo

liviooricchio

17 de maio de 2008 | 13h01

Olá amigos, estou ainda em Helsinque. Amanhã viajo para Nice, cidade francesa ao lado de Mônaco. Li ontem no site da autosport o documento que Max Mosley disponibilizou, alertando para o perigo que representa à Fórmula 1 a sua saída da presidência da FIA, a ser definida dia 3 pelos mais de 200 membros que irão votar em Paris.

Uma cartada de última hora, retrato do seu desespero? Mosley sabe que se a Assembléia da FIA interromper seu mandato tudo o que fez pelo automobilismo, e não foi pouco, será pouco lembrado. A maioria irá se referir a Mosley como aquele presidente do escândalo sadomasoquista.

Até acredito que a iniciativa de Mosley visa a sensibilizar os membros da FIA com direito a voto. Mas não deixa de refletir a mais profunda verdade. Sua saída da presidência da FIA, como já escrevi mais de uma vez, fará com que seu sucessor seja um legítimo representante das empresas que investem na Fórmula 1, notadamente as montadoras de automóveis.

Estive em vários encontros com Mosley. O primeiro deles, como presidente da FIA, foi ainda em fevereiro de 1992, na África do Sul. Fiz uma longa entrevista com ele, que assumira a entidade em outubro do ano anterior. Desde o princípio vê as montadoras com ceticismo. Seus interesses verdadeiros, disse-me, não estão na Fórmula 1. A Fórmula 1 representa, sim, uma plataforma para atingir seus objetivos.

Em 2004, a assessoria de imprensa da FIA convidou oito jornalistas para uma conversa com Mosley, dias antes do GP da China. Eu estava entre eles. Foram duas horas de bate-papo, sem o caráter de entrevista. O que mais me impressionou foi que sua opinião a respeito das montadoras recrudesceu. Sugeria ter raiva de seus representantes.

Disse-nos que toda vez que lhes repassa algo para decidir em grupo, seja do regulamento técnico ou esportivo, o interesse de conflitos é tamanho que nunca chegam a conclusão alguma. E acabam por aguardar a FIA decidir. “Nunca dá para esperar nada delas. É inocência acreditar que elas vão atingir algum acordo seja lá para o que for.”

Temos visto cada vez mais ser uma grande verdade. Tome o exemplo do DTM. São as montadoras, em essência, que gerem, hoje, a competição. Quantas estão participando? Para valer apenas Audi e Mercedes. O caminho mais fácil para acabar com uma categoria é tirar o poder esportivo da entidade reguladora.

Mosley está certo: seu sucessor procurará atender muito mais os interesses das montadoras. Seu papel até agora foi reconhecer a importância dessas empresas para a Fórmula 1 bem como procurar garantir até a existência da competição quando elas concluírem, por razões de marketing ou financeiras, que está na hora de vender a equipe, ou mesmo apenas deixar seu lugar no grid em aberto se não aparecerem interessados.

Não dependem da Fórmula 1 para sobreviver. Não são como Frank Williams, profissionais da Fórmula 1, que não existem como razão social fora da competição. Historicamente quem garantiu a manutenção da Fórmula 1 como um campeonato regular, mesmo quando apenas 15, 16 carros largavam, a exemplo do fim dos anos 60, sempre foram os seus profissionais, não as montadoras.

Não é o caso, aqui, de entrar no julgamento da vida pessoal de Mosley. O que penso sobre isso? Conhecendo como se busca preservar a imagem das empresas hoje, mais que no passado, pelos desdobramentos quase incomensuráveis do processo de globalização, não vejo como Mosley manter-se no poder. Está cada vez mais isolado.

Foi assim na Jordânia, nação que lhe deve a inclusão no Mundial de Rali, será agora em Mônaco, e seja onde for. É inviável não só para a Fórmula 1 um presidente da FIA sem o reconhecimento da sua autoridade pelas equipes e promotores dos eventos. Sua autoridade mantém-se apenas formalmente. Não importa que não haja santo no paddock. O que interessa para esse meio, e para a maioria deles no mundo dos negócios, é que o que Mosley fez apareceu para o público. Mais que sexo, mexeu com uma ferida viva, ainda, o nazismo. Coloque nessa fornalha o passado de seu pai, Oswald, fundador do partido fascista inglês.

A Fórmula 1 corre mesmo risco de enveredar por um caminho perigoso com a perda de um presidente que sabe o que faz, e tem a precisa noção do quanto as montadoras podem contribuir para a Fórmula 1, de um lado e do outro, positiva e negativamente. Podemos nem concordar com tudo, mas sua autoridade é inegável. “A última palavra é minha”, afirma Mosley na maioria das situações.

E é bom que os representantes da montadoras saibam. Sem essa autoridade, como talvez venha a ser o caso dependendo do seu sucessor, o conflito de interesses gigantes pode gerar conflitos graves e dissidências dramáticas para a Fórmula 1.

Abraços!

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