O que é ser um "construtor" na Fórmula 1?

liviooricchio

02 de outubro de 2007 | 13h48

02/X/07
Livio Oricchio, de Pequim

Acabo de ler, aqui em Pequim, a informação distribuída pela agência de notícias espanhola EFE de que a direção da McLaren apenas aguarda a decisão final da discussão sobre o “conceito de construtores” para rever sua organização como um todo.

Em primeiro lugar, a fonte não é das mais confiáveis. Quando estou na redação e recebo material da EFE a respeito de temas que tenho contato, não raro me impressiono com a imprecisão e até equívoco dos dados.

“Conceito de construtores.” O que é isso? Ainda no fim de semana passado, tive a chance de conversar com o senhor Bernie Ecclestone. Papo de entrevista, mas com espaço para alguns importantes esclarecimentos. Foi ele mesmo quem me explicou melhor a questão.

As montadoras ameaçaram sair da Fórmula 1, lembra? Criaram uma empresa para estudar como realizariam seu próprio campeonato. A única diferença básica seria que não a poderiam chamar de Fórmula 1, marca registrada pela Formula One Management (FOM), a holding das empresas de Ecclestone.

Na realidade, o que elas desejavam é rever o acordo sobre distribuição do dinheiro arrecadado por Ecclestone, cuja principal fonte é a venda dos direitos de TV. Estima-se que no total a Fórmula 1 gere uma receita de US$ 1 bilhão por ano.

Vocês devem ter lido várias vezes, assim como eu ouvi em várias oportunidades Luca di Montezemolo afirmar: “O maior erro da Fórmula 1 é nós que fazemos o espetáculo termos de dividir 47% do que geramos enquanto o senhor Ecclestone e seus sócios, os bancos, ficam com os 53% restantes.”

Um a um, começando pela Ferrari, Ecclestone os fez mudar de idéia. Não sem pagar, e bem pago. Um valor a título de luvas, digamos, e a distribuição em base bem distintas do que vinha sendo feito.

“A questão financeira já está resolvida faz tempo, falta agora regulamentarmos o conceito de construtores. Duas equipes pequenas não estão de acordo com o que propomos”, disse Ecclestone, na conversa.

Pelo proposta original, a equipe que não construir seu próprio carro, ou seja, competir com o equipamento cedido ou vendido por outra, não se enquadra na categoria construtores. A consequência de não ser um construtor na Fórmula 1 é devastadora: simplesmente não soma pontos para o campeonato.

E ao não somar pontos não participa, no fim da temporada, da divisão do dinheiro arrecadado, bem mais significativa a partir do ano que vem, quando passa a valer o novo acordo de Ecclestone com os times. Tomemos o exemplo da McLaren. Este ano, pelo que somou, teria direito da receber algo próximo dos US$ 60 milhões. A partir de 2008, esses valores mais que dobrarão.

As escuderias pequenas quase garantem já sua participação no campeonato com o dinheiro repassado pela FOM. Num esquema bem espartano de disputar o Mundial, o dinheiro cobre 2/3 do orçamento. Dá para falar em valores. Uma organização como a Toro Rosso, no fim de 2008, se mantiver o mesmo desempenho de hoje, leva para casa, depois de terminado o campeonato, algo perto de US$ 50 milhões, quase o pago hoje à equipe campeã.

Você já imaginou, agora, não ser classificado como construtor? É ter de sair no mercado com o propósito nada fácil de convencer empresas a investir US$ 50 milhões no seu projeto, sendo que você já vai lhe adiantar que não concorrerá a nenhuma conquista mais relevante. Isso é prerrogativa quase exclusiva dos que investem entre US$ 300 e 400 milhões por temporada.

A Spyker tem uma ação na justiça comum contra a Toro Rosso e a Super Aguri. A alegação procede: a Toro Rosso compete com o mesmo carro da Red Bull, adequado ao motor Ferrari em vez do Renault, usado pela Red Bull, e a Super Aguri tem o modelo usado pela Honda ano passado. São times satélites de suas naves-mães.

O que deseja o holandês Michel Mol, sócio da Spyker, que produz seu carro, com a iniciativa? Que a FOM não repasse à Toro Rosso e à Super Aguri a sua eventual cota na distribuição de dinheiro. Quem não soma pontos também tem a colocação no Mundial levada em conta. As classificações que não dão pontos à escuderia na corrida, do nono lugar para trás, valem como critério de classificação.

Sem ter de pagar a Toro Rosso e a Super Aguri, a cota de cada um cresce. Domingo de manhã, em Fuji, 10 chefes de equipe se reuniram. Faltou apenas Ron Dennis, da McLaren. Por quê? Porque estavam discutindo, com Ecclestone, como redistribuir o dinheiro deste ano, sem os cerca de US$ 60 milhões a que a McLaren teria direito.

Ecclestone defende que casos como Toro Rosso, Super Aguri e agora a Prodrive, que correrá com tudo da McLaren, não sejam qualificados como construtores. Disputam as provas, recebem os troféus, mas não o dinheiro. Max Mosley bate o pé para que sejam considerados times normais e, portanto, participem normalmente da distribuição.

Dá para entender o impasse?

Agora, dizer que Ron Dennis irá migrar com Lewis Hamilton para a Prodrive, deixando para trás a estrutura fenomenal da Paragon, sede da McLaren em Woking, me parece um sonho. Mais: a Mercedes assumiria sozinha a McLaren que mudaria de nome, ficando só Mercedes, para não pagar a multa de US$ 100 milhões, que na realidade é só US$ 40 porque a McLaren teria a receber US$ 60 milhões…Chega, por favor.

Na Fórmula 1 tudo é possível, claro, mas essa!

Abraços aqui dessa bela cidade, Pequim. Não fosse o meu guia, Pedro Bassan, repórter da TV Globo, amigo há uns 15 anos, eu demoraria três vezes mais para realizar o trabalho que vim fazer para o Grupo Estado. Impressionante: ninguém fala outra língua a não ser o chinês, é pior que no Japão. O Bassan reside em Pequim.

Hoje de tarde no estádio olímpico, um tanto decepcionante comparado com outros que já vi, as várias pessoas que estavam lá não foram capazes de compreender que eu procurava o centro de imprensa, ou “media center”. Não entenderam sequer as palavras newspaper, journalist.

Saí de lá e tive de fazer longa caminhada em razão de ter liberado o táxi que me levou. Isso depois de eu mostrar no mapa à motorista onde necessitava ir. Apenas falando estado olímpico não fui entendido. Amanhã um amigo do Bassan, que trabalha na organização da olimpíada, irá me receber. Graças a Deus!

Um grande abraço, amigos. Ah, a discussão no nosso blog quase limita-se a elogiar e criticar, nos últimos dias, Lewis Hamilton e Fernando Alonso. Antes da corrida de Xangai espero expor o que penso.

Abraços, amigos!

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