O que espero do GP da Hungria

liviooricchio

28 de julho de 2012 | 14h47

28/VII/12

Amigos, fim de tarde aqui no circuito Hungaroring, em Budapeste.

Ouvi vários pilotos, técnicos e exponho, agora, o que espero da corrida, amanhã.

Em primeiro lugar, ninguém sabe ao certo se irá chover ou teremos as 70 voltas nesse traçado meio sem graça de 4.381 metros com pista seca. Pode ser que chova durante a competição.

Em condições normais de temperatura, pressão e umidade, como aprendíamos no colegial, segundo grau agora, estou com Vettel. “Será difícil para alguém acompanhar o ritmo de Hamilton”, o pole position. O avanço demonstrado pela McLaren na Alemanha era verdadeiro, não apenas uma maior adaptação do modelo MP4/27 Mercedes a Hockenheim.

Hamilton foi o mais rápido nas duas sessões ontem e hoje pela manhã ficou em segundo a apenas 93 milésimos de Webber. E agora há pouco estabeleceu a pole position. “O negócio é manter a cabeça fria amanhã”, disse o inglês. Se mantê-la, nem sempre consegue, e o asfalto estiver seco, tem enormes possibilidades de vencer o GP da Hungria, prova aliás que já ganhou duas vezes. Portanto, Hamilton favorito.

Se as condições não forem normais, ou seja, os pneus apresentarem elevado desgaste, e isso pode acontecer também por causa da elevada temperatura esperada, 32 graus, e os pilotos não terem grandes referências de consumo dos pneus por causa da chuva, ontem, o desafio de Hamilton será maior. Se o que estiver em exame, essencialmente, for esse quesito, pneus que suportem mais voltas, Romain Grosjean, da Lotus, cresce de importância.

Claro, deste que termine a primeira volta sem se envolver num acidente, como tantas vezes este ano. Perguntei a ele, hoje, se as experiências desagradáveis na primeira volta o fariam a repensar os instantes depois da largada, ou o conhecimento adquirido lhe levaria a projetar, dentro do possível, como reduzir as possibilidades de nova decepção. Aí entrou em cena o Grosjean de 2009 e da GP2, arrogante: “Uso minha experiência a todo momento na Fórmula 1”, afirmou, demonstrando sentir-se atingido pela pergunta.

O que não pensarão os cerca de 500 integrantes da Lotus quando depois de darem o sangue para entregar um carro capaz de levá-lo a lutar pelo segundo, terceiro, quarto lugar, e vê-lo depois de apenas alguns metros comprometer tudo. Para não mencionar as despesas geradas numa época de dificuldades. Tem mesmo muito o que aprender para ser grande. De qualquer forma, de novo tem excelente oportunidade de lutar pelo pódio.

A autonomia dos pneus no primeiro stint, a primeira série de voltas até o primeiro pit stop, penso, será importante para determinar o desenvolvimento da corrida. Essa autonomia pode até estabelecer o pódio. Alguém que pare logo terá, em princípio, maiores dificuldades. Lembrando que os dez primeiros no grid têm os macios. Depois vão para os médios.

A Red Bull não demonstrou possuir um carro muito rápido aqui na Hungria em nenhum momento. A perda do programa de gerenciamento do motor que lhe garantia menor torque a partir de determinada aceleração, facilitando a tração e contribuindo para aumentar a resposta de geração aerodinâmica, aqui lhe seria de extrema utilidade. Não tem todo o peso fundamental que certas pessoas acreditam, mas com certeza ajuda a explicar Vettel, terceiro, ficar a quase meio segundo de Hamilton e Webber, em 11.º, a oito décimos.

A lógica sugere que Vettel pode pensar e terminar no pódio. Webber, nos pontos.

Já Button, quarto no grid, parece ter carro para disputar com Vettel um lugar no pódio. A McLaren está, como disse, muito veloz e constante. Se chover ou as condições variarem, suas chances de um belo resultado, a exemplo do segundo lugar em Hockenheim, crescem ainda mais. Button é um especialista em competições ricas de alternâncias.

Kimi, eu torço e você consegue só o quinto lugar no grid? Depois do Q2 acreditei que estaria entre os três primeiros. Falou que no Q3 a Lotus não respondeu como esperava. Vale o discurso de Grosjean, com a diferença de que Kimi é um piloto muito mais completo e inteligente. Dá para imaginar vê-lo no terço final do GP da Hungria se insinuando lá na frente, apoiado no menor desgaste dos pneus de seu carro e eventualmente na estratégia acertada. A Lotus apresenta melhor performance em corrida às classificações.

Chegamos na Ferrari. No seco, Alonso, apesar da genialidade, deve levar importantes pontos para casa. O modelo F2012 não demonstrou velocidade para desafiar a McLaren. Já a Lotus e até a Red Bull, sim, ao menos em condição de corrida. Como o espanhol sempre tira coelho da cartola, vê-lo no pódio de novo não é algo irreal. Ele vem de duas vitórias e uma segunda colocação. Meus amigos, se chover, esqueçam essa projeção. Alonso vai encontrar uma maneira de lutar pela vitória.

Antes de chegar em Budapeste tinha comigo que as chances de a Ferrari renovar com Massa eram boas. Hoje, menores. Conversei com muita gente que entende melhor que eu como funciona a Ferrari. Obviamente Montezemolo e Domenicali, os homens que irão decidir, têm o retrospecto de um ano e meio para avaliar o trabalho de Massa. Refiro-me ao período da Pirelli na Fórmula 1. E não será o equívoco, enésimo, na classificação da Alemanha, bem como o arrojo excessivo na largada, que os fará mudar de ideia sobre o seu futuro. Mas, como sempre me disse Briatore, o livro das desculpas já tem páginas demais.

Massa precisa a todo custo, amanhã, ratificar o bom treino de hoje, quando ficou a 56 milésimos de Alonso, e trazer para casa bom número de pontos. Ainda que não será a prova da Hungria, apenas, que definirá se permanece ou não na Ferrari, mas novo fracasso terá peso significativo na avaliação.

Por fim, Bruno Senna, da Williams, nono no grid. Como fiquei feliz por vê-lo contente. Pelo nono lugar, sem dúvida, mas principalmente por a Williams ter feito um acerto que mudou sua condução. “O ar quente da frenagem foi direcionado mais para a roda que, por sua vez, aquece mais os pneus e, por melhorar a aderência, reduz a importância da direção hidráulica. Nosso sistema faz eu perder sensibilidade no volante, não sinto aquele relação direta com os pneus. Eu sempre pilotei sem direção hidráulica e preciso dessa sensibilidade, dessa solidariedade extrema entre o volante e as rodas, sem a interferência excessiva da direção hidráulica.”

Bruno me explicou que foi apenas isso que mudou e ele começou a andar lá na frente. “Espero que seja assim nas demais pistas também. Será o começo de uma nova temporada para mim.” Torço por isso. Trabalha muito para evoluir nas classificações, sua maior dificuldade. Boa sorte, Bruno. Vê-lo um pouco mais à frente na classificação, no fim da corrida, não é um sonho.

A largada é amanhã às 9 horas, no horário de Brasília.

Espero uma corrida com a segunda metade cheia de mudanças em relação ao que vimos na primeira. Se chover essa inconstância se estenderá do início à bandeirada. Será surpreendente para mim, diante de tantas variáveis em jogo, se desta vez o GP da Hungria for monótono, como costuma ser.

Abraços!

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