O que faz sentido esperarmos do GP dos EUA, em Austin?

liviooricchio

12 de novembro de 2012 | 17h55

12/XI/12
Livio Oricchio, de São Paulo

Antes de qualquer coisa, deixa eu esclarecer algo: não tenho a capacidade de prever o futuro. Vamos conversar agora sobre a penúltima corrida da temporada, domingo, em Austin, match point de Sebastian Vettel, da Red Bull, para Fernando Alonso, da Ferrari. Nosso exercício aqui não é afirmar o que vai acontecer, seria pretensão demais e não domino as propriedades videntes, mas baseando-se no que vimos até agora em 18 provas e diante das características dos 5.516 metros do traçado texano podemos tentar imaginar o pode ocorrer ao longo das 56 voltas da competição.

Vi na Internet uma série de imagens do Circuito das Américas, estáticas e dinâmicas. Procurei me informar com o que há disponível sobre o traçado de 20 curvas projetado pelo estúdio do arquiteto alemão Herman Tilke, além de ter batido longo papo com o jornalista americano Dan Knutson, há mais tempo do que eu na Fórmula 1, autor de reportagens sobre o belo autódromo. Confesso que via com ceticismo o projeto. Felizmente deu certo. É de interesse de todos na Fórmula 1 a existência de uma etapa nos Estados Unidos.

Converso bastante com Tilke. Este ano, em Mônaco, comentou comigo que a primeira seção da pista resgata o melhor de Silverstone. “Nos inspiramos na sequência de curvas de alta velocidade Maggots, Becketts e Chapel”, disse o arquiteto. Se vocês observarem as curvas 3, 4, 5 e 6 (acompanhe no desenho do circuito, no pé do texto) vão ver que as semelhanças são, de fato, grandes. E depois Tilke emendou outro S de alta definido pelas curvas 7, 8 e 9.

É importante abordar a topografia do sítio: depois da curva 1, no fim da reta dos boxes, o ponto mais elevado, os carros descem até a saída da curva 9 para de novo começar a subir. Há importantes desníveis no autódromo. Mais: o sentido é anti-horário, ao contrário da maioria das pistas do calendário.

No papel, o chamado T1, ou o primeiro trecho do circuito, tende a ser um cenário muito favorável ao modelo RB8-Renault de Sebastian Vettel e Mark Webber. São curvas velozes e mudanças rápidas e abruptas de direção. Faz sentido acreditarmos que nessa seção do traçado Vettel vá ser mais rápido que Alonso.

A curva 11 antecede a maior reta do Circuito das Américas, um cotovelo de 2 ou mesmo 1.ª marcha. Como a sequência de curvas rápidas anterior exige elevada pressão aerodinâmica, não será possível os pilotos manterem-se próximos dos adversários à frente, o que sugere que os carros não vão começar a reta muito perto uns dos outros, dificultando depois a ultrapassagem. De uma modo geral, analisando o layout da pista, sem o DRS, o flap móvel, a manobra será desafiadora, em condições normais.

Obviamente a velocidade nas retas depende de vários fatores. O principal é a opção aerodinâmica escolhida pelo piloto e seu engenheiro. Na média, este ano, a McLaren tem se mostrado muito rápida nos segmentos de aceleração plena. E surpreendentemente a Ferrari também, nas últimas etapas. Definitivamente não é o forte da Red Bull,

Veja o que Tilke me falou sobre o prosseguimento do traçado. “As curvas 13, 14 e 15 relembram a entrada do circuito de Hockenheim no estádio.” É aquela parte em que há grandes arquibancadas no autódromo alemão. “Já as curvas 16, 17 e 18 nos remetem à famosa curva 8 de Istambul Park”, explicou. Amigos, dá para ver que o Circuito das Américas representa, na realidade, um mosaico de soluções dos traçados desenhados pelos arquitetos e engenheiros coordenados por Tilke e outros previamente existentes?

Essa sequência que lembra Hockenheim é de baixa velocidade e breve. Nessa seção específica a diferença entre o monoposto mais eficiente e o menos é relativamente pequena, quadro bem distinto do que possibilitará o trecho que se estende desde a saída da curva 1 até a freada da 11. Neste, especificamente, como descrito, a lógica propõe que a Red Bull conseguirá ser alguns décimos mais veloz que os concorrentes. É uma vantagem considerável.

Nas curvas 16, 17 e 18, na verdade podemos considerar uma curva com três tangências, semelhante a 8 de Istambul e o Sol de Interlagos, pista original, por favor, o maior refinamento e a maior capacidade de gerar pressão aerodinâmica do projeto de Adrian Newey, diretor técnico da Red Bull, devem de novo favorecer Vettel e Webber.

É bem verdade, também, que este ano, em Silverstone, Alonso e Massa disputaram excelente corrida. O espanhol largou na pole position, num treino realizado com pista molhada, e liderou o GP da Grã-Bretanha até quatro voltas do fim, quando foi ultrapassado por Webber. Acabou em segundo. E Massa duelou com Vettel pelo terceiro lugar também. O alemão o ultrapassou na operação de pit stop. A dificuldade maior da Ferrari em

Silverstone foi o pneu macio. Mas a Pirelli levou para Austin os pneus duros e os médios.
Se fizer frio, como a France Meteo anuncia, aquecer os pneus duros pode jogar a favor de algumas escuderias, como a Ferrari, e contra outras, a exemplo da McLaren. A Red Bull está entre as duas nesse quesito, pelo que vimos este ano.

Muitos fatores interferem na perfomance, como vocês bem sabem. Poderia citar, por exemplo, o tempo. A France Meteo, oficial da Fórmula 1, prevê tempo seco nos três dias e competição. Sexta-feira estará nublado e a temperatura vai variar de 8 a 21 graus Celsius. Sábado, céu aberto, mínima de 11 e máxima de 21. No dia da corrida, domingo, o tempo fica de novo nublado, com temperatura variando de 11 a 20 Celsius.

Dentre as muitas razões que eventualmente podem explicar o sucesso ou o fracasso no GP dos EUA está também a obrigação de as equipes entregarem aos comissários, até as 18 horas da sexta-feira, a relação de marchas que vão utilizar no sábado e domingo. Claro que os engenheiros já têm as medidas parciais da pista e realizaram simulações. Devem começar os treinos livres já com bom acerto básico.

Mas, por vezes, o ensaio prático evidencia alguma variável não prevista e os times dispõem de curto espaço de tempo para decidir algo importante. Nem sempre dá certo. Dan Knutson comentou comigo que nessa época do ano o vento é intenso em Austin e esse é um elemento a se considerar na definição da relação de marchas, constituindo outra variável que pode vir a ser importante.

Para resumir, amigos, depois de tudo o que falamos diria que o Circuito das Américas tende a ser um pouco mais favorável a Red Bull, com a Ferrari não tão distante. E depois, num plano levemente inferior, a McLaren e a Lotus. Insisto: de repente, depois da classificação, sábado, o resultado se mostra bem distinto. E antecipo: não será surpreendente por conta das muitas variáveis em jogo, sem referências mais precisas para os engenheiros.

Abraços!

O Circuito das Americas

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