O que penso que irá acontecer agora, depois do anúncio do racha

liviooricchio

19 de junho de 2009 | 10h36

19/VI/09

Livio Oricchio, de Silverstone

Este espaço é para isso mesmo. Opinião também.
Para ser bem objetivo: não acredito que teremos dois campeonatos em 2010. A Fórmula 1, sob a tutela da FIA, e a competição que a Fota anuncia irá promover. Acredito que teremos um só. E seu nome será Fórmula 1.

Quer dizer então que tudo isso que está acontecendo não é real? É. E muito. Na minha visão a intenção de Luca di Montezemolo, da Ferrari, Norbert Haug, Mercedes, Mario Theissen, BMW, Flavio Briatore, Renault, dentre outros, foi uma só: isolar Max Mosley.

Imagine o seguinte: amanhã, sábado, Mosley vai anunciar as 13 equipes que vão disputar a próxima temporada da Fórmula 1. Primeiro: será que ele tem 13 candidatos? Duvido. Muito. Se tiver meia dúzia com estrutura para conceber, construir e colocar para correr dois carros de Fórmula 1 é muito.

Mosley está, agora, completamente isolado. Ainda há pouco, aqui no paddock, os jornalistas questionaram Bernie Ecclestone, abatido como nunca vi, o que ele pensa do racha: “Perguntem ao Max” foi sua resposta. Até Ecclestone já está colocando Mosley no seu canto e responsabilizando-o, principalmente, pelo que se passa.

Na prática, o que vai acontecer agora? As oito equipes da Fota vão trabalhar no projeto dos carros de 2010, ou melhor dar sequência aos estudos, baseando-se no seu regulamento. Imagine que ontem Mosley mandou um recado, estava no paddock quando a notícia chegou, avisando que os novos times, os três que anunciou, Campos, US F1 e Manor, correriam com motor Cosworth sem limitador de giros.

De novo impôs dois regulamentos, um para dez escuderias e um para as três, alegando falta de tempo para a Cosworth retrabalhar seu motor. Nos chamou de idiotas mais uma vez. Me sinto atingido com uma palhaçada dessas. Imagine os representantes das equipes que investem milhões no negócio. A Cosworth regula seu limitador de giros em 18 mil rpm em dez minutos.

Os representantes da Fota foram para Enstone, não distante de onde estamos, na sede da Renault, sabendo já o que iriam fazer. Há traços, senão sintomas claros, de uma psicopatologia já avançada em Mosley. A sede de mostrar, primeiro a si próprio, de que tem poder sobre todos, no melhor estilo da educação que recebeu em casa, já que seu pai, Oswald Mosley, era o líder do British Union of Fascists (BUF), é a responsável maior por tudo o que está acontecendo.

Suas reações doentias foram altamente potencializadas pelo avanço da idade, 69 anos, o rompimento com a Ferrari, a partir da criação da Fota, a tragédia da perda do filho há cerca de um mês, morto por overdose de drogas, e ainda o profundo desgaste mundial diante da divulgação das imagens do escândalo sadomasoquista em que se envolveu.

A proposta de reduzir custos que defende é de aplicação irreal. Controlar despesas numa organização complexa e com envolvimento de fornecedores nos mais distintos países, como a Fórmula 1, é quase impossível. O projeto de conter gastos da Fota, concebido pelas dez escuderias da Fórmula 1, por unanimidade, é muito mais factível, compatível com a filosofia administrativa dos times. Mais ainda do que Mosley, elas sabem quanto custa investir dinheiro na Fórmula 1.

Ainda mais grave foi acrescentar o parágrafo oitavo ao apêndice V do Código Desportivo, o que trata de mudanças nas regras, atribuindo-lhe plenos poderes para fazer o que bem entender. Mosley deveria viver na época dos déspotas. Mas daqueles que tinham poder sobre tudo mesmo. Seria, com certeza, mais feliz, às custas, claro, da infelicidade de milhões, como mostra a história. E cá entre nós, até o presente em alguns casos, ainda.

Quarta-feira, em Paris, haverá a reunião do Conselho Mundial da FIA. Escrevam: será lá onde Mosley perderá suas asas. Até quarta-feira Ecclestone e representantes das equipes, incluindo-se aí as duas que ficaram do lado da FIA nesse conflito, Williams e Force India, vão trabalhar para que em Paris se chegue ao acordo que atenda muito mais os interesses realistas da Fota que a fantasia pessoal de Mosley. Sei o que estou falando.

Não acabou: será o fim, também, de sua candidatura para mais quatro anos na presidência da FIA a partir de outubro, quando haverá nova eleição na entidade. Todos os recentes acontecimentos se desenvolveram sobre um tabuleiro de xadrez. Chegamos a este ponto, ontem à noite: a Fota disponibilizou suas peças de forma fatal. Mosley está em xeque mate!

Tentará como um felino ferido contra-atacar com todas as forças. E causará ainda algum ferimento em quem estiver próximo. Mas não terá vida longa mais no automobilismo esportivo. Ajudou muito a Fórmula 1 a crescer, com sua inteligência e conhecimento de causa, pois foi piloto, dono de equipe, construtor e dirigente. Mas perdeu-se na insanidade de desejar, compulsoriamente, mandar em todos. Por vezes, sem escrúpulos, como na destruição de Ron Dennis.

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