O saldo da reunião de Londres não é negativo para a Fórmula 1

liviooricchio

15 de maio de 2009 | 20h01

15/V/09

Essa postura de desdém de Max Mosley era já esperada. Em contrapartida à eventual não participação de Ferrari, Renault, Toyota e Red Bull no próximo Mundial, o inglês disse ontem que há várias novas equipes interessadas em se inscrever no Mundial.

A maior parte dos representantes dos times queria, ontem na reunião de Londres, que Mosley retirasse o limite de orçamento e sequer cogitasse de novo a idéia de um regulamento duplo, um para quem acatar o teto de investimento de £ 40 milhões e outro para quem não concordar. As escuderias o convenceram de retirar o regulamento duplo, mas não o limite de orçamento.

Ficou acertado que a Fota, a associação das equipes, irá lhe encaminhar nos próximos dias a sua proposta de redução de custos onde não consta teto orçamentário. Por não concordar, ontem, em rever essa imposição, a Ferrari acionou Mosley na justiça. O argumento é simples: desrespeitou o apêndice 5 do Código Desportivo da FIA, que trata das mudanças nas regras do jogo.

Até antes do dia 29 de abril, data do pacotão de Mosley homologado pelo Conselho Mundial da FIA, havia sete parágrafos nesse apêndice. De repente, Mosley inseriu um oitavo parágrafo, sem consultar ninguém, que lhe dá plenos poderes para fazer o que bem desejar com as regras. Ignora o Technical Working Group (TWG), o Sporting Working Group (SWG) e a Comissão de Fórmula 1, os organismos processuais dessas revisões, onde as equipes têm representação.

A Ferrari defende que ele não tem esse direito. E cita, por exemplo, que o parágrafo 8 anula o 7, que atribui plenos poderes ao presidente da FIA apenas nos casos de segurança, o que não é agora o caso. Mosley já avisou que irá recorrer se perder na primeira instância. Quarta-feira, em Paris, será a primeira audiência.

Li nos sites ingleses o que disse Bernie Ecclestone. Ele até acredita que a idéia do limite orçamentário possa ser adotado, desde que os valores sejam outros, mais próximos do nível de investimento desejado pela maioria das equipes. Penso, também, ser possível.

Voltando à arrogância de Mosley, garantiu que o prazo para inscrição das equipes, dia 29 deste mês, maio, não será extendido. “Acredito que teremos entre três e seis inscrições”, afirmou, referindo-se aos times já existentes. Mas, como escrevi, lembrou que há muitos interessados em disputar o Mundial. Considerou estupidez acreditarem que a Fórmula 1 vai acabar sem a Ferrari e citou o caso de Ayrton Senna. Quando morreu, muitos pensavam que haveria enorme perda de interesse pela Fórmula 1.

O saldo do encontro, na minha leitura, não é ruim. Primeiro já numa primeira conversa Mosley concordou em retirar o regulamento duplo. Achei que guardaria para mais tarde. E ele próprio disse estar à espera da proposta da Fota, embora ressaltasse que as regras para 2010 são as que ele impôs. Não penso que será assim.

Ecclestone já assumiu uma postura bem menos pró-Mosley, transformou-se quase num mediador, apenas, dos interesses de Fota e FIA, sem ferir os seus (FOM), claro. Mas se compreender que a coisa vai recrudecer mesmo, ou seja, a ameaça dessas quatro equipes, que devem arrastar outras, de abandonar a Fórmula 1 for mesmo levada adiante, será bem diferente do que falou, ontem, ironicamente, Mosley: “Pode ser mesmo que aconteça isso e elas busquem competições como as 24 Horas de Le Mans, desenvolver motor diesel…”

Nesse caso Ecclestone vai intervir diretamente. Senta com os representantes dos times, sem Mosley, e encontra uma solução de compromisso capaz de atender os interesses de todos. Ecclestone tem cacife e autoridade para isso, com a concordância dos times. Mosley, não. Elas até cederiam bem mais que numa negociação com Mosley. Aí a briga passaria a ser mais Ecclestone x Mosley. E não hesito em acreditar quem vence.

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