O tratamento a Massa e Alonso em Interlagos

liviooricchio

30 de outubro de 2010 | 23h17

30/X/10

Passei as últimas quatro semanas no Brasil, o que não ocorria há bom tempo. Confesso que assistir aos treinos e às corridas de Cingapura, Japão e Coreia do Sul pela TV gerou em mim uma sensação estranha, mas logo assimilada. A experiência me permitiu, também, compreender vários aspectos da reação de parte da torcida em relação a alguns personagens da Fórmula 1.

Pessoas com quem converso, nos mais distintos ambientes, e o teor de muitos comentários no blog me levam muitas vezes a questionar as razões de tanta indignação, reprovação, decepção, para não sair dos “ãos”, bronca e até raiva de certos pilotos. E a dupla da Ferrari parece ser a preferida da maioria dos cidadãos desse universo.

Felipe Massa já saiu da Ferrari umas duzentas vezes. Na transmissão de um desses treinos pela TV, Robert Kubica e Adrian Sutil eram lembrados como candidatos a ocupar a vaga de Massa na Ferrari, como se fosse algo em vias de ocorrer. Quanta leviandade! Não são capazes de pensar um instante nos desgastes que essas informações sem procedência acabam gerando. A coisa toca a casa da irresponsabilidade.

Mas o que mais me impressionou nesses dias de Brasil foi o tratamento dado a Fernando Alonso por parte importante da mídia. O homem parece o demônio em forma de ser humano. Cheguei a ouvir na TV: “Se quebrar o carro ou bater não vou ficar triste não.” É o fundo do poço do jornalismo!

Depois de ver profissionais que nunca vão às corridas, sequer a de Interlagos, expressarem de forma cabal “o que irá acontecer com Massa” e descreverem a personalidade de Alonso com tanta propriedade que nem mesmo pessoas próximas do espanhol seriam capazes, passei a compreender o porquê de tanta rejeição aos dois. Por mais que sejamos livres para pensar, formadores de opinião influenciam de forma direta os fãs de seja lá o que for.

Estamos entrando na semana do GP do Brasil. Tenho bastante curiosidade para ver como alguns torcedores irão tratar Massa e Alonso nos próximos dias.  

Mas enxergo uma diferença significativa na forma como parte dos fãs os leem. A decepção com Massa vem, essencialmente, do fato de acatar a ordem da Ferrari de deixar Alonso ultrapassá-lo para vencer o GP da Alemanha. E com a surpreendente diferença de desempenho imposta pelo espanhol este ano. Poucos acreditam na justificativa dos pneus apresentada por Massa.

Já a bronca de Alonso é mais antiga, remonta ainda ao período de McLaren com Lewis Hamilton. Enquanto foi conveniente manter o segredo do roubo de informações técnicas da Ferrari, ficou quieto. Mas ao compreender que Ron Dennis não iria cumprir o que lhe prometera verbalmente, a preferência na disputa do título com Hamilton, não hesitou em denunciar a espionagem à FIA.

Mais: garante que não sabia da estratégia da Renault no GP de Cingapura de 2008. Nelsinho Piquet bateu de propósito para ele, na estratégia planejada, se aproveitar da entrada do safety car, assumir a liderança da prova e vencê-la. São dois exemplos de ações de Alonso que geraram no mínimo inconformismo em muita gente.

Mas daí nos sentirmos no direito de execrá-lo, passarmos a ver maldade em tudo o que faz …espera aí. Não faz sentido. O mesmo vale para Massa com sua subserviência em Hockenheim. Até porque, ídolos até hoje dessa torcida que pensa assim também tiveram comportamentos questionáveis da mesma forma.

Espero que quem não gosta, simpatiza ou mesmo não aceita Massa e Alonso se limite a torcer por seus adversários. Seria deselegante episódios como os de Hamilton, em São Paulo, em 2008, quando lhe atiraram um gato preto durante uma entrevista a fim de que tivesse azar no GP do Brasil. Só que ele agradeceu por pensar tratar-se de uma mensagem até carinhosa, pois na Inglaterra o gato preto é sinal de sorte.  Quando lhe contaram que a história não era bem assim, acabou por expor a educação dos atores.

Mas imagino que assistiremos a uma sessão de vaias ruidosa e longa em Interlagos, principalmente para Alonso. Agora, que não passe disso, seria no mínimo embaraçante para os organizadores do GP. Os culparão de qualquer ação mais ousada dos fanáticos. Eles existem no mundo todo.

Nos vemos em Interlagos!

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