Outro fracasso da Honda. Por quê?

liviooricchio

23 de março de 2007 | 22h15

“A previsão é de atingir o nível de competitividade de Renault e BMW no início da fase européia do campeonato”, afirmou Nick Fry, diretor-geral da Honda, segundo li no site da revista inglesa Autosport, hoje. Na corrida de abertura do Mundial, Jenson Button largou em 14º e chegou em 15º. Cumpriu um drive through por excesso de velocidade no box, mas não faria, de qualquer forma, muito mais que isso.

Rubens Barrichello obteve o 16º tempo na sessão de classificação, sábado, completou, no domingo, uma volta a menos das 58 do vencedor, Kimi Raikkonen, Ferrari, e recebeu a bandeirada em 11º. Melhor volta de Raikkonen, na 41ª passagem: 1min25s235. Melhor volta de Rubinho, o mais veloz da Honda na prova, 1min28s098, na 17ª. O carro mais rápido do time japonês foi 2 segundos e 863 milésimos mais lento que a Ferrari.

Tudo bem que a diferença de performance entre um e outro não seja exatamente essa, já que nas corridas há fatores que mascaram um pouco a equiparação direta de forças, como a disposição dos carros na pista, mas também não está muito distante da evidenciada pelos números. E é talvez a metade da verificada, já que Fry se refere a Renault e BMW, que o dirigente inglês está prometendo tirar até o GP da Espanha, dia 13 de maio, quarta do calendário.

Não será fácil. Até lá, Renault e BMW, bem como a Ferrari, claro, não vão ficar esperando a Honda se aproximar. Têm, também, extensos programas de desenvolvimento de seus carros. De qualquer maneira, podemos, sim, esperar um avanço da Honda. Lembra do ano passado? Foi o time que melhor trabalhou o carro na segunda metade do ano. Button foi o piloto que mais pontos marcou a partir do GP da Hungria, 13º da temporada, quando venceu.

O que acontece com uma equipe com o histórico da Honda como fornecedora de motores na Fórmula 1, principalmente, e sua capacidade tecnológica e de investimento, ficar tão para trás em relação à concorrência?

Nunca vivi dentro de uma equipe, mas vejo, relativamente de perto, leio e ouço quase tudo de pessoas dessas próprias equipes que, ao longo dos anos , aprenderam a confiar em mim, mesmo sendo jornalista, o que poderia, por vezes, comprometê-las com seus chefes por abrirem o jogo. Essas são as fontes de que disponho para, sem presunção, por favor, expressar minha visão dos problemas da Honda.

O que primeiro chama a atenção é a falta de um líder, um profissional que chame para si a responsabilidade de tomar as principais decisões da equipe. Ou de saber cobrar essas decisões dos responsáveis das várias áreas que compõem a organização de uma escuderia de Fórmula 1. Sem uma liderança forte, esqueça qualquer possibilidade de sucesso. Falta rumo à Honda.

A McLaren só foi o que já foi e está retomando, agora, porque teve e ainda conta com um homem como Ron Dennis. Pode ser arrogante, renunciar seu passado de pobretão, mas que ninguém duvide da sua capacidade de conduzir, e bem, um time.

Em 1979, Dennis era sócio de uma equipe de Fórmula 2, Project Four, por onde corrida Chico Serra, e nas mesmas dependências, na Inglaterra, um engenheiro trabalhava num carro de monocoque preto, estranho. Era o projeto de Dennis para a Fórmula 1 e o técnico, John Barnard, que estudava a introdução dos materiais compostos na Fórmula 1, como a fibra de carbono. Hoje é o material mais abundante nos monopostos da competição. E Dennis fez da McLaren uma organização vencedora.

Há outros exemplos de líderes com grande responsabilidade nas conquistas de seus times. Não precisa ir longe. Na própria Honda, quando se chamava BAR. Qual foi o melhor ano da história da BAR? Resposta: 2004. Por quê? Uma das principais razões foi a mudança de seu diretor-geral, Craig Pollock, homem que foi conhecer a Fórmula 1 em 1996, como empresário de Jacques Villeneuve – antes era professor de esqui, na Suíça – por um profissional no ramo, David Richards. Sabia o que queria. Sabia como atingir seus objetivos. Tinha gana.

Mais que isso: deixou claro para todos que ele mandava lá. Não é pecado exercer liderança. De novo, sem desejar atingir ninguém, mas a impressão que a maioria das pessoas tem ao ver como funciona a Honda é de que Nick Fry não tem essas características. Sempre acessível, educado, elegante, mas, ao que parece,pouco eficiente. De repente vem alguém de dentro do time e diz que essa é uma impressão falsa. Pode ser. Mas não estou falando só por mim.

Veja Flavio Briatore. Sei que há quem pense que foi Michael Schumacher o maior responsável pelas conquista da Benetton, dirigida por Briatore. Não é assim. O italiano tem enorme mérito na gestão do time. Senão, tome o exemplo da Renault. Não vale dizer que foi apenas o talento de Fernando Alonso que levou os franceses ao bicampeonato. Tenho muitas fontes na Renault.

E não é fácil para um francês e um inglês reconhecer a importância de um italiano na condução do grupo. Pois é o que mais ouço de minhas fontes que chegam, em algumas ocasições, a criticá-lo, como domingo em Melbourne, pelas inoportunas declarações a respeito da má performance do estreante Heikki Kovalainen.

Outra macroquestão primordial nessa falta de performance da Honda relaciona-se ao seu departamento de projeto. Acredite se quiser: perguntei ao Rubinho, numa conversa informal, por telefone, em janeiro, qual o nome do coordenador do projeto do RA107, já que não havia lido ainda em nenhuma publicação da Itália e Inglaterra, de minha leitura regular, e tampouco meus amigos da Fórmula 1 sabiam informar com precisão.

O Rubinho me disse que sabia seu primeiro nome, Kevin, mas não podia dizer mais nada por não conhecê-lo. O próprio site oficial da equipe hondaracingf1.com não diz que é o responsável pelo monoposto? Por que escondê-lo? Para mostrar que não há no organograma da escuderia um único engenheiro que se responsabilize pelo projeto, tudo é decidido em grupo?

Onde estou querendo chegar é: repare que as chances de um técnico pouco experiente, ou de histórico não relevante, realizar um trabalho bem-sucedido numa atividade tão complexa como a Fórmula 1 são muito menores que, de repente, o carro nascer sem nenhum problema mais sério. Não é mistério, portanto, o RA 107 deixar as imponentes dependências da Honda em Brackley, Inglaterra, com problemas sérios de equilíbrio aerodinâmico, notadamente.

As coisas se somam: equipe sem liderança forte, sem aquela figura que dita os rumos, que todos confiam, e um coordenador de projeto inexperiente, sem nunca ter feito nada que o credenciasse a liderar a concepção do carro. Repare que não é necessário experimentar o dia-a-dia da escuderia para entender ao menos parte das dificuldades da Honda. É possível, conceitualmente, tendo em conta a receita de sucesso de outras equipes, diagnosticar a possível origem dos problemas.

Essas duas abordagens são suficientes para compreendermos, parcialmente que seja, os fracassos da Honda? Ou não? O que você acha?

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