Parabéns e obrigado, Emerson!

liviooricchio

13 de dezembro de 2006 | 01h04

Os bairros Canindé e Pari, em São Paulo, no início dos anos 60, era um reduto ainda de famílias italianas. Na rua Itaqui e depois na Das Olarias, havia a oficina do Camillo Christófaro, um dos grandes pilotos da época. Em 1966, em dupla com Eduardo Celidônio, venceu com sua lendária carretera número 18, em Interlagos, a mais importante corrida do País, as Mil Milhas.

O bairro só falava na conquista do Camilão, cujo filho, Camilinho, fazia o então primário comigo no Colégio São Antonio do Pari. Vibrei como nos títulos do Palmeiras da Academia, na sequência desse período. Eram duas paixões de muitos dos que residiam por lá. Meu pai também se interessava por automobilismo e, vez por outra, me levava a Interlagos.

Tenho imagens na minha memória de um DKW branco, número 10, pilotado por Bird Clemente, nome que nós, meninos, com apenas 10, 12 anos de idade, ouvíamos falar e tínhamos como verdadeiro mito, além, claro, da idolatria pelo Camilão. As Berlinetas Interlagos da equipe oficial da Willys, então, nem pensar, como máquinas representavam o máximo. Há pouco, na casa do Bird, ele me mostrou seu álbum de fotos. Comovente!

Foi nesse meio de paixão pela velocidade, preparação dos carros, não em busca de um super-som ou uma pintura capaz de emitir raios, mas de velocidade, que cresci. Nosso sonho de consumo era ver de perto, que fosse, carros que acelerassem de verdade, seus motores soassem alto, denotando potência, e, acredite, cantassem os pneus. Uau!

Por uma combinação de razões, não é o caso de discutir isso agora, o automobilismo brasileiro perdeu força no fim dos anos 60. Um rapaz nem tão moleque assim, tinha já seus 22 anos, viajou para a Inglaterra, em 1969, a fim de disputar uma categoria criada três anos antes e fazia, como escola preparatória, grande sucesso: a Fórmula Ford.

Naquela edição de 1966 das Mil Milhas, esse rapaz, com apenas 20 anos, liderava com seu DKW Malzone até cerca de meia hora antes da bandeirada, em dupla com Jan Balder, quando um problema no motor o fez cair para terceiro. Era o filho do criador e promotor da prova. Chorou como criança. Lancei este ano o livro sobre os 50 anos das Mil Milhas. A pesquisa sobre essa edição em particular do evento me emocionou.

O tal do rapaz chama-se Emerson Fittipaldi. Hoje, ainda é dia 12, comemora 60 anos de vida, intensamente vividos. No fim de 1969, Emerson já havia conquistado os títulos da Fórmula Ford e da Fórmula 3 britânicas, na primeira temporada no exterior, sem conhecer nada, sem falar a língua, sem ter dinheiro, sem precisar recorrer às conhecidas desculpas para nada.

Aquela turma toda que pulsava com as corridas de carro alguns anos antes em Interlagos tinha agora um outro ídolo, capaz de vencer até na Inglaterra, nação onde até hoje o automobilismo melhor se expressa. Imagine o que aocnteceria se esse ídolo da meninada, já entrando na adolescência, viesse correr no Brasil…

Foi o que aconteceu no fim naquele ano, 1969. O País recebeu uma temporada internacional de Fórmula Ford. Havia cerca de dois anos que Interlagos estava literalmente abandonado. A Prefeitura realizou uma reforma no autódromo para sua reabertura em grande estilo.

Sinto-me em condições de recordar cada instante daquela prova. Interlagos lotado. Ah, a ponte sobre o rio Pinheiros era estreita, uma faixa de rolamento apenas de cada lado, formou-se uma fila imensa de carros. Saí do ônibus que não andava e, a pé, cheguei a um dos portões de entrada. Mesmo bem cedo, já havia milhares de pessoas. Nada por demais diferente do interesse que hoje desperta o GP do Brasil de Fórmula 1. Mas estamos falando de Fórmula Ford.

A vitória do Emerson levou aquela geração de apaixonados por automobilismo à loucura. O trânsito completamente parado no fim da corrida obrigou milhares a deslocarem-se a pé até áreas que se estendiam por quilômetros distante de Interlagos. O automóvel não era um bem de consumo como hoje. Andávamos de ônibus mesmo. E a idade dos fãs de Emerson da minha turma variava de 13 a 16 anos de idade.

Jornais e revistas especializadas eram consumidos com voracidade. Era o nosso único contato com a trajetória do ídolo na Europa que, já no ano seguinte, 1970, estreou na Fórmula 1. Pela Lotus, meu Deus! Aí fomos ao delírio. E o que não ocorreu no dia 4 de outubro daquele mesmo ano quando nosso agora herói venceu o seu primeiro GP, em Watkins Glen, no estado de Nova York, nos Estados Unidos? O próprio Emerson me contou, em 2000, 30 anos depois, no seu escritório, todos os detalhes daquela epopéia.

Emerson não deixou mais de fazer sucesso. No ano seguinte, 1971, pela primeira vez passou-se a utilizar pneus slick na Fórmula 1. Ofereciam tanta aderência que o chassi do modelo 72 da Lotus fletia, causando-lhe instabilidade. O problema só foi resolvido no campeonato seguinte com a reestruturação do 72. E o carro ficou fantástico. Emerson mostrou sua competência e conquistou o primeiro título mundial.

Lá estava eu, lógico, aguardando o nosso herói no aeroporto de Congonhas, no fim de 1972, depois de tornar-se campeão do mundo. Ele usava um terno bege claro e uma gravata azul, lembro-me como se tivesse passado hoje. Maria Helena com seu tradicional chapéu o acompanhava. Subiram num caminhão de bombeiros e logo os perdi. Fiquei frustrado.

Se eu continuar escrevendo aqui, vai raiar o dia e eu estarei ainda diante do computador. O que me parece mais importante deixar claro não é a idolatria de mais de uma geração pelo pioneiro, ao menos o pioneiro que realmente fez sucesso no exterior, mas a sua importância para a história do automobilismo no Brasil.

Por conta de seu sucesso, várias outros pilotos representantes do País embarcaram para a Europa. O modelo está em curso até hoje. Já conquistamos títulos em praticamente todas as categorias existentes no Velho Mundo. Não contente, Emerson mostrou o caminho das pedras também na América do Norte, a partir de 1984, quando voltou a correr por prazer e necessidade.

As corridas nos Estados Unidos representam outra opção para os brasileiros depois de o nosso herói ter conquistado o título da Cart, em 1989, e vencido duas vezes a corrida mais famosa do mundo, as 500 Milhas de Indianápolis, em 1989 e 1993.

Tanto na Europa quando na América do Norte os seguidores dos caminhos de Emerson já fizeram, da mesma forma, enorme sucesso. Não há exagero algum em se afirmar que se não fosse a inciativa e a competência de Emerson não existiriam, provavelmente, Nelson Piquet, Ayrton Senna, Rubens Barrichello, Felipe Massa, Gil de Ferran, Cristiano da Matta, Tony Kanaan e Helio Castro Neves, dentre tantos outros pilotos brasileiros extremamente capazes.

Por aqui, surgiram autódromos em vários estados, preparadores de carros, motores, o automobilismo profissionalizou-se. Tudo isso como decorrência do trabalho vitorioso de Emerson e seus discípulos fora do Brasil. É um crime reduzir a importância do nosso herói a essas descrições, mas como disse entraríamos mais na classificação de ensaio e não post de um blog, como é o caso, se nos estendêssemos ainda mais.

Não dá para falar no pioneiro sem chegarmos no verdadeiro pioneiro. Wilson Fittipaldi, o pai de Emerson, o Barão. Nos anos 30, começou trabalhando na rádio Excelsior como locutor. Passou para a rádio Pan-Americana onde, além de locutor de corridas no recém-inaugurado autódromo de Interlagos, em 1940, passou a promover os eventos.

Enviado para Bari, na Itália, em 1949, a fim de narrar a participação de Chico Landi na competição, vencida por ele no ano anterior com Ferrari, Wilson Fittipadi assistiu à largada da Mille Miglie italiana, disputada por estradas do País. De volta ao Brasil, promoveu e organizou, em 1956, em Interlagos, a primeira edição das Mil Milhas Brasileiras, no dia 24 de novembro.

Nos treinos livres da prova, a pedido do seu filho Emerson, com 9 anos, Wilson Fittipaldi solicitou a seu amigo e grande piloto da época, Catharino Andreatta, para levar Emerson dar um volta em Interlagos na sua famosa carretera Ford número 2. “Se segura aí onde dá guri que eu vou acelerar, hein?” disse o gaúcho, segundo me contou o Barão na pesquisa que fiz para redigir o livro sobre os 50 anos das Mil Milhas. Catharino venceria a corrida.

Foi o primeiro contato real de Emerson com a velocidade. O mais bonito. O mais virulento. O mais profundo. O gerador de todos os desdobramentos. Para ele próprio, para o automobilismo brasileiro e para milhares de seus fãs no mundo todo, como eu. Uma das razões principais de desejar seguir a carreira de jornalista especializado em automobilismo. Sinto-me um privilegiado por ser profissional na área que, junto da aviação, mais me atrai dentre todas as demais.

Parabéns e obrigado, Emerson!

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