Parabéns, Leão, pelos 60 anos!

liviooricchio

08 de agosto de 2013 | 19h25

08/VIII/13
São Paulo

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Sempre que numa conversa sobre automobilismo surge o nome de Nigel Mansell é quase inevitável os envolvidos sorrirem. Não que esse controverso e rico personagem da história do esporte a motor seja motivo de chacota. Mas sua trajetória nas pistas combina a velocidade extraordinária com várias passagens bizarras, para se dizer o mínimo, que pareciam acontecer só com ele. Numa coisa porém há unanimidade: Mansell é um coração mole.

Em outras palavras, um grande ser humano. Essas razões mais que justificam os seus 60 anos, celebrados nesta quinta-feira, serem lembrados por ingleses, os conterrâneos, onde é ídolo ainda hoje, e por torcedores no mundo todo.

Não é possível falar de Mansell relacionando apenas suas grandes conquistas, como as impressionantes temporadas de 1992, campeão na Fórmula 1, pela Williams, aos 39 anos, e na estreia na Fórmula Indy, no ano seguinte, com a Newman-Haas. Nem tampouco somente citar suas 31 vitórias na Fórmula 1, quinto maior de todos os tempos, 32 pole positions e 30 melhores voltas. Junto desses dados estatísticos notáveis, é necessário recordar algumas das suas experiências únicas.

Por exemplo: depois de vencer o GP da Áustria de 1987, com Williams, uma camioneta o levou para o pódio. Sem perceber que havia uma viga no paddock atravessando o caminho, não se abaixou e sua cabeça, sem capacete, a acertou em cheio. Recebeu o troféu no pódio com a mão esquerda sobre o ferimento. Também diante de milhões de telespectadores Mansell teve de receber assistência médica depois do pódio do GP do Brasil de 1989, no Rio de Janeiro. O inglês ganhou a corrida da estreia na Ferrari, mas movimentou o troféu bem mal acabado bruscamente e cortou as duas mãos. Recebeu os aplausos do público movimentando as mãos a fim de reduzir a dor dos cortes.

Nelson Piquet foi companheiro de equipe de Mansell na Williams nos campeonatos de 1986 e 1987. E comentava com os jornalistas não entender a alegria de Mansell ao falar de onde residia, em Port Erin, na Ilha de Man, litoral inglês. “Lá ou está frio ou chovendo. Não há outro clima.” Mas Mansell se identificava tanto com a pequena ilha que se tornou voluntário da polícia local nas rondas por sua cidade. E gostava de ver sua foto fardado publicada.

A esposa de Mansell, Roseanne, da mesma forma era figura central nos comentários de Piquet. “Feia demais”, dizia o carioca, na época um namorador emérito. Mansell casou aos 21 anos, quando competia na Fórmula Ford, na Inglaterra, e Roseanne vendeu a casa que residiam, herança da sua família, para o marido prosseguir a carreira e passar para a Fórmula 3. “Não há esposa melhor do que a minha”, declarou no GP do Brasil de 1987. Até hoje estão casados e têm dois filhos, Greg e Leo. Tentaram ser pilotos também e chegaram a disputar as 24 horas de Le Mans com o pai, em 2010. Mas não têm o mesmo talento.

Personagem tão particular não poderia não ter suas idiossincrasias. “No flashes, please”, dizia Mansell aos fotógrafos em frente aos boxes da Williams. E para os menos avisados, mandou a equipe carregar um cartaz e fixá-lo em todas as provas próximo de onde trabalhava, nos boxes. “Sou foto-sensível a essas luzes e depois me atrapalham quando estou no carro”, explicava, pacientemente.

Quando voltou a pilotar na Fórmula 1, em 1994, foi testar o carro da Williams no autódromo do Estoril, pois estava acostumado com os da Fórmula Indy, onde permaneceu duas temporadas. O box do lado do time inglês, não ocupado, tinha tapete, sofá e poltronas. “Foi uma exigência de Nigel”, disse ao Estado um integrante da escuderia.

Quando o repórter lhe perguntou sobre as diferenças entre pilotar o carro da Indy e o da Williams Mansell o convidou a entrar nos box-sala de visita e com gestos professorais, embora sem didática, procurou explicar as mudanças necessárias nas formas de condução. A imagem de bonachão institucionalizou-se de vez dentre os que acompanharam seu treino.

“Uma pessoa que desconhece a maldade e a malícia”, assim o definiu para o Estado o australiano Peter Collins, ex-sócio da Lotus, grande amigo. A Fórmula 1 assistiu nos dias do GP da Itália de 1992, em Monza, a uma cena insólita. Obviamente Mansell a protagonizou. O inglês chamou a imprensa para anunciar que iria se transferir para a Fórmula Indy. Um choque. Mansell acabara de conquistar o título mundial. “Frank quer me pagar menos para disputar o próximo campeonato do que ganho hoje”, afirmou, com a sinceridade que o caracteriza, para espanto de todos.

Mansell é um cabeça dura, no bom sentido. As pistas lhe deram vários sinais par repensar seu rumo profissional, mas não desistiu. A fratura de vértebra na Fórmula Ford, em 1977, de outras vértebras na Fórmula 3, 1978, e mais ainda na Fórmula 1, em 1987, não o fizeram deixar de lado a paixão pela velocidade. A passagem que mais leva o fã a associar Mansell a determinação é o inesquecível desmaio metros antes da linha de chegada do GP dos EUA, em Dallas, em 1984.

Largou na pole position, com Lotus, e na última volta era o quinto colocado, depois de liderar parte da prova, quando tocou o muro. A fim de marcar pontos, saiu do carro e o empurrou até a linha de chegada. Mas os 40 graus ambiente o haviam deixado exausto. Resultado: desmaiou do lado da Lotus. Mas marcou um ponto com o sexto lugar. “Um leão”, afirmavam os ingleses, ratificando o apelido.

Parte dos profissionais da Fórmula 1 e mesmo fãs costumavam brincar com seu pronunciado bigode, marca registrada do piloto. Em 1995, quando abandonou a Fórmula 1, ao compreender não ser mais competitivo, na McLaren, cortou o bigode. No último GP da Grã-Bretanha, em Silverstone, ainda respondeu sobre como se sentia sem o bigode.

Os tempos em que Roseanne se submeteu a residir com o marido numa casa de aluguel a fim de Mansell competir na Fórmula 3 fazem parte do passado e o piloto não se importa em contá-la. Hoje é um bem sucedido empresário. Possui um clube de golfe em Devon, na Inglaterra, dentre outros empreendimentos, e como mandam os genes de elevado desprendimento do seu DNA preside uma das maiores instituições beneficentes da nação, o UK Youth.

Parabéns, grande Nigel Mansell!

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