Parabéns, Nelson! 60 anos muito bem vividos!

liviooricchio

17 de agosto de 2012 | 16h05

17/VIII/12

Livio Oricchio, de Nice.

Olá amigos!

Escrevo do calor de Nice, novamente. Não que em São Paulo estivesse diferente. A semana que passei no Brasil, apesar do inverno, mais me pareceu o verão.

Nos três últimos dias cuidei dos meus interesses pessoais em São Paulo e precisaria de pelos menos outros três para dar andamento a tudo o que necessito. Como a data da viagem de regresso à França já estava marcada desde o ano passado, acabei por seguir a programação.

Vou ler agora os comentários no blog com a mesma atenção de sempre e, dentro do possível, respondê-los até segunda-feira, quando irei redigir o último capítulo da nossa retrospectiva de meia temporada. Será sobre a equipe Williams.

Não o faço agora por termos um tema mais palpitante, batendo à porta de nossa alma, capaz de nos deixar inquietos, desejosos de contar algumas experiências vividas com ele que hoje completa 60 anos, Nelson Piquet.

Lembro-me com precisão a primeira vez que vi Piquet. Foi da tela que separa a arquibancada de Interlagos da pista, em 1974. Os carros da Fórmula Super Vê, criada com sucesso naquele ano, alinhavam para a largada. Minha paixão por automobilismo é mais antiga, desde que meu pai me levava a Interlagos nos anos 60. Na época da Super Vê eu já estava saindo da adolescência e meu entendimento da competição, do mundo, da própria vida já era outro.

A imagem que tenho é a de um chassi Polar, cor azul, e a confirmação do que lia nas revistas daquele tempo, Quatro Rodas e Auto Esporte, e nos jornais -.a Super Vê tinha bom espaço na mídia: “Piket” seria mesmo um grande piloto. Acompanhei com bem mais proximidade o campeonato de 1976 de Piquet na Super Vê, na profissional equipe Gledson. Foi campeão.

“Nessa época eu morei em São Paulo, num hotel em frente ao aeroporto de Congonhas que era horrível”, contou-me já “Piquet” numa das muitas conversas que tive desde que me tornei jornalista especializado em automobilismo.

Em 1991, no GP dos EUA, em Phoenix, já na Fórmula 1, pela Benetton, Piquet me contou: “No meu primeiro ano na Europa comprei um chassi March para disputar o Campeonato Europeu de Fórmula 3. Só que os carros da Ralt ainda eram mais rápidos ou mais capazes de dar resultado”. Piquet trocou o chassi durante a temporada para terminar seu primeiro ano no exterior na terceira colocação. A equipe era ele, um mecânico, um carro e uma carreta.

Tá certo que o automobilismo era outro, só o talento significava muito, diferentemente de hoje onde apenas a habilidade não é uma garantia de conquistas. É necessário ser veloz, saber administrar uma corrida e, sem choro e nem vela, contar com uma boa equipe por trás.

Se um carro tem potencial para virar, digamos, 1 minuto e 25 segundos numa pista, o melhor dos pilotos fará 1min24s e 5 décimos. O último meio segundo vem da eficiência do time, de como o monoposto é preparado, ajustado para a prova, da eficácia de seu sistema de telemetria e dos engenheiros interpretarem os dados apurados.

E meio segundo no esporte a motor, hoje, corresponde à diferença entre o sucesso e o fracasso. É por essa razão que é tão difícil julgar o trabalho de um piloto nas categorias de formação. Há muito mais fatores interferindo no que poderá conseguir, não basta apenas ser talentoso.

Pois Piquet era talentosíssimo e cresceu no automobilismo onde isso era o que mais contava. Não é tudo: apesar de nascer numa família rica, aceitou encarar o desafio de correr na Europa sem impor a menor condição de qualidade de vida. Colocava a mão na graxa e se submetia a todo tipo de sacrifício para atingir seu objetivo final, chegar à Fórmula 1 e vencer.

Vale a pena reproduzir um trecho de uma conversa que tive com Piquet em 2003, sobre Nelsinho disputar a Fórmula 3 Britânica, em 2004. “Vou montar minha própria equipe, como eu fiz quando fui para a Inglaterra”, disse-me. Perguntei: “Você acha que a Fórmula 3 hoje é semelhante à de seu tempo?”. Ele: “Não, não é. Mas não vou ficar na mão desses caras (donos das escuderias). Não tem segredo também. Basta pegar os caras certos e a coisa funciona. Você tem muito mais condição de interferir se não está dando certo, ao passo que se pagarmos para o Nelsinho competir numa equipe eles decidem tudo e você só assiste.”

O esquema de Piquet deu certo, para surpresa de muita gente, dentre elas eu. Acreditava ser necessário um tempo maior para enfrentar e vencer escuderias há muito estabelecidas na Fórmula 3 Britânica, com referências profundas de todas as pistas e conhecer bem a base dos projetos da Dallara.

“Vou fazer o mesmo na GP2”, afirmou Piquet. Mas aí eu já não duvidava de que poderia lutar pelo título já no primeiro ano. Não foi o caso. Ficou para a segunda temporada. Conto isso para mostrar um pouco como é o caráter de Nelson Piquet. Ele tem consciência dispor de conhecimento, reconhece a necessidade de atualizar-se e não hesita em investir pesado nos seus projetos.

No início dos ano 90, Piquet colocou um caminhão de dinheiro na formação da empresa Autotrac, destinada a rastrear veículos de frota numa nação onde o roubo de carga já faz parte da rotina na sociedade e não representa um crime isolado, raro. Num papo com Piquet, fora do ambiente da Fórmula 1, disse: “Eu ia colocando dinheiro, colocando e o meu cash abaixando, perigosamente. Chegou um ponto que eu entrei na reserva. Tinha vários imóveis, verdade, mas cash mesmo estava quase tudo ali, na formação da Autotrac”.

Além de excepcional piloto Piquet revelou ser um empresário arrojado, corajoso e de visão. O negócio deu certo. Costumava frequentar quando vivia no Brasil encontros de aviadores, outra das minhas paixões, e nesse meio bater um papo informal com Piquet era bem mais fácil. Quando Nelsinho passou a competir na GP2, preliminar da Fórmula 1, os encontros com Piquet passaram a ser frequentes. Em algumas ocasiões, como na China, em 2009, permanecemos quase duas horas conversando. Falou-me muito de seu filho mais novo, Marco, hoje com 12 anos.

Voltando aos negócios, Piquet me disse uma coisa que ficou marcada: “Livio, eu sou o único piloto campeão do mundo que ganhou muito mais dinheiro depois de abandonar a Fórmula 1 do que enquanto pilotava. E olha que os caras depois do meu primeiro título me pagavam bem, em especial em 1988, quando fui para a Lotus”. Sabe quanto Piquet ganhava nos três anos inciais de contrato com a Brabham? Acredite: o fixo era US$ 50 mil por ano, mais determinado valor por ponto e conquista.
Nos 50 anos de Piquet, em 2002, ouvi Ecclestone, que comentou: “Meus problemas com Nelson começaram quando acabou aquele contrato, em 1981, e ele tinha vencido o campeonato. Tive de passar a pagá-lo bem mais”.

Herbie Blash, diretor esportivo da Brabham e hoje vice de Charlie Whiting na direção das corridas, me contou: “Eu tenho pavor, fobia por cobra, répteis dessa natureza. E num treino particular da Brabham, em Paul Ricard, quando fomos almoçar, meu prato estava coberto por outro. Pensei que fosse para não esfriar. Naquele tempo a Fórmula 1 era bem diferente. Não havia esses motorhomes luxuosos, não havia nada. Comíamos segurando o prato na mão nos boxes”, descreveu.

Continuou: “Eu tirei o prato que cobria o meu e onde deveria haver comida havia um monte de minhocas se mexendo. Nunca vou esquecer, aquilo me transformou. Passei mal. Não perdoei Nelson por bons meses. Mas ele era sempre assim, seu senso de humor, único. Tínhamos, no entanto, de por vezes saber nos controlar por ele jogar pesado. É uma pessoa querida e um grande piloto.”

Voltando à questão dos filhos. Ouvi de Gerhard Berger algo também único. “Nelson tem sete filhos de três casamentos e pelo que me parece dois nasceram num curto espaço de tempo de duas mães distintas. Acusem o Nelson do que quiser quanto a ser namorador. Mas é o cara mais responsável com os filhos que já conheci. Nelson me lembra as galinhas, que gostam de ter todos os pintinhos debaixo das suas asas”.

Piquet ficou tão feliz com a contratação de Nelsinho pela Renault, em 2008, que lhe deu um Cessna Mustang, jato executivo, para compor com o seu Cessna Citation X, o jato mais veloz do mercado, excepcional aeronave, sua frota particular de alta performance. Piquet tem, na realidade, uma coleção de aeronaves, todas voando, e sob os cuidados do querido irmão Geraldo, mais velho.

Estou no aguardo de Piquet me chamar a Brasília para produzir uma reportagem sobre o seu espetacular Stearman, biplano de treinamento da Força Aérea Norte Americana nos anos 30. Nós dois voaríamos no Stearman.

Em 2003 fui contratato pela RAI, a TV italiana, para produzir em dezembro, nas minhas férias, um programa especial sobre os dez anos da perda de Ayrton Senna, a serem lembrados na temporada seguinte. Fui com a equipe italiana de TV para Brasília. Conversei com o Piquet antes e organizei tudo. Fomos recebidos como amigos.

Disponibilizou a casa na fazendo modelo no Lago Sul de Brasília e o helicóptero para a repórter e eu nos deslocarmos no autódromo para a fazenda, onde no sábado havia um feijoada. Nelsinho disputava naquele fim de semana uma etapa da Fórmula 3 Sul-Americana no autódromo de Brasília. Assisti à prova ao lado do Piquet, com ele comentando comingo cada passo do filho na pista.

A corrida foi transmitida ao vivo na TV. Piquet e Nelsinho confiavam tanto no seu conhecimento do seletivo traçado de 5.475 metros, bem como no ajuste perfeito do carro, pois treinavam sempre lá, que decidiram oferecer um show. Quando terminou a volta de apresentação, Nelsinho, pole position, entrou nos boxes. Inventaram que era para checar algo “estranho” no Dallara. Na realidade era apenas para esperar a corrida começar, largar em último e, nos seus planos, vencer.

Não deu certo. Nelsinho começou a perder alguns décimos atrás de um adversário, não me lembro o nome, e ao forçar a ultrapassagem tocou no concorrente, fazendo-o rodar. Nelsinho acabou punido.

A vida de Piquet sempre foi marcada por episódios dessa natureza. Até mesmo na Fórmula 1, junto de Gordon Murray, na Brabham, inventavam das suas. Em 1981 a então Fisa, braço esportivo da FIA, não mais existente, estabelecer altura mínima para o assoalho dos carros.

Murray e Piquet desenvolveram um sistema hidráulico que abaixava a Brabham na pista e depois, ao regressar aos boxes, observava o exigido pelo regulamento. Em 1982, instalaram um tanque de água no carro, com cerca de 40 litros, para oficialmente “resfriar os freios”. Como as regras permitiam reabastecer os líquidos do carro depois da corrida para a pesagem, Murray e Piquet enchiam o tanque antes da largada, logo depois o piloto apertava um botão e liberava a água no asfalto e disputava a prova com cerca de 40 quilos a menos.

Piquet venceu o GP do Brasil de 1982. no Rio, ao recorrer a esse recurso. Bem como o segundo colocado, Keke Rosberg, da William. Mas os comissários descobriram a artimanha e desclassificou os dois. A vitória ficou com Alain Prost, da Renault turbo.

Vou contar uma história aqui que, com certeza, vai gerar polêmica. Não são poucos os que consideram a ultrapassagem de Piquet, com Williams, em Senna, Lotus, em 1986, em Budapeste, com uma das mais sensacionais da Fórmula 1. Vocês sabiam que o Piquet não demonstra grande entusiasmo com a manobra? Em 2005, com o Nelsinho na GP2, estava no paddock da categoria, no circuito húngaro, conversando com o Piquet.

Pedi para irmos até a curva 1 para eu fazer uma foto dele lá me explicando como foi a ultrapassagem sobre o Senna. Aquilo iria gerar uma reportagem para o Estadão. O Piquet veio com essa: “Para com isso, Livio. Foi uma ultrapassagem normal. Eu atravessei a Williams, precisei frear forte, quase parei o carro, caso contrário não faria a curva. O cara não saía da frente, eu estava àquela altura mais rápido, tinha de tentar aquilo. Em 1981 e 1983 fiz ultrapassagens em velocidade bem maior que aquela e as pessoas não se lembram”.

Obviamente que foi uma demonstração de elevada habilidade do Piquet, na curva 1 de Hungaroring, mas não vejo também como algo para entrar na antologia da Fórmula 1 como vários fãs dizem. Espetacular sob todos os pontos de vista, mas não dentre as maiores de todos os tempos, como costumo ler e ouvir. A velocidade de contorno da curva 1 não é elevada. E muito mais importante do que eu ter essa visão é a leitura do próprio autor. Questão de opinião.

Acho que nunca contei o que aconteceu na sequência. É muito legal.

O Piquet passou a mão sobre o meu ombro e disse: “Em vez de você querer me levar lá até a curva 1, com esse calor e do jeito que eu ando devagar, vou te dar uma bomba. Isso sim é notícia. Conversei com o Bernie (Ecclestone) hoje e ele me garantiu que o Rubinho assinou com a BAR que vai se chamar Honda no ano que vem. E a Ferrari o liberou do contrato de um ano que ele teria ainda lá. Pode escrever que eu banco. Quem me contou sabe das coisas”.

Saí do paddock da GP2 e procurei Ecclestone, no seu motorhome. Guardei campana lá. Ao vê-lo, discretamente perguntei se procedia a história de Piquet. E a reposta que obtive foi: “It is already done”, ou seja, o negócio já está fechado. Não é que não confiava no Piquet, mas publicar uma informação bombástica dessa e não ser verdade pesaria para mim. Precisava de uma segunda fonte.

No dia seguinte foi a manchete do caderno de esportes do Estadão.

Bem, eu poderia ficar horas aqui lhes repassando algumas experiências vividas com esse piloto que classifico dentre os maiores da história da Fórmula 1. Mas deixemos para quando ocorrer algo que justifique um passeio como o de hoje. E torçam para o Piquet encontrar logo um tempo para voar no seu Sterman comigo. Já imaginou eu gravar as imagens com som do voo e colocar no ar aqui no blog, com o Piquet descrevendo nossas manobras?

Parabéns, Nelson! Pessoalmente o chamo de Nelson e não de Piquet.

Abraços, amigos!

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