Petrov, o czar das pistas

liviooricchio

04 de fevereiro de 2010 | 20h44

04/II/10

Amigos, cheguei apenas agora aqui em casa, em Nice. Foram 12 horas de estrada, a maior parte do tempo com chuva. Desculpe não ter disponibilizado os comentários antes, não havia como. Amanhã farei um longo texto contando as experiências do terceiro dia em Valência e respondendo as muitas perguntas feitas nos comentários. Vou tomar o banho dos justos e comer alguma coisa. Nos falamos amanhã. Ah, veja se vocês gostam desse texto que escrevi quarta-feira à noite, sobre o Vitaly Petrov. Ele foi extremamente gentil e simpático comigo, depois de atender a muitos jornalistas na coletiva.
Abraços!

Fossem outros os tempos, “os bons tempos”, como diriam os comunistas mais radicais, a sorte de Vitaly Petrov, russo, 26 anos, estava selada. Para um desertor só há uma saída: a pena capital. Petrov é agora piloto de Fórmula 1. Até já treinou em Valência, quarta-feira, por sua equipe, a Renault. E nada é mais representativo para expressar o capitalismo, tão execrado na pátria de Petrov até há duas décadas, senão o conceito básico da Fórmula 1: quem tem dinheiro se estabelece; quem não tem vai andar de Lada, o espartano carro russo.

“Felizmente o mundo mudou. Está bem melhor agora”, diz o sempre sorridente “primeiro piloto russo na Fórmula 1”, vice campeão da GP2, a ante-sala da Fórmula 1. Repetiu algumas vezes nessa conversa com O Estado ser, agora, “um piloto de Fórmula 1, o primeiro da Rússia”. Não por acaso, foi acelerando o Lada do pai que Petrov, emViburg, na Russia, demonstrou habilidade e, depois, interesse pela carreira de piloto de corrida. “Não havia outra opção, no meu país não há kartódromos, autódromos. Espero que agora, depois de ter um piloto na Fórmula 1, comecem a trabalhar para desenvolvermos o esporte a motor”, diz Petrov. Mais: “Tenho certeza de que agora a Russia fará parte do calendário da Fórmula 1.” Bernie Ecclestone, promotor do Mundial, há muito deseja levar o evento para lá.

É um contracenso: a Rússia teve durante décadas tecnologia para enfrentar os norte-americanos, e em algumas áreas os superava, como na capacidade dos submarinos atômicos, tão letais, de navegar em águas profundas. Mas não tem automobilismo interno até hoje, depois do fim do comunismo. “O problema não é de tecnologia, mas de interesse”, explica Petrov. Mas agora que se tornou “piloto de Fórmula 1, o primeiro russo”, poderá servir de estímulo e exemplo na sua pátria, lembra.

A notícia ganhou tamanha dimensão na Russia que “o primeiro piloto russo na Fórmula 1” terá uma audiência com o primeiro ministro Vladimir Putin, emérito judoca, antes de sequer estrear na competição. “O verei, sim”, confirma Petrov, já merecedor do tratamento de celebridade. O simpático piloto ri. “Existe uma expectativa enorme na Russia, agora, por eu ser um piloto de Fórmula 1. Se bem que em minha cidade o carinho dos torcedores com o vice na GP2 foi grande.” Boa parte dos 120 milhões de russos vão assistir às transmissões da Fórmula 1 pela TV agora.

O número de jornalistas presente no circuito Ricardo Tormo, quarta-feira, para cobrir o primeiro treino de Petrov na Renault chamou a atenção. Até as redes de TV não credenciadas, por não terem direito de imagem de Fórmula 1, em razão de não pagarem os direitos, foram a Valência e mantiveram-se do lado de fora do autódromo para entrevistar Petrov. Solícito, atendeu a todos. E depois requisitaram licença à assessoria da Renault para gravar imagens do “primeiro piloto russo na Fórmula 1” na cidade espanhola. Por um motivo simples: “Eu moro aqui”, contou Petrov.

Em inglês e até nos ensaios de espanhol que realizou para falar, Petrov fez sempre questão de desmentir a informação que circulou como verdadeira: “Não há investimento do governo russo na minha contratação pela Renault. Alguém viu patrocinador russo no carro? E estou, sim, atrás de patrocinadores, se vocês souberem de alguém?”, diz, se divertindo.

E afirma algo surpreendente: “Meu pai fez um grande empréstimo bancário para eu poder correr.” Comentava-se no paddock do circuito de Valência que Petrov levará à equipe, até o fim da temporada, 10 milhões de euros. Assunto proibido, claro, na conversa. “Não sou o primeiro caso. O inglês Justin Wilson fez o mesmo.” Wilson é piloto da Fórmula Indy há anos, já pagou o empréstimo e até conseguiu já acumular seu capital. O repórter do Estado lembra a Petrov que Niki Lauda, em 1971, fez da mesma forma empréstimo bancário para custear a carreira. Viria a conquistar três títulos mundiais na Fórmula 1, em 1975, 1977 e 1984. “Tomara eu consiga o meu.”

Se depender de dedicação, Petrov pode se considerar um vencedor também. “Aqui até meu celular fica desligado, o tempo todo. Se eu não colocar 100% da minha energia para aprender não farei um grande trabalho”, afirma, com determinação, “o primeiro piloto russo na Fórmula 1”. De quarta-feira até sábado Petrov vai estar com a Renault na segunda série de testes, em Jerez de la Frontera, na Espanha.

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