Por que Massa está disputando início de campeonato tão difícil?

liviooricchio

27 de março de 2008 | 05h58

27/III/08

A pergunta que muitos brasileiros e até estrangeiros se fazem é: por que Felipe Massa está disputando início de campeonato tão difícil? Como quase sempre acontece, não existe um fator único capaz de explicar, mas uma combinação de elementos.

O principal deles, a meu ver, chama-se Kimi Raikkonen. O finlandês, companheiro de Massa na Ferrari, conforme se esperava, começou a temporada muito mais bem preparado que em 2007, quando estreou na Ferrari. Aliás, o avanço de Raikkonen não é novo.

Você lembra da segunda metade do último Mundial? A partir do GP da França, o finlandês chegou ao pódio em nove das dez etapas e somou 78 pontos dos 100 possíveis, com cinco vitórias. Essa arrancada somada à política liberal da McLaren na concorrência interna entre Fernando Alonso e Lewis Hamilton levou Raikkonen a conquistar, com mérito, seu primeiro título.

Massa ficou de fora da luta pelo campeonato por ter cometido erros nas provas da Malásia, Canadá e Hungria e em razão de panes no equipamento nas etapas da Austrália, Grã-Bretanha e Itália.

Bem, aí o ano acabou e 2008 representava uma nova oportunidade para Massa. Rapidamente viu, já na pré-temporada, que seu desafio seria maior. O companheiro encontrava-se hiper-estimulado pela vitória no Mundial, a Ferrari concebeu um carro melhor, mais eficiente em curvas de baixa velocidade, sua maior dificuldade com o F2007, e com menor tendência de sair de frente, como gosta o finlandês.

Tem mais: os pneus Bridgestone não mais representam novidade para Raikkonen e a relação com o grupo se desenvolveu, em especial com seu engenheiro de pista, o australiano Chris Dyer, ex-Michael Schumacher.

Vimos, portanto, que o primeiro adversário de Massa, seu próprio companheiro, reúne condições bem mais favoráveis para realizar melhor trabalho que no início de 2007.

E o que Massa tem a seu favor? A não ser a experiência de mais uma temporada de aprendizado, quase todo o restante joga contra si. Por exemplo: como ele próprio admitiu depois do erro na Malásia, embora acredite que não errou em Sepang, a ausência do controle de tração, este ano, o prejudicou. Não disse, mas podemos afirmar que mais a ele que Raikkonen.

Outro ponto contra si e este a meu ver é o principal é a dificuldade de Massa de conviver com um companheiro que se mostre mais capaz. Michael Schumacher é uma exceção. Massa o usava como referência de performance para orientar seu desempenho, mas se não desse, não o desestabilizaria, afinal estamos falando de um dos pilotos mais completos de todos os tempos.

Mas Raikkonen não é Schumacher. Superar Schumacher, se não for possível, é compreensível. Agora, Raikkonen, não. O finlandês, com o mesmo carro, é, sim, concorrente a ser batido. Não que Massa vá dormir e acorde dizendo a si mesmo “tenho de ganhar dele”. O piloto precisa deixar para trás os demais 21 colegas que alinham no grid. Mas o primeiro desafio é dentro de casa, por haver parâmetro direto para julgar seu trabalho, pois os dois dispõem do mesmo equipamento.

Raikkonen é um piloto mais completo que Massa. Defendo até que em uma volta lançada, o brasileiro tenha alguns milésimos de segundo na manga do macacão. Mas isso, sozinho, não ganha corrida que é, em essência, o que mais importa na Fórmula 1.

A maior capacidade de Raikkonen em compreender globalmente a competição e seu menor índice de erros fazem a diferença. E olha que a evolução de Massa nesse aspecto, depois da convivência com Schumacher, cresceu de forma significativa. Não imaginei que fosse se desenvolver tanto por conhecer Massa desde o kart e ele trazer consigo essa característica de ser impressionantemente veloz, possuir controle do carro capaz de encantar, mas que, vez por outra jogava tudo a perder.

Massa venceu duas provas em 2006 com Schumacher na pista e com o mesmo carro. É algo notável. Ano passado, foram mais três vitórias. Seu mérito é grande por associar maior regularidade a seus dotes de velocidade. O automobilismo já viu muitos pilotos que chegaram e saíram da Fórmula 1 sendo apenas velozes. Massa cresceu, o que não é muito comum a esse tipo de piloto, mais reativo que reflexivo.

Massa está, pelo que compreendi em Melbourne e Sepang, cobrando a si próprio de maneira equivocada, submetendo-se inconscientemente a uma pressão que imagina não existir. A Fórmula 1 sempre exige o máximo de cada um, mas Massa colocou para si parâmetros mais elevados do que pode oferecer. Rodou na saída da primeira curva, depois da largada, na Austrália, na tentativa de acompanhar os que estavam a sua frente, e na Malásia na busca por reduzir a diferença que o separava de Raikkonen depois do primeiro pit stop.

Enquanto Raikkonen ficou atrás de Massa no circuito de Sepang, o brasileiro não cometeu único deslize e a diferença entre ambos oscilou na casa dos dois segundos a seu favor. Mas foi só o finlandês ter pista livre para impor seu ritmo, claramente mais rápido que o do companheiro. Aquilo para mim é emblemático dos dois pilotos da Ferrari este ano. Massa consegue ser mais eficiente que Massa e numa proporção maior da que assistimos ano passado. Pelos motivos já expostos.

Como não poderia deixar de ser, Massa não aceita e tenta correr atrás. Se tudo se resolvesse numa volta lançada, é provável até que Massa talvez vencesse a disputa. O que está em jogo, no entanto, é bem mais que isso. E na maioria dos quesitos que entram em cena Raikkonen se mostra um pouco superior ao companheiro, o que na média final traduz sua maior capacidade de piloto.

Há outro aspecto importante contra Massa. As suas cinco vitórias na Fórmula 1 foram conquistadas com a mesma receita: largou na frente e dominou a corrida. Turquia e Brasil, em 2006, e Bahrein, Espanha e Turquia ano passado. Com um bom carro na mão e estando na frente, Massa demonstra competência para vencer com autoridade. Curiosamente, para muitos pilotos esse é um desafio maior do que se largam mais atrás no grid.

Não vimos nenhuma situação, até agora, em que Massa veio ultrapassando todos e, no fim, depois de excepcional performance, venceu ou lutou pela vitória. Não é seu estilo. Ao contrário, ou realiza desempenhos apenas bons, como na Austrália, ano passado, ao largar em último e chegar em sexto, e Grã-Bretanha, da mesma forma, obteve o quinto lugar, ou, pior, erra, como domingo na Malásia e lá mesmo em 2007, na luta com Lewis Hamilton.

Peter Sauber, sócio da equipe onde Massa correu na estréia na Formula 1, em 2002, e em 2004 e 2005, destacou exatamente isso: sob pressão, sua margem de erros se eleva. “Perde a concentração”, como afirmou.

Quer dizer, então, que não há saída, Massa já perdeu a disputa interna na Ferrari e o Brasil pode dar adeus à possibilidade de ser campeão de novo? Ainda não. As chances são menores que em 2007, sem dúvida, mas Massa tem pela frente agora três pistas em que venceu, Bahrein, Espanha e Turquia. E ao contrário do que as pessoas pensam, a Ferrari ainda não pensa em substituí-lo em 2009.

É bom não abusar da sorte e continuar errando, no entanto. Se lá pela altura do GP da Grã-Bretanha Stefano Domenicali e Luca di Montezemolo virem que o índice de equívocos de Massa pode não colaborar nem mesmo para a conquista do título de construtores, por exemplo, aí sim entrará em pauta a eventual troca de piloto no fim do ano.

Por enquanto, pelo contrário, vejo o pessoal da Ferrari dando todo o apoio a Massa, o mesmo equipamento e a opção de parar uma volta antes, no primeiro pit stop na Malásia, foi de responsabilidade totalmente sua e de seu engenheiro, Rob Smedley. Como já li e ouvi, recomendo não acreditar nessa história de que está sendo preterido na Ferrari.

Domingo conversei informalmente com Fernando Alonso, enquanto caminhava do paddock para o estacionamento, depois da corrida. Foi bastante atencioso. Ele me vê em quase toda entrevista junto dos espanhóis e dedicou alguns minutos do seu tempo, sempre refletindo bem antes de responder.

Minha pergunta foi, claro, sobre se era possível para Massa reverter momento tão desfavorável. Alonso critica abertamente Massa a quem define como “piloto nem sempre muito correto na hora de ser ultrapassado”. Disse-me: “Nós pilotos temos maior autoconfiança do que parece. Sempre acreditamos que somos capazes. Se Felipe conquistar um ou dois resultados positivos, rapidamente tudo fica no passado. Acho perfeitamente possível sair dessa situação. Basta ter resultado.” Lembrou, ainda, que Massa já venceu várias corridas, não é o caso de ter de aprender a vencer.

Se Alonso falou, quem sou eu para dizer algo contra, até porque foi isso mesmo que aprendi nessas quase duas décadas acompanhando a Fórmula 1 no local dos eventos. Realisticamente Massa tem de dimensionar a forma como deve enfrentar um adversário mais bem preparado, ao que parece seu maior concorrente na luta pelo título.

E, em ocasiões como de Sepang, contentar-se com o segundo lugar em vez de tentar reverter situação em que a chance de não dar certo e desperdiçar a oportunidade de marcar pontos é muito maior. Assim, quando perder as disputas, ao menos não estará distante na classificação, como começará a ficar em breve pela atual projeção.

Nas provas em que der para manter Raikkonen atrás, aí sim, jogar duro, como fez na Turquia, ano passado, e tentar vencer. Não há, penso, outra saída. Nada garante que ao reverter a condição não seja o finlandês a desestabilizar-se que, apesar de mais completo que Massa, em algumas oportunidades também erra.

Amigos, agora são 5h20 desta quinta-feira e o fuso horário me fez despertar há mais de uma hora. Na Malásia estávamos 11 horas adiante. Acho que me estendi demais no texto, como de costume.

Abraços!

Veja o vídeo em que analiso o momento de Massa na TV Estadão.

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