Pouca validade dos testes pode gerar surpresas nas primeiras corridas do campeonato

liviooricchio

27 de fevereiro de 2013 | 19h52

27/II/13
Granollers, Espanha

Olá amigos. Cheguei há pouco ao hotel, aqui em Granollers, distante apenas seis quilômetros do Circuito da Catalunha. O tempo está totalmente encoberto, mas não chove. Faz bem menos frio, ao menos agora, 23 horas de quarta-feira, que na semana passada. O termômetro da rua indica 10,5 graus Celsius, cenário bem distinto dos 2 graus e vento gélido dos dois últimos dias de testes, quinta e sexta-feira.

Deixei recado no celular de Luiz Razia e não obtive retorno. O telefone da assessora de imprensa da Marussia, Tracy Novak, deu caixa postal. Não é um bom sinal. É provável que Max Chilton comece o treino amanhã. Soube que há, sim, atraso no pagamento do acertado entre Razia e John Booth, chefe da Marussia. Booth não quis saber na semana passada de estender alguns dias o prazo para o dinheiro dos patrocinadores de Razia, que eu não sei quem são, chegar à conta da escuderia e o impediu de treinar.

Tomara que não seja esse o caso, mas parece que as coisas caminham para o mesmo desfecho agora de novo, o que me faz questionar até mesmo o futuro desse bom piloto baiano de 23 anos na Marussia e, por conseguinte, na Fórmula 1.

Redigi o texto a seguir para a edição impressa do Estadão de amanhã. Onde vocês lerem “ontem”, entenda como hoje, e onde está escrito “hoje” significa amanhã. Nos falamos já da sala de imprensa do Circuito da Catalunha, amanhã (quinta-feira) onde é horrível trabalhar nesse período. Explico no texto.

Abraços!

O texto:

Talvez agora as equipes de Fórmula 1 decidam fazer um sacrifício financeiro maior e programem para 2014 uma série de treinos de pré-temporada numa pista onde as temperaturas são elevadas e chove pouco. O último teste deste ano começa hoje no Circuito da Catalunha, em Barcelona, mas a previsão do tempo é a mesma da semana passada, quando os times fizeram a segunda série de ensaios, lá mesmo: frio e chuva. O campeonato pode começar sem que os times tenham maiores referências dos carros e dos pneus para as condições das provas, onde com certeza fará mais calor.

Até agora os 24 pilotos e as 11 escuderias que vão disputar o Mundial desconhecem por completo como o carro reage com os novos pneus Pirelli supermacios, os programados para a etapa de abertura, dia 17 na Austrália, ao lado dos médios. O asfalto abrasivo ao extremo em Jerez de la Frontera, autódromo do primeiro teste, e o frio em Barcelona impediram de esses pneus serem testados. “As equipes precisam de temperaturas mais normais para entender as necessidades dos próprios carros também”, disse Fernando Alonso, da Ferrari, semana passada. O modelo F138 italiano sofria com a temperatura alta da água e do óleo, apesar do frio.

No último dia de teste no Circuito da Catalunha, sexta-feira, o asfalto permaneceu com cerca de 5 graus Celsius e à tarde até começou a nevar. E os times já sabiam que para a série que se inicia hoje a situação seria semelhante. “A previsão não é diferente para a próxima semana”, disse, ao Estado, Francesco Nenci, engenheiro de Steban Gutierrez, piloto da Sauber.

“Os pneus e os carros têm comportamento distinto de como vão reagir em Melbourne, onde não fará frio”, afirmou, ao Estado, Jenson Button, da McLaren. “Eu nunca participei de treinos onde a situação fosse tão desfavorável”, comentou Mark Webber, da Red Bull. Nos quatro dias do último ensaio, Sergio Perez, da McLaren, estabeleceu a melhor marca, 1min21s848, com pneus macios, e a Williams foi quem mais quilômetros acumulou, 1.708.3.

Se a previsão meteorológica para Barcelona se confirmar, as primeiras provas da temporada podem apresentar resultado surpreendente. “Não acredito em mudança radical em relação ao que vimos nos treinos até agora, mas é possível, sim, alguém se adaptar mais rápido a essa realidade, disputar o campeonato sem testes válidos, e no início se dar bem melhor que os demais”, comentou em Barcelona Ross Brawn, diretor da Mercedes.

No GP da China do ano passado, em Xangai, o frio inesperado corroborou de forma decisiva para a pole position e a vitória de Nico Rosberg, da Mercedes, a que melhor soube explorar os pneus Pirelli para aquela condição, ao fazê-los atingir a temperatura ideal de aderência. A organização alemã não venceria mais em 2012.

Este ano a Pirelli ampliou a faixa de temperatura em que os todos os pneus para pista seca, supermacios, macios, médios e duros, respondem com o máximo de aderência. Button ressaltou a mudança nos testes de Barcelona. “Ficou mais fácil entender como tirar mais dos pneus.”

Ensaio mais importante

Sobre o ensaio que começa hoje, Paul Hembery, diretor da Pirelli, falou ao Estado: “O último teste é o mais importante porque muitas escuderias trazem substanciais novidades para serem avaliadas nos seus carros e é onde ocorrem as simulações efetivas de corrida. Elas têm todos os tipos de pneus à disposição”. Quanto a treinar num clima mais compatível com que a Fórmula 1 enfrentará durante a temporada, comentou: “A decisão não é da Pirelli, mas das escuderias.”

Se não houver mudança de última hora na escala dos pilotos anunciados, começam hoje os treinos: Mark Webber, na Red Bull; Felipe Massa, Ferrari; Sergio Perez, McLaren; Romain Grosjean, Lotus; Lewis Hamilton, Mercedes; Esteban Gutierrez, Sauber; Valtteri Bottas, Williams; Jean-Eric Vergne, Toro Rosso; e Charles Pic, Caterham.

Luiz Razia não havia sido confirmado pela Marussia até ontem à noite.

As opções iniciais de circuitos para as escuderias treinarem e evitar o que tem boa chance de acontecer agora, os testes de inverno serem relativamente pouco úteis, seriam Abu Dabi e Bahrein. Porém o traçado de Abu Dabi é do tipo que não acrescenta muito conhecimento, os engenheiros o descartam, ao ser composto por retas interrompidas por curvas lentas, e a situação política em Bahrein ainda não é normal. “É questão de estudar e encontrar um local, caso haja interesse”, falou Hembery.

Para 2014, testar no calor será decisivo

Testar em condições de temperatura semelhantes às das pistas onde as corridas vão ser realizadas será ainda mais fundamental no ano que vem, prevê o chefe dos engenheiros da área de motores da Ferrari, Luca Marmorini. “Para 2014 o problema se agrava porque muda tudo na Fórmula 1, como o motor, que passa a ser turbo de uma geração que nada tem a ver com a que existia na Fórmula 1 no fim dos anos 80”, lembrou, em Barcelona, semana passada.

“E serão apenas cinco motores por piloto para todo o campeonato em vez de oito como hoje. As equipes estão negociando um treino extra, no começo de 2014, mas não sabemos se haverá e em que circuito.” Espera-se que apesar das dificuldades econômicas dos times, será essencial incluir nas suas despesas um período de quatro dias, ao menos, em circuitos mais quentes, para o desenvolvimento normal da competição no começo de 2014.

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