Quem tem razão, Toro Rosso e Super Aguri ou Williams e Spyker?

liviooricchio

29 Janeiro 2007 | 20h23

Frank Williams já avisou que irá recorrerá à Justiça se os carros das equipes Toro Rosso e Super Aguri forem apenas sutis derivações dos modelos que lhes darão origem, Red Bull RB3 e Honda RA106. A direção da Spyker manifestou-se da mesma forma.
Para compreender a questão: a Toro Rosso vai disputar o campeonato de Fórmula 1 com um carro que é, na realidade, o modelo da Red Bull que foi apresentado dia 26, em Barcelona, mas equipado com motor Ferrari em vez do Renault.
E a Super Aguri terá o carro utilizado pela Honda no fim da temporada passada, o mesmo que permitiu a Jenson Button tornar-se o piloto que mais pontos marcou nas seis última etapas.
E por que a Toro Rosso vai correr com a base do monoposto da Red Bull e a Super Aguri o da Honda? Simples: Dietrich Mateschitz, proprietário da Red Bull, é também sócio de 50% da Toro Rosso. E a Honda e a Bridgestone são quem bancam a Super Aguri.
O ousado empresário austríaco investiu elevada soma em dinheiro para reestruturar as instalações de seu time, em Milton Keynes, Inglaterra, segundo a orientação do genial projetista Adrian Newey, autor do carro deste ano. Newey transformou a modesta sede da Red Bull numa estrutura semelhante à dos bons times da competição.
Já a sede da Toro Rosso, em Faenza, Itália, apesar de também ter-se desenvolvido ano passado, ainda assim está bem aquém dos recursos da Red Bull, em especial quanto ao túnel de vento, tema de fixação de Newey.
O que Mateschitz fez ao atender às solicitações de Newey para “atualizar”as instalações da Red Bull foi, na realidade, criar um centro de estudos capaz de atender às necessidades das duas equipes, Red Bull e Toro Rosso.
O que existe em Faenza, e não é pouco, produzirá o carro da Toro Rosso, cujo projeto virá do centro de estudos de Milton Keynes. E o projeto do novo Toro Rosso, ao que tudo indica, é, como disse, apenas o modelo RB3 da Reb Bull adaptado para competir com o motor Ferrari.
Vamos nos colocar na condição do senhor Mateschitz: faria sentido mobilizar outro grupo de projetistas, construir mais um supertúnel de vento na Itália – porque o da Inglaterra será sempre utilizado pela Red Bull – e bancar todos os complexos e caros desdobramentos dessa iniciativa?
A resposta é óbvia: não!
Agora, voltemo-nos para o regulamento da Fórmula 1. O texto é explícito: cada equipe tem de construir o próprio chassi. Não é permitida a cessão ou venda de chassi entre os times da competição. O que Mateschitz e seu sócio estão fazendo? Argumentando que toda a porção final do monoposto da Toro Rosso é nova, por usar motor Ferrari e não Renault, como a Red Bull, e portanto o carro é diferente.
O caso da Super Aguri não é diferente. De suas instalações em Leafield, na Inglaterra, da mesma forma não sai projeto algum, apesar de não serem modestas. Pertenciam à antiga Arrows. Tive já a oportunidade de conhecer as duas sedes, da antiga Jaguar, em Milton Keynes, hoje da Red Bull, e da Arrows, agora da Super Aguri. Esta era até mais bem equipada.
A Honda possui uma super-sede em Brackey, na Inglaterra, a 20 minutos de carro de Milton Keynes. Rubinho me contou, semana passada, que estão realizando o desenvolvimento do novo carro no túnel na escala 100%, ou seja, utilizam o próprio RA107. “Os resultados na pista, depois, são mais fiéis aos do detectados no túnel”, explicou.
Como a direção da Red Bull, os japoneses da Honda irão aproveitar parte do que já realizaram para seu time principal na segunda equipe. A Super Aguri só foi criada para garantir a presença de um piloto japonês como titular de uma escuderia na Fórmula 1. Apesar de todos os desmentidos.
Colocar para correr um terceiro e quarto carros custa, lógico, mas bem menos que se tivessem de manter toda a estrutura de uma organização de verdade da Fórmula 1.
O que diz a FIA: classifica tanto o projeto da Toro Rosso quanto o da Super Aguri como “legais”. Já ouvi do próprio Max Mosley: “Se dois projetos vêm de um mesmo centro de estudos, ainda que tenham suas similaridades, a FIA os considera aptos a correr.”
É o que Berger está dizendo. Tanto ele quanto Aguri Suzuki enviaram os projetos de seus carros à FIA para uma consulta. Diante da aprovação da entidade, irão colocá-los para competir. Grite quem desejar.
Frank Williams e os proprietários da equipe Spyker estão esperneando por um motivo simples: a tendência é a de Toro Rosso e Super Aguri crescerem. Dessa forma, as duas últimas colocações na Fórmula 1 poderiam ser ocupadas por quem? As próprias Williams e Spyker, que não dispõem do mesmo fôlego financeiro da Red Bull e Honda, bem como da estrutura técnica que estas desenvolveram. A Williams até que não é bem o caso, mas seus recursos já não são os mesmos das que lutam pelas vitórias. A começar pelo número de funcionários.
O que eu penso disso tudo?
A mais modesta equipe da Fórmula 1, digamos a Minardi antes de transformar-se em Toro Rosso, dispunha de uma infra-estrutura técnica superior a qualquer outra escuderia de seja lá qual for a competição fora da Fórmula 1. Sabe por quê? Porque o regulamento exige que os concorrentes se responsabilizem pela construção de seus carros.
A Minardi era cerca de 1,5 segundo e meio mais lenta, na média, que os melhores carros da Fórmula 1, Ferrari, por exemplo. E era tida como símbolo do fracasso. Mas o que nem todos têm consciência é de que para ser apenas 1,5 segundo mais lenta que a Ferrari, a Minardi tinha de ser muito eficiente tecnicamente.
Sem a obrigação de projetar o monoposto e depois desenvolvê-lo em todas as suas áreas, agora responsabilidade do centro de estudos da Red Bull, não há dúvida de que as princ ipais funções exercidas pela Toro Rosso na sua sede, na Itália, são deslocadas para a Inglaterra. Trata-se de uma perda para a Fórmula 1. Se um dia Dietrich Mateschitz e Gerhard Berger decidirem desfazer-se daToro Rosso, quem a adquirir terá de ter em mente que precisará dispor de importante orçamento para revitalizar o que está atrofiado. Na maioria das vezes, terá de repensar o setor técnico como um todo.
Mario Theissen, diretor da BMW, e Pat Symonds, da Renault, disseram que se essa moda pegar, um time repassar o carro para outro, a Fórmula 1 terá, em breve, seis projetos originais e seis verdadeiras cópias, mas maqueadas. Faz todo sentido.
Por outro lado, esperar que a Red Bull e a Honda não usem toda a estrutura que montaram para seus dois times e suas escuderias-satélite é agir contra a lógica.
Se esse for o caminho, algumas equipes dividirem seus interesses em dois times, será inevitável que seus projetos sejam repassados às organizações satélite. E num certo sentido, também fará bem à Fórmula 1.
Vamos ver este ano, tudo leva a acreditarmos nisso, uma Toro Rosso e uma Super Aguri mais eficientes que em 2006. A diferença de performance para suas escuderias-mãe tende a ser menor. Não deixa de ser uma forma de elevar o nível esportivo da competição. Em resumo: estou com Mosley, Berger e Aguri Suzuki.