Raikkonen já trabalha na Ferrari. O que esperar?

liviooricchio

08 de dezembro de 2006 | 13h05

Kimi Raikkonen começou a trabalhar na Ferrari. Nos testes que se estendem até hoje, sexta-feira, em Jerez de la Frontera, o finlandês, vestido à paisana, participa das reuniões da equipe, tenta compreender a mecânica de funcionamento da organização, mantém conversas regulares com Felipe Massa, seu novo companheiro, e com certeza já tem noção das reações básicas do modelo 248 F1, mesmo sem pilotá-lo. O que esperar de Raikkonen na Ferrari?

Potencialmente, muita coisa. Raikkonen é um piloto bastante veloz, erra pouco e está mordido com a falta de confiabilidade dos carros da McLaren-Mercedes. Quer a todo custo ser campeão. Assisti a algumas demonstrações de irritabilidade do finlandês com seu ex-time. Tudo por conta de ele assumir mais riscos dos normais para destacar-se numa competição e, na hora h, o carro ou o motor o deixar na mão. “Ao me transferir para a Ferrari espero ter equipamento para receber a bandeirada. Esse foi um dos fatores decisivos para aceitar o convite de Jean Todt”, disse Raikkonen. As estatísticas jogam a favor de sua expectativa.

Há, porém, alguns fatores que gostaria de sinalizar e que me deixam um tanto em dúvida se Raikkonen pode mesmo “explodir” na Ferrari, ou seja, ter um índice muito elevado de aproveitamento. Que vencerá corridas, eventualmente disputar o título, não hesito em acreditar. Mas ser aquele piloto que já inicia a competição com certo favoritismo, não sei não. Está mais para não que para sim.

Explico: já nesses dias em Jerez, ainda que seja apenas um treino de pré-temporada, o finlandês, se é que não sabia, viu que o regime de trabalho na equipe é intenso. Rubens Barrichello vivia se queixando com pessoas próximas sobre o número de reuniões. Uma ocasião, havia saído de um desses encontros técnicos e, conversando comigo, disse: “Agora às 19 horas temos outra reunião. É muita reunião, chega a ser, às vezes, contraproducente, assim como não me parece ideal o número de quilômetros de testes que realizamos. Há certos momentos que você, por cansaço, começa a se dispersar.”

Raikkonen definitivamente não é do tipo disciplinado para atender a todos esses compromissos profissionais, em especial no fim de semana de competição, onde as tensões se elevam. Terá de atendê-los, lógico, mas com certeza não vai dedicar a atenção que a Ferrari está acostumada com Michael Schumacher e que Felipe Massa, depois de alguma resistência inicial, por se assemelhar num certo sentido com Raikkonen, acabou por emprestar.

Agora que ele deixou a McLaren, Ron Dennis, sempre fã-confesso de seu piloto, declarou: “Kimi não ouve ninguém. Aliás, acho que nunca ouviu.” O inglês comentou a respeito da insensibilidade do finlandês com a orientação da equipe. Era tudo o que a sua cabeça mandava e pronto. Isso para não falar de seus hábitos, ainda que esporádicos, de embebedar-se, nada condizentes com um profissional cuja atividade coloca a vida em risco e a diferença entre os mais e os menos eficientes se mede em milésimos de segundo.

A esse respeito, estou extremamente curioso para ver como Jean Todt irá trabalhar o tema. Dennis é sisudo, mas demonstrou paciência não esperada com Raikkonen nesse aspecto. Todt é diferente. Mais humano do que sua postura distante sugere, mas duríssimo no cumprimento da filosofia de trabalho da organização que dirige. Mesmo porque Todt dá o exemplo. Poucos têm a sua dedicação à Ferrari.

Tive já a oportunidade de visitar a equipe, nos recebeu em sua sala, e em conversa com outros profissionais da escuderia, todos ressaltam a carga horária de suas atividades. Nada passa ao acaso. Ninguém questiona na Fórmula 1 que o avanço da Ferrari para tornar-se a equipe de maior sucesso na história, em todos os tempos, de 1999 a 2004, está relacionado diretamente à competência de seu diretor-esportivo e depois diretor-geral, Jean Todt. Os outros sustentáculos foram Michael Schumacher e coordenação técnica, sob o comando de Rory Byrne e Ross Brawn.

Imaginar que Todt terá toda distensão do mundo com Raikkonen equivalerá a renunciar a sua política de liberdade com cobrança extrema que domina seus 13 anos, a maioria bem-sucedidos, de Ferrari. Pode ser, também, que nem venha a se desgastar com Raikkonen. De repente ele se regenera de vez e, diante da responsabilidade que lhe foi atribuída, o dinheiro que está ganhando e o sonho de ser campeão, suas farras deixam de existir.

Outro fator contra o finlandês é que a cartilha “Caminho Suave” de como se comportar em público distribuída assim que assinou com a Ferrari é verificada depois, ponto por ponto, se acabou assimilada. Não foi uma ou duas vezes que a Mercedes teve de vir a público explicar o comportamento de seu piloto em boates pelo mundo.

A Ferrari não faz isso. Age com energia e rápido contra quem ousar afrontar seus mandamentos e interesses. Não tolera esses deslizes, apesar dos atenuantes de Raikkonen estar fora dos dias de competição, ter apenas 26 anos, ganhar muito dinheiro, situação difícil de administrar, em especial porque vem de uma família em que o pai, conforme já contou, optou por investir na carreira de kart do filho o dinheiro que tinha para construir um banheiro dentro de casa. Na Finlândia, imagina! Mais: as frustrações no relacionamento com esposa, a ex-miss Escandinávia.

O que Raikkonen irá responder a quem acompanha a Fórmula 1 é se todos esses fatores, de significado elevado, não irão interferir na sua performance na Ferrari. Como piloto, passado o período natural de adaptação ao carro, aos pneus Bridgestone – competia com Michelin – e à metodologia de trabalho da escuderia italiana, dá para apostar nele. Até para ser campeão em 2007. Será uma concorrência dura com Massa. Pelo fato de ser mais experiente e até já ter sido duas vezes vice-campeão do mundo (2003 e 2005), é possível que depois de algumas provas consiga se impor a Massa e, na média, dar-se um pouco melhor, embora a evolução do brasileiro tenha sido notável no fim do campeonato.

Mas apenas ter dotes de velocidade, regularidade, dedicação não é sufuciente para fazer sucesso de verdade na Fórmula 1. Há fatores externos que interferem diretamente da capacidade de os pilotos produzirem, serem velozes, regulares e dedicados. E é nesse parâmetro que Raikkonen não corresponde a suas virtudes naturais. Pior: numa organização que não tolera isso. Vamos ver. Já começo sentir aquele vontade de embarcar para Santiago do Chile e de lá para Aukland, Nova Zelandia, para, em seguida, voar a Melbourne.

Abraços!

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