Raikkonen não sabe o que o aguarda

liviooricchio

23 de agosto de 2006 | 21h41

Istambul, Turquia.
Estou só imaginando como será a vida de Kimi Raikkonen na Ferrari. A edição de hoje da Gazzetta dello Sport fez o maior carnaval com o enésimo porre do finlandês. E olha que tudo aconteceu ainda no domingo à noite do GP da Hungria, há mais de duas semanas.
Descobriram que ele não estava na festa da Red Bull coisa nenhuma, como jurava. Encontrava-se, mesmo, numa boate. A mulheres húngaras têm fama de estarem dentre as mais bonitas da Europa. Algumas dessas boates reúnem moçoilas de traços de fato bastante elegantes; passariam, fácil, por modelos.
Há alguns anos, o governo húngaro fez um trato com elas. Poderiam colocar na vitrine seu principal produto de exportação, a beleza e o acesso a essa beleza, mas numa área localizada próxima ao circuito Hungaroring, numa pequena cidade lá existente. A medida atingiria a vários interesses: confinaria as mocinhas num ponto menos exposto que o centro de Budapeste, o que é bom para a imagem da nação, e, ao mesmo tempo, estariam mais próximas do mercado consumidor em potencial, o pessoal da Fórmula 1.
Até que o trato funcionou no primeiro ano, mas depois, pelo que percebi ainda na edição deste mês da prova, tudo voltou como antes. Raikkonen, um emérito folião, apesar da postura equidistante em relação à maioria dos que se aproximam dele, daí o apelido de Homem de Gelo, não poderia mesmo perder a viagem à Hungria. Era a grande chance de derreter-se por completo.
Há algumas corridas, Ron Dennis estava cercado por jornalistas, domingo pela manhã, e lhe perguntaram sobre Raikkonen, especificamente suas noitadas. Ouvi ele dizer: “Não temos nada a ver com sua vida pessoal.” Confesso ter ficado surpreso com a resposta. E não fui só eu porque dias mais tarde li que Norbert Haug, diretor-esportivo da Mercedes, exigiria uma postura mais condizente do piloto com relação “às empresas que investem nele e, por isso mesmo, as representa.”
Mas agora Raikkonen está de saída para a Ferrari e talvez não lhe criem maiores problemas. A questão é o que o aguarda na Scuderia di Maranello.
Em 2000, Rubens Barrichello venceu seu primeiro GP, em Hockenheim. Claudio Berro, grande profissional, então responsável pela comunicação da equipe, veio conversar comigo. Fizemos um acordo: eu iria para Fiorano, segunda-feira, onde o Rubinho treinaria, e eu faria uma entrevista politicamente correta com o piloto, em português, para as imagens serem distribuídas.
Claro que ganhei de presente o direito de andar na Ferrari 360 Modena na pista e, depois, com o Rubinho, num desses modelos do Campeonato Ferrari Challenger. Abusamos tanto dos freios que o pessoal acenava ao passar diante do box único do circuito. Havia chamas nas rodas. Queriam que parássemos. O Rubinho obedeceu.
O que desejo dizer é que na Ferrari a imagem do piloto é profundamente mais trabalhada e policiada que na McLaren. Mesmo que o Raikkonen estréie com vitória, ano que vem, domine a temporada, terá de acatar o que a direção da Ferrari lhe impõe como norma fora dos autódromos, sob pena de haver um conflito entre os dois lados. Jean Todt não é Ron Dennis nesse aspecto. E tem mais: Todt vem de anos de relacionamento com Schumacher, um dos pilotos mais profissionais que a Fórmula 1 conheceu.
A não ser quando lhe pediram cautela por expor-se a saltar de pára-quedas e andar de moto, Harley Davidson série Schumacher, ninguém na Ferrari precisou lhe pedir nada com relação a seu comportamento fora dos dias de GP. Aliás, a imagem de piloto campeão pai de família de Schumacher, mais que procedente, é perfeita para qualquer empresa associada a ele.
Estou certo de que Raikkonen levará em breve para casa uma versão da cartilha editada pela Ferrari. Para ter um caminho suave na equipe não bastará fazer sucesso como piloto. A Fórmula 1 moderna exige mais que isso. Os pilotos tornaram-se, mais do que nunca, relações públicas de quem lhes coloca adesivos de publicidade no macacão, capacete e boné. E falamos de milhões e milhões de euros de investimentos. Não dá mesmo para aceitar que o garoto-propaganda seja um bebum.

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